domingo, 27 de maio de 2012

De volta ao Samba



Foram cinco anos esperando. Nenhum sinal dele, que resolveu se interessar por outras paragens. Andou escrevendo livros, dizem. Apesar de gostar muito de ler, confesso não ter muitos sentimentos amistososos por estes livros, pois os considero uma espécie de concorrente. Enquanto ele escreve, não canta. E eu fico aqui, esperando uma visita ao meu suburbano coração.
Mas ontem, enfim, ele disse o que eu ansiava ouvir:
"Pensou que eu não vinha mais, pensou, cansou de esperar por mim.
Acenda o refletor, apure o tamborim. Aqui é o meu lugar, eu vim. "
É estranho pensar que alguém fez parte de sua vida inteira e esse alguém não faz idéia disso. Uma espécie de delírio erotomaníaco onde o amado é escolhido sem participar em nada. Mas um delírio compartilhado continua sendo delírio? Sim, pois esse amor de um lado só, não é exclusividade minha. Ontem, hordas de mulheres (e alguns homens também) se agitavam pelos corredores, na fila do banheiro, por todos os lugares elas conversavam nervosamente, e o assunto era um só: ele!
Cada uma se enfeitou com todos os adornos, escolheu a roupa mais bonita, ajeitou o cabelo com esmero. Tudo na esperança de receber um único olhar..ah, aquele olhar que disparam olhos de uma cor que ainda precisa ser inventada! 
Enfim, a cortina se abriu e o primeiro encontro com o cenário já causou. Uma enorme banda de moebius ornava o centro do palco. Essa figura, inaugural da topologia, é demonstrativa de uma realidade sem dentro e nem fora que, em psicanálise, remete ao sujeito e à sua estruturação. Nela, ao contrário da tradição cartesiana, mente e corpo, não se opõem, mas compõem-se numa continuidade entre planos. O interior dessa banda é um vazio constituinte, necessário, pois foi a extração desse miolo que fez uma realidade possível. O que dali foi extraído ganha corpo fora, objeto causa do desejo.
Nos poucos minutos que antecederam sua entrada fiquei me perguntando: por que ele teria escolhido aquela figura para ser praticamente o único adereço de seu cenário? Já estava avisada de um certo "descaso" de sua parte para com as totalidades esféricas. Desde que ouvi seu "Querido Diário" onde ele conta que alguns amigos preocupados com sua solidão recomendaram que buscasse algum sentido, na religião, ou amando uma mulher sem orifício, mas que seu desejo inflama mesmo é quando ela chora. Desejo perverso, que só se revela  per versus, em versos e no anverso daquilo que contruimos como fachada.
A banda de moebius seria então uma resposta a esses amigos? Uma forma de dizer que o orifício é preciso, mas que viver não é preciso? Meus pensamentos sem resposta foram interrrompidos por sua entrada. Visivelmente mais velho nesses anos em que ficamos sem nos ver ele entra falando sobre a velhice, de alguem que já gerou dezoito filhas, mas que hoje depende de alguém que não veio lavá-lo. Certamente essa não é a condição dele, pois, caso precisasse, teria imediatamente milhares de cuidadoras zelosas à sua disposição.
Inclusive posso afirmar que sua presença ali, naquele momento, não remetia em nada à idade. pelo contrário, até mais solto do que de costume, cumprimentava a platéia, distribuía sorrisos largos, parecia feliz de estar ali. Quem sabe ele compartilha algo do que eu sinto, quem sabe em algum lugar recôndito ele pressente a minha presença..sonhar não faz mal né?
Quando ele disparou: "se eu só lhe fizesse o bem, talvez fosse um vício a mais. Você me teria desprezo por fim" pensei em como ele sabia sobre as mulheres: era assim, deixando uma falta, que se mantinha acesa a chama do desejo. Tá bom, eu aceito sob essa justificativa que ele continue me ignorando.
Mas em seguida ele me afagava, cantando a minha vida, como só saberia alguém que fosse muito íntimo: como é que ele sabe que o meu amor tem um jeito de pousar as coxas entre as minhas coxas quando ele se deita? Como me descreve assim, traiçoeira e vulgar, sem nome e sem lar? Como ele sabe que pedi ao pai para afastar de mim aquele cálice?
Algumas vezes errou um trecho, ensaiou um passinho de samba muito desajeitado, mas até errando ele é encantador.
Nesse ponto, já completamente extasiada, ouvi ele me contar uma história triste, triste, de um negro que cometeu o pecado de se apaixonar pela sinhá e por isso perdeu seus olhos...emoção enorme, sem palavras. Do dizer tudo, ao impossível de ser dito, ele me leva.
No final, brincou com todas me matando de ciúmes. Corria de um lado pro outro, pegava na mão de algumas, fingia que ia se jogar sobre aquele mar de mulheres enlouquecidas. Cantou sua tristeza em deixar a cidade "Hora de ir embora, quando o corpo quer ficar. Toda alma de artista quer partir. Arte de deixar algum lugar, quando não se tem pra onde ir".
Depois a brincadeira acabou e eu voltei à realidade onde ele nem sabe que eu existo. Mas comigo levando uma promessa feita, algo sobre a gente se encontrar, talvez no tempo da delicadeza. Onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantada, ao lado teu.