sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Visitante da Noite


O visitante da noite, é como eu o chamo. Não que só faça visitas noturnas, na verdade vem quando quer, na hora que quer e, como se todo ciente de que em algum lugar do mundo sempre é noite, ignora os hemisférios e faz-se trevas não importa onde. Na verdade ele só ganhou essa alcunha depois de conquistar certa familiaridade, afinal são anos de concursos íntimos.
Suspeito que ele seja uma espécie de íncubo, demônios conhecidos por se apossar do corpo das mulheres enquanto dormem, especialmente quando estão tendo sonhos lascivos. Dizem que eles drenam toda a energia da escolhida para dela se alimentar e, na maioria das vezes, deixa-a morta ou então viva, mas em condições muito frágeis. Pois bem, o meu íncubo tem lá suas peculiaridades: não escolhe hora para aparecer e, ao que tudo indica, não me quer morta.
Se quanto a frequência de suas visitas, é inconstante, quanto ao modo de agir é totalmente previsível. Sempre a mesma rotina. Primeiro ele se faz anunciar. Não gosta de chegar sem ser notado e acredita mesmo que deva ser esperado com alarde. Embora nunca tenha visto seus olhos, sei quando ele se aproxima pelo cheiro. É assim que as mulheres conhecem, não apenas os amantes, mas todo aquele que lhes toca a carne. Dizem que vítimas violentadas com os olhos vendados são capazes de reconhecer o agressor pelo olfato. É verdade.
Posso estar distraída lendo um livro, ou muito ocupada com alguma tarefa urgente – ele costuma rir dessa urgência, pois sabe o que será dela depois que se ele se instalar – e então percebo sutilmente o odor característico invadindo a cena.  No início é tudo tão rápido que tento me convencer de que foi apenas minha imaginação. Mas é tarde, nesse instante de dúvida ele já encontrou caminho pra se fazer presente nos meu pensamentos  e só vai sair de lá quando lhe der na telha.
É assim que ele chega, cheirando à morte e destruição. Não a morte certa e esperada para todo ser que vive e que anuncia um fim. É outra coisa que opera mantendo o corpo vivo, enquanto assiste a morte ser. É assim que ele gosta, pois que se eu morresse ele perderia o espetáculo que é  ver-me debatendo-me em vão, certo de que vai entrar. Na hora que quiser.
Assim como um amante, ele entra em meu corpo pela fenda que desde o início dos tempos compraz os homens. Se aproveita do fato de que as mulheres sempre tiveram um buraco que as deixa vulneráveis, uma espécie de vaso comunicante por onde o mundo pode entrar e se misturar com suas vísceras femininas.
Mas nem sempre é para o prazer que eles o fazem. Entram por lá imbuídos dos propósitos mais diversos. O do meu visitante, por exemplo, é me eviscerar. Ele entra pela vagina e como um ácido potente em poucos segundos corrói toda a carne mole que encontra pela frente, do útero ao cérebro. Deixa, contudo, uma carcaça de pele e ossos para manter a aparência de que ali ainda há vida. Mas o que é que garante a especificidade de uma vida que se possa chamar de humana? O pensamento? Os sentimentos? A capacidade de investir afetivamente naquilo que lhe é caro? Pois ele se ocupa exatamente de eliminar qualquer desses vestígios.
É ele chegar e o mundo perder o interesse. O pouco de razão que ainda sobra em mim tenta fazer meu corpo autômato se mover em direção à algo que faça sentido, esperando que assim ele recobre ao menos a memória sensitiva do que era há quase poucos minutos, mas é tarde. É tarde de uma maneira inexpugnável, é como se o mundo fosse um final de tarde eterno, congelando aquele momento em que o sol se põe e as tintas da melancolia tingem o horizonte.
Depois disso ele se instala. Faz o tipo dessas visitas inconvenientes que chegam e não avisam a data de ir embora. Vai ficando. Começo a sentir muito sono, uma quase letargia. Penso em me render e deixar que ele assuma sozinho a cena. Mas seu gozo sádico não deixa, pois se há algo de que ele gosta é de me ver tentando sobreviver. Aí então ele sussurra em meu ouvido: - não vai querer que te vejam assim, hã? E a tua reputação? Ah, coitadinhos, como vão sofrer pai, mãe e filho se vislumbram que já morrestes? E com essa espécie de chantagem recebe permissão para fazer meu corpo funcionar como se fosse vivo. Existe algo nos faz acordar todos os dias, trabalhar, comer, tomar banho, etc. Agora imagine como é fazer tudo isso sem nada que mova o desejo. Beber sem sede, comer sem sentir fome, trabalhar sem saber porque, dar beijos de boa noite, sabendo que ela não pode ser.
 A única sensação que me permite sentir é a dor das cordinhas que ele cuidadosamente amarrou em cada um dos meus nervos, num ritual de uma antiga técnica de transformar humanos em marionetes.
Nesse estágio ele já se instalou com malas e tudo. Faz a festa no vazio que criou. Dança e rodopia feito um louco até me causar náuseas. Revira as gavetas que tanto me custou organizar. Lambuza-se no banquete sinistro que preparou com as sobras do que dissolveu por dentro, uma gosma de gordura e sentimento. Outras vezes inventa de fazer projeções em tela com o conteúdo dos meus pesadelos mais pavorosos enquanto arrota satisfeito com sua nauseabunda refeição.
Enquanto isso eu assisto a tudo sem encontrar palavras que possam dar nome ao que acontece. É o pior de tudo. Não posso pedir socorro, pois mesmo que alguém se dispusesse a ajudar eu não saberia dizer o que se passa. Uma espécie de abismo sem chão onde a vertigem da queda é a única certeza. As pessoas passam por mim como se fosse só mais um dia como outro qualquer, comentam as notícias da tv, perguntam sobre meus planos pro futuro, marcam reuniões para o dia seguinte sem saber que o diapasão que marca os dias e as horas não funciona mais. É noite enquanto ele quiser habitar meu corpo.
Um dia acordo e vejo que ele se foi. Não deixa rastro que permita saber porque veio e porque foi embora. Acho que isso faz parte de sua estratégia de provocar desespero. Alguns dias depois vou recobrando o controle da situação, sinto meu corpo vibrar, é sinal de que posso viver novamente. Abro as janelas, deixo o sol entrar.
No entanto, fica o estranhamento e, de tão absurda a situação, chego a me perguntar se ela existiu mesmo. Algumas vezes me convenço de que tudo não passou de um pesadelo. É isso, um pesadelo. Começo a acreditar que eu sou mesmo senhor do meu domínio e que nada pode abalar essa convicção.
Enquanto isso ele ri. Sabe que quanto mais desprevenida eu estiver na minha crença de que tudo não existiu, mais facilmente ele poderá entrar quando quiser. Podem ser meses, anos, semanas, ninguém nunca sabe quando ele resolve que está na hora de mais uma orgia pelo meu corpo. As vezes a frequência de suas visitas se intensifica e aí tenho medo que o meu mais sinistro pressentimento se confirme: não sou uma mulher que sonha com suas visitas. Sou sua prisioneira sonhando de vez em quando que é livre. 
Talvez essa seja mais uma de suas torturas.