quarta-feira, 1 de maio de 2013

CRASH – ESTRANHOS PRAZERES



Com uma palavra, o que esse filme provoca no espectador? Angústia? Medo? Excitação? Parece que Ballard e Cronenberg se reúnem em Crash para lidar exatamente com esse misto de excitação e angústia.

O filme é inspirado no livro homônimo escrito por J.G. Ballard. O escritor nasceu em 1930, em Xangai, China, onde seu pai era empresário. Depois do ataque a Peal Harbor, Ballard e sua família foram colocados em um campo de concentração para civis. Retornaram à Inglaterra em 1946. Ballard passou dois anos em Cambridge, estudando medicina e trabalhou como redator de propaganda e porteiro antes de ir para o Canadá, com a RAF - Republican Air Force. Em 1956, seu primeiro conto foi publicado e Ballard começou a trabalhar como editor de uma publicação científica, onde permaneceu até 1961.

O autor sabe que está escrevendo para uma sociedade datada, aquela do século XX. Na introdução ao livro ele diz:
“O casamento entre a razão e o pesadelo, que tem dominado o século 20, deu origem a um mundo que é cada vez mais ambíguo. Pelo cenário das comunicações movem-se os espectros de tecnologias sinistras e os sonhos que o dinheiro pode comprar. Sistemas de armas termonucleares e comerciais de bebidas coexistem em um ofuscante reino governado pela publicidade e pelos pseudo-eventos, pela ciência e pela pornografia. Nossas vidas são presididas pelos grandes e geminados leitmotifs do século 20 sexo e paranóia. (...) Assim como o passado, em termos sociais e psicológicos, tornou-se uma vítima de Hiroshima e da era nuclear (quase que por definição um período no qual somos todos forçados a pensar prospectivamente), o futuro também está deixando de existir, devorado por um presente que é todo voracidade. Anexamos o futuro ao nosso próprio presente, como mais uma simples alternativa entre as múltiplas que se abrem para nós. As opções multiplicam-se ao nosso redor, vivemos em um mundo quase infantil no qual qualquer demanda, qualquer possibilidade, seja por estilos de vida, viagens, papéis sexuais e identidades, pode ser instantaneamente satisfeita. Vivemos em um mundo governado por ficções de toda espécie o merchandising de massa, a publicidade, a política conduzida como um ramo da propaganda, a tradução instantânea da ciência e da tecnologia em imagens populares, a crescente mistura e interpenetração de identidades no reino dos bens de consumo, a apropriação pela televisão de qualquer resposta imaginativa livre ou original à experiência. Nossa vida é uma grande novela Para o escritor, em particular, torna-se cada vez menos necessário inventar o conteúdo fíccional de sua obra. A ficção já está aí. A tarefa do escritor é inventar a realidade. (...) Em Crash! utilizei o carro não apenas como uma imagem sexual mas como uma metáfora total para a vida do homem na sociedade atual. Como tal, o livro tem um papel político bastante distanciado do seu conteúdo sexual, mas eu ainda gostaria de pensar que Crash! é o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia. Em certo sentido, a pornografia é a mais política das formas de ficção, pois tenta mostrar como nos usamos e nos exploramos mutuamente, da maneira a mais insistente e implacável possível. Desnecessário dizer que o objetivo final de Crash! é admoestatório, é um aviso contra um mundo brutal, erótico e ofuscante, que nos acena, cada vez mais persuasivamente, das margens do cenário tecnológico.” (Crash! JG Ballard)

O Mundo de Crash é o de hoje, uma ficção científica não sobre o futuro, mas sobre o hoje.

Como o próprio autor coloca, trata-se de um mundo sem proibições, onde qualquer demanda parece poder ser satisfeita. E no entanto, nunca estivemos tão insatisfeitos! Talvez tão insatisfeitos quanto antes..mas desorientados. Pois se antes podíamos culpar um outro pela proibição (o lema de 68 já dizia: é proibido proibir!, o pai, os governos ditatoriais, a repressão social, o machismo)  hoje, quando tudo parece possível, não conseguimos entender porque permanecemos insatisfeitos, sem encontrar o gozo almejado: e ai você gozou?  talvez da próxima vez... é a frase que abre e fecha o filme sustentando uma promessa que, pelo visto, só pode se realizar na morte.

Crash também não é um filme sobre um outro estranho e psicopata que vive se esgueirando pelas esquinas a noite enquanto as pessoas de bem dormem tranquilas em suas casas. Crash é um filme sobre todos nós. Cronemberg sabe disso. Por isso criou um filme que prende nossa atenção. Quem nunca se deparou com um situação de horror mas que parece convidar ao olhar? A felicidade é que o diretor sabe fazer isso com arte. Os programas de televisão sensacionalistas como “Barra Pesada” também sabem disso. Só não tem a mesma capacidade artística de Cronenberg. Nossas fantasias, as fantasias dos neuróticos são perversas. É com isso que o filme joga. Por isso nos prende.

Estamos diante de um filme que fala sobre nós mesmos, aqui e agora.

Curiosamente, é um homem do século passado que vai nos ajudar a entender isso. Sigmund Freud inventou a psicanálise numa época em que a repressão social imperava. As histéricas insatisfeitas pareciam sofrer de falta de liberdade sexual. A cultura, a civilização, ao exigir a perda de alguma satisfação pulsional ocasionava o mal-estar. O homem seria guiado pelo princípio do prazer. Mas logo Freud se deparou com outra coisa. Se o homem se guia pelo princípio do prazer, o que é que explica a repetição daquilo que causa exatamente o desprazer?

Existe algo que se situa além do princípio do prazer que nos guia, foi o que Freud descobriu na experiência com veteranos de guerra, observando as brincadeiras infantis e, principalmente, na clínica sob o fenômeno da compulsão à repetição, que faz com que o sujeito repita uma situação traumática inconsciente. Apesar de conscientemente afirmarmos que queremos ser felizes, queremos nos livrar do sintoma, abandonar o sofrimento,  não é exatamente o “caminho do bem” (como cantava o mestre Tim Maia) que seguimos. Cada um repete, á sua maneira, algo que presentifica o horror, o insuportável, o traumático. 

No filme essa repetição nos leva a uma série interminável de acidentes, corpos despedaçados, carne dilacerada, fluidos e cavidades expostas... mas o que o diretor deixa entrever (e que Freud tão bem delimitou) é que há algo que se satisfaz nessa repetição. Não se trata mais de prazer nem tampouco de uma antítese do prazer, mas de algo que está além do prazer. Lacan nomeou de "gozo" a esse campo onde uma satisfação que não podemos reconhecer como tal está em jogo.


 As vezes é possível que a pessoa nem se dê conta dessa repetição. Ou até que a atribua à forças externas ou divinas como o “karma”, “destino”, etc. Mas ao endereçar-se a uma analista, isso vai ser tomado como algo que se dá na relação do sujeito com seu inconsciente. 

Não no sentido que comumente atribuímos a essa palavra. No senso comum e em algumas concepções psicológicas, alguém “traumatizado é alguém que foi vítima de maus-tratos, abusos, violência. Freud de inicio até se aproximou dessa concepção ao supor a teoria da sedução como causa da histeria. Mas como excelente clínico que era, logo se deu conta que não se tratava de algo vivenciado na realidade, mas de uma realidade psíquica.O que está em jogo é que, nós nos constituímos sujeitos a partir de um “trauma”.
Com Lacan vamos poder dizer que a “violência” em questão é aquela do encontro da linguagem com o real do corpo. Na vivência de suas pulsões perverso polimorfas, a criança vai se deparar com um gozo impossível de ser simbolizado, ao mesmo tempo em que, do lado do Outro (lugar de onde provém os significantes com os quais tentamos nos dizer) esse encontro corresponde a descoberta de um furo, da ausência de um significante que pudesse nomear esse gozo. A descoberta de que o Outro deseja e, ainda mais, que seu desejo é bastante enigmático para a criança.

Nesse sentido, somos todos “traumatizados”. Ainda bem! Porque apesar da angústia dessa descoberta, é ela que abre para nós a possibilidade de sairmos da completa alienação ao Outro e constituirmos a nós mesmos como desejantes, nesse mesmo lugar onde ao Outro falta algo. A fantasia vai ser uma tentativa de responder a isso, o sintoma também.

Então, voltando a Freud, o que ele nos diz é que nesse limite, onde não podemos simbolizar o que se passa, não conseguimos falar disso como algo que nos ocorreu, nós repetimos, atuando esse traumático nas nossas relações atuais, sempre que se trata de um investimento libidinal, de um encontro com o outro como objeto sexual. Como um disco arranhado ficamos dando voltas nesse “mesmo” tentando encontrar alguma forma de dizê-lo. Portanto, com ou sem proibição, o que está em jogo é que o sexual coloca em cena alguma coisa que fracassa. Estamos na dimensão do desejo, sempre desejo de outra coisa, porque o objeto que poderia satisfazê-lo é desde sempre perdido.

Nos dias de hoje temos uma forma bastante problemática de lidar com isso. É que o discurso capitalista apresenta esse objeto não como perdido, mas como ainda não encontrado. É a ciência que, ao se deparar com o real, com o impossível, nos diz que nós... ainda vamos descobrir a causa.. É o mercado que se utiliza da propaganda para dizer que, se você não está satisfeito é porque você ....ainda não comprou o último modelo.

O discurso capitalista não leva em consideração a castração. Como diz Ballard vivemos em um mundo que nos faz acreditar que qualquer demanda pode ser instantaneamente satisfeita. Mas isso é uma impostura desse discurso. Nós não podemos mais satisfazer instantaneamente nenhuma necessidade. Aliás, nem podemos mais falar em necessidade. Porque estamos inseridos no campo da linguagem e precisamos dela pra nos relacionarmos com o mundo. Daí que, como ela não pode dizer tudo, há sempre uma perda incluída na equação, há sempre um fracasso em jogo. Esse fracasso é também o motor da repetição, encontro programado com o real impossível de simbolizar que retorna sempre ao mesmo lugar.

Em crash esse fracasso nos é apresentado de saída pela relação de Ballard e Catherine. Eles são um casal de meia idade com uma relação já desgastada, que tentam recuperar a excitação através de jogos sexuais. Eles transam com outras pessoas, desconhecidos (que também não os satisfazem) mas usam o conteúdo erótico dessas escapadas como motor da relação. Uma relação sustentada numa promessa de gozar mais.. não agora, mais um dia...da próxima vez...

No livro, Ballard diz:

“Há anos que eu era capaz de adivinhar os casos de Catherine, quase que poucas horas depois de seu primeiro encontro sexual, simplesmente percebendo qualquer nova disposição física ou mental - um súbito interesse em algum vinho de terceira classe, uma postura diferente em relação à política da aviação civil. Muitas vezes eu podia descobrir o nome do seu último amante bem antes que ela o revelasse no clímax de nossos atos sexuais. Este jogo provocante nós precisávamos jogar. Deitados na cama, nós elaborávamos um encontro amoroso completo, desde o primeiro bate-papo em uma festa numa companhia aérea até o próprio ato sexual. O clímax desses jogos era o nome do parceiro ilícito. Retido até o último instante, ele sempre produzia os mais intensos orgasmos em nós dois. Muitas vezes eu sentia que esses casos aconteciam meramente para proporcionar a matéria-prima de nossos jogos sexuais. Essas buscas, entretanto, começaram a tornar todos os nossos relacionamentos, entre nós mesmos e com outras pessoas, cada vez mais abstratos. Logo ela se tornou incapaz de alcançar um orgasmo sem a fantasia elaborada de um ato sexual lésbico com Karen, com seu clitóris sendo lambido, mamilos tocados e ânus acariciado. Essas descrições pareciam ser uma linguagem em busca de objetos ou até mesmo, talvez, o início de uma nova sexualidade divorciada de qualquer expressão física possível.” (Crash! JG Ballard)

O preço a pagar, expulso pela porta da frente com a liberação sexual máxima: transar com todos que tiver vontade, experimentar os orgasmos mais incríveis -  retorna pela porta dos fundos sob a forma da criação de uma sexualidade divorciada de qualquer expressão física possível. Uma sexualidade divorciada do corpo! Abstrata! 

Uma primeira consideração é: porque divorciada do corpo? por que o corpo implica em castração. O encontro sexual é um encontro entre corpos, e esses são submetidos a castração. Não só a mulher por conta da ausência de pênis. O que está em jogo não é o pênis, é o falo. E o falo seria um órgão potente e ereto o tempo todo. Mas a detumescência faz parte do ato sexual. O orgasmo é uma pequena morte que exige incorporar de alguma forma a perda. O fim. Mas por outro lado, só se pode gozar com o corpo. Adélia Prado diz isso da forma que só os poetas conseguem:
“Sem o corpo a alma de um homem não goza.
Por isto Cristo sofreu no corpo a sua paixão,
adoro Cristo na Cruz.
Meu desejo é atômico, 
minha unha é como meu sexo, meu pé te deseja,
 meu nariz, meu espírito – que é o alento de Deus em mim – te deseja
pra fazer não sei o quê com você.” (A Terceira Via – Adelia Prado)


Portanto, é preciso colocar o corpo na jogada para poder gozar. A retirada do corpo leva a uma amplificação da excitação, a um material que vai servir de conteúdo para os jogos eróticos entre Ballard e Catherine, cuja consequência é exatamente não levar a satisfação alguma. A inclusão do limite do corpo, por outro lado, abre espaço para um acesso ao gozo que é solidário da lei. Uma parcela de gozo.

Além disso, por não estar submetido aos limites da castração, essa busca por um mais-além leva até as últimas consequências. E, como Crash deixa muito bem entrever, a consequência ultima é a morte. O casal descobre isso no encontro com Vauhgn.
-->
Certamente não se trata de diagnosticar personagens, mas poderíamos aproximar Vauhgn do que seria a posição perversa. Encontramos a fixidez de um gozo que busca dividir o outro, busca a angústia no outro. Pode até parecer que o perverso goza mais que o neurótico, já que está sempre desconhecendo os limites. Mas, pelo contrário, sua vida sexual limita-se a uma forma monótona e repetitiva. O livro de Ballard começa com a morte de Vaughn. E sobre esta o autor nos diz:

“Esta primeira morte, entretanto, parecia tímida quando comparada com outras nas quais Vaughan tomara parte e com aquelas imaginárias que povoavam sua mente. Tentando esgotar-se, Vaughan concebera um almanaque aterrorizador de desastres automobilísticos imaginários com ferimentos insanos - os pulmões de homens idosos perfurados pelas maçanetas das portas, os tórax de jovens mulheres impalados pela coluna do volante, as faces de belos adolescentes rasgadas pelos aros de cromo dos faróis. Essas feridas eram, para ele, as chaves de uma nova sexualidade nascida de uma tecnologia perversa. Essas imagens pairavam na galeria de sua mente como as peças em exibição no museu de um matadouro.”

A morte encarna a figura última da castração. Frente a ela tanto o neurótico quanto o perverso estão em dificuldades. No entanto, enquanto o neurótico recalca a castração e constrói a fantasia como forma de velá-la, o perverso a desmente e se oferece como  objeto que responderia pelo gozo do outro, encenando aquilo que ele considera responder pelo gozo do outro. A encenação do acidente de James Dean e a própria cena da morte de Vauhgn podem ser tomados nesse sentido.  
Quanto a Ballard, me parece que sua posição é muito mais a de um querer saber sobre a morte.
-->
É a figura do homem morto, que atravessou o para-brisa e caiu sobre seu banco, que o fascina. Será uma pergunta sobre si mesmo? Estou vivo ou estou morto? Será a crença de que alguém pode deter um saber sobre a morte? De qualquer forma, o fato mesmo de se perguntar sobre a morte já aponta para sua posição de sujeito dividido. “Minha primeira e breve viagem ao local do acidente despertara novamente o espectro do homem morto e, mais importante, a percepção da minha própria morte.” O próprio fascínio que ele desenvolve pela viúva aponta para essa questão com a morte que está sempre espreitando o obsessivo.
Que outra saída seria possível então frente ao imperativo superegoico que diz ao sujeito “Goza”? A psicanálise propõe um caminho que vai a partir do aparelhamento desse gozo com a linguagem, levar o sujeito a poder incluir a castração como motor do desejo. Como afirma Lacan, não há desejo sem lei. Aliás, é porque a lei existe que desejamos. A proposta não é a de uma resignação frente a castração. Mas que, ao cernir os limites de seu próprio desejo, o sujeito não precise mais devotar a vida ao Outro, seja para velar ou negar sua castração. 

“Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
.....
Toda palavra é crueldade”
(Fala, Orides Fontela)


Encontremos então a palavra impiedosa que possa nomear nossa própria crueldade, advertidos, no entanto, de que nem tudo poderá ser dito!



[1] Texto apresentado na discussão do filme de mesmo título, promovida pelo Centro Acadêmico do Curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará, na atividade "CINETERAPIA" em 26/04/2013

 

domingo, 12 de agosto de 2012

Arnaldo Baptista: a vida em golfadas

-->
A vida nem sempre entra suave. Algumas vezes vem em golfadas, jorros engolidos, vomitados. Com as palavras tentamos costurar algo que minimamente filtre e desacelere essas invasões. Mas sempre escapa muito ou pouco desse impossível que, por sua vez,  se diz no corpo. Angústia ou despedaçamento, se diz no corpo. Acabo de assistir Loki (2008) documentário sobre a vida e obra do músico Arnaldo Baptista. Sempre gostei de Mutantes, mas confesso que nunca soube muito da história desse integrante da banda. Pra mim ele era só mais um dos Mutantes que um dia desapareceram, ficando a Rita Lee.  Mas o que me fez querer escrever não foi o artista. Muito rico, de uma criação profícua, diga-se de passagem. O que me envolveu no documentário foi a odisseia de um sujeito em busca de um lugar para poder existir.

Uns garotos de 17 ou 18 anos, vivem uma ascensão intensa nos loucos anos 60. Fazendo um som que muitos nem entendiam, misturando rock, bossa nova e muito improviso. Um sucesso estupendo, no Brasil da ditadura e fora dele. Um dia seriam comparados aos Beatles e admirado por gente do nível musical de Kurt Cobain e Sean Lenon. Assim como os garotos de Liverpool eles também conhecem os poderes do LSD. Muitos voltaram da viagem, Arnaldo não. 

Fim da banda, fim do casamento com a mulher que lhe dava alguma estrutura. Rita era para Arnaldo o que Nora era para Joyce, o que Gala era para Dali. A mulher, que por algum tempo funcionou como amarração. Mas quando ela começa a querer, a desejar, isso se torna incompreensível para ele: “É difícil falar alguma coisa que seja compreensível para as pessoas que tenham algum sentimento pela Rita Lee, mas as pessoas a veem pelo lado do palco, dos holofotes e eu a via pelo lado LetItBed[1]. Então, nesse sentido, teve uma certa razão de ser do lado dela ter me abandonado. Mas acho que foi tudo uma questão de cansaço.  E tudo isso depende de um gosto, e eu tinha um gosto que eu num conseguia expressar pra ela né? Talvez por falta de experiência, porque ela era a minha primeira, então não tinha muito relacionamento com outros seres femininos, né? Então pra mim era um pouco misterioso o que eu conhecia de mulher, não tinha irmãs.. Então foi a mamãe e num passou disso. Depois foi a Rita Lee e com as coisas que vieram.”
O mistério da mulher (que não é a mãe) se abre e abre de forma hemorrágica a invasão da vida. O mundo vinha em golfadas, mas não dessa forma filtrada que a linguagem permite. Nas palavras dele mesmo: “eu me sinto completamente esburacado. É como se pessoas tivessem dançando e passando por todos os meus poros”. Sem a rede de proteção simbólica o mundo é pura invasão, e o corpo é carne viva.
Internado diversas vezes e rotulado pela mídia como louco, o artista foi relegado ao ostracismo absoluto. Em mais uma de suas crises, ele é levado pela quinta vez ao hospital psiquiátrico. Durante uma tentativa de contê-lo em uma camisa de força, cansado de falar com os médicos, se sentindo perdido na vida e Arnaldo pensa: “Eu vou me ver livre! Escapa e se joga do quarto andar de uma das janelas do hospital.
Os danos cerebrais foram graves e ele entrou em coma. Ninguém esperava por uma possibilidade de recuperação. Na verdade todos se afastaram. Todos, menos uma mulher, uma fã, que passou a visita-lo todos os dias na UTI e nunca mais foi embora. Mais uma vez, uma mulher. Sem reducionismos maniqueístas entre aquela que o abandonou e aquela que o salvou. Não há aqui uma bruxa e uma santa. A primeira achou que não dava mais e seguiu seu caminho. A segunda renunciou a ser mulher e fez do ato de cuidar desse homem em coma, a sua sina. Como ela mesmo afirma, envolvida em um amor que vai muito além daquele entre um homem e uma mulher, um amor de mãe, ela diz.  Para algumas mulheres essa é uma saída viável: fazer de um homem o seu sentido. Seja como for, os cuidados dessa mulher foram fundamentais para permitir a construção de uma nova vida. Ela não só o admirou, o amou e o incentivou a criar, como deu a ele o mínimo de um laço social exigido para que ele não caísse no perverso esquema de seguidas re-internações psiquiátricas.     
Em certo ponto do documentário ele fala desse insuportável de um mundo construído na equivocidade significante, onde você fala "x" e as pessoas entendem "y", e sonha com um mundo onde "x" só queira dizer "x" mesmo. Mal sabe ele que a riqueza de sua obra reside na possibilidade mesma de que “x” possa significar um alfabeto inteiro. É isso que dói, é isso que cria.
Me parece que um dia ele conseguiu minimamente fixar esse “x” da questão e construir uma amarração que lhe permite existir sem tanta invasão. Parte disso, cabe a Lucinha, a sua menina como ele chama; A mulher, com A maiúsculo. A outra parte parece vir de um uso singular que ele mesmo fez do significante Loki/Louco. Se no auge da sua agonia ele cantava:
Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
Sou malandro velho
Não tenho nada com isso”
Hoje ele soube no palco e canta a balada do louco, assumindo esse lugar reservado a ele pelo Outro social, mas fazendo disso o seu elogio a loucura:
“Dizem que sou louco, por eu ser assim
Mas louco é quem me diz, que não é feliz. Eu sou feliz.”
Não acredito muito nessa felicidade inerente à loucura que a poesia desse outro Maluco Beleza exalta. Mas desse lugar de louco ele encontra algum reconhecimento e consegue encontrar um lugar onde existir é possível. Não na loucura medicalizada da psiquiatria, mas na loucura que desde os tempos mais remotos fala pela boca de poetas, sábios e filósofos. De lá ele pode produzir sua obra. A nós fica a felicidade de ouvi-lo.


[1] Nome de um dos discos de Arnaldo Baptista que, segundo ele, já existia 14 anos antes mesmo do disco ser gravado. Aqui aparece como um neologismo para descrever sua relação com Rita.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Amigos

Um dia uma amiga me falou sobre a importância de cultivar várias amizades. Talvez ela nem saiba, mas aprendi muito com ela naquela ocasião. Não que eu ja não soubesse o valor da amizade.  Mas não me dava conta dessa espécie de balé, onde os investimentos se distribuem, deslizam, se encontram e se afastam ao sabor da música que cada um pode tocar. Então ela me disse: com alguns você vai ter vontade de compartilhar coisas íntimas, com outros você vai querer rir de bobagens, com outros falar sobre o trabalho e alguns você vai querer por perto quando estiver sofrendo. 
Ela falou e eu pude ouvir. Isso foi muito importante por que antes, eu esperava que cada amizade fosse capaz de suprir tudo isso, que cada amigo fosse um pacote com todas essas "funcionalidades" e passava a só investir naquelas que eu imaginava poderem suprir essas expectativas.

O problema é que esperar que uma só pessoa corresponda a tudo isso, não só é quase impossível, como corre o risco de levar essa relação a uma morte por asfixia. Aliás, isso vale tanto pro amor, quanto para a amizade. Freud inclusive aponta para uma raiz comum a esses dois sentimentos. A amizade, assim como o amor, surge do investimento de pulsões sexuais sobre o objeto. Só que no caso da amizade o impulso sexual é inibido, impedido por resistências internas de ser alcançado. Nesse caso, diz Freud, ele passa a se contentar com certas "aproximações" á satisfação. Acho que era disso que a minha amiga estava falando. Ao invés de perseguir o objeto ideal (que na verdade não existe), aprender a dançar com a pulsão, usufruindo de todas as "aproximações" possíveis. O mais legal é que, segundo Freud, esse é o tipo de investimento que leva ás relações mais duradouras, "especialmente firmes e permamentes". 

Hoje consigo perceber e cultivar os movimentos singulares de cada amizade:

Tem aquelas de um tempo muito distante, que quase não encontramos mais. Talvez elas nem existam na atualidade da mesma forma como habitam nossas lembranças. Mas isso as fazem mais especiais, pois permanecem conservadas nas memórias com muito carinho. 

Tem aquelas com quem convivemos muito no momento. A gente se fala com muita frequencia, compartilha coisas mais íntimas, liga quando está triste e quando tem uma notícia feliz.

Tem aquelas que são amigas de sangue, nasceram na sua familia, mas para além do laço sanguíneo, tem um grande sentimento de amizade que nos une.

Tem os amigos de farra (Adoro!). Quando chega sexta feira a primeira coisa que voce pensa é em reunir todo mundo, jogar conversa fora, dar uma boas risadas.

Tem os colegas de trabalho que viraram amigos. Em meio ao ambiente ás vezes árido de trabalho, das relaçoes de poder, de disputas e hierarquias, germina uma flor. E de repente você percebe que quer ter aquela pessoa na sua vida, muito além daqueles mestros quadrados. 

Tem os amigos dos amigos que viram seus amigos tambem. E amigos dos irmãos, amigos dos filhos, etc. Essa espécie é muito querida, é como se fosse amigo ao quadrado, pois alem de gostar de voce gosta tambem do seu amigo.

E last, but not least, tem os amigos recentes. Novas flores que ainda não desabrocharam, mas por isso mesmo cheias de descobertas. Todo um mundo novo que se anuncia. Alguns você conhece pouco, nem teve tantas oportunidades quanto gostaria de estar com eles, mas nutre uma espécie de carinho em reserva, so esperando uma chance de estreitar esses laços.


Enfim, a lista poderia crescer ainda mais a medida que vou lembrando de pessoas. Mas o importante é saber que cada uma dessas delas tem um significado unico, qualidades unicas, defeitos unicos e que com cada uma delas voce pode sempre aprender. 

Não vou dizer nomes pra não correr o risco de deixar ninguém de fora, mas obrigada a você que se reconheceu nessas palavras. Se isso aconteceu é porque você é muito especial pra mim. Obrigada especialmente a minha amiga do inicio do texto. Sem você eu talvez demorasse mais pra descobrir tudo isso.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Teresa e a Praia



Rio de janeiro, patrimônio da humanidade, eleito por suas belezas estonteantes. Já haviam me falado, mas ainda não tinha tido a chance de experimentar os efeitos que aquelas imagens provocam sobre a retina de quem vê. A situação em que me encontro é, no mínimo, inquietante. Estou por lá a trabalho e, diga-se de passagem, um trabalho como nenhum outro. Trabalho em sua dimensão de produção, mas também trabalho do inconsciente. Intenso. No fim do dia a saída do local onde estou dá acesso privilegiado à praia de Copacabana. Posto seis da princesinha do mar. Não tive tempo de ver muita coisa, assim mesmo de roupa de trabalho fui até a praia e fiz uma foto (pelo menos mostrar que estive lá!). Em conversa com um amigo digo:
- aquele mar lindo ali fora e eu trabalhando. Mas fazer o que, se eu gosto!
- Do mar ou do trabalho? Pergunta ele.
- Dos dois, respondo. E penso comigo mesma: feliz do pescador que trabalha no mar!
Mas, moto-contínuo, lembro de Caimy, com sua voz lânguida, a falar das vicissitudes do pescador, aquele que tem dois amor. O pescador deseja, e no seu desejo se divide entre dois bens. Será que se angustia quando, em alto mar, pensa nas firmezas que o bem da terra poderia lhe trazer? Suspeito que, quando muito tempo aportado, acorda sobressaltado no meio da noite com sonhos de sereias, areias, alheias, do bem do mar. Desígnios insondáveis que atingem todo aquele que precisa recorrer á palavra para se dizer.
Li em algum lugar que a indecisão não é quando se duvida do que se quer. Ao contrário, eh quando se tem certeza do que se quer, mas pensa-se que deveria querer outra coisa. É uma forma bem humorada de colocar a questão, mas acho que insatisfatória. Porque o desejo não é a indecisão entre o que se quer e o que não se quer. O que não se quer não se cogita. Nem entra na história. O desejo é o paradoxo entre aquilo que se quer e aquilo que se quer, as duas causas em questão confrontando-se mutuamente. Duas faces de uma moeda condenada a ser apenas metade. Não existe a opção de juntar as duas parte e formar o um. Meia moeda, é o que lhe cabe, e é melhor saber fazer alguma coisa com ela.
Dias depois, ainda nas minhas andanças pelo Rio, conheci Santa Teresa e confesso que ela me encantou ainda mais. A princípio acredita-se estar apenas em mais um bairro. Não é preciso sair da cidade, dobra-se uma esquina e chega-se a Santa Teresa. Ali se trabalha, se mora, se vive, como em qualquer outro lugar. Mas essa simplicidade é enganadora. É todo um outro mundo que se revela a cada curva: a arte, o movimento de contracultura, a rebeldia, a criação, vão transpirando por seus paralelepípedos. O clima começa mudar com cara de montanha. Pequenos recantos escondem cheiros saborosos.
Ao contrário da beleza escandalosa de Copacabana, Santa Teresa é discreta e não se despe de um só golpe. Vai se insinuando ladeira acima, com curvas malemolentes, escondendo segredos atrás de portas entreabertas. Teresa, como toda mulher, não tem nada de santa. Sabe que a beleza vela e aponta para o indizível e, assim, precisa usar de disfarces.
A medida que vamos subindo, somos completamente tomados por seu feitiço até que, no topo de um castelo em ruínas o improvável acontece: abre-se, numa vista panorâmica, aquele cartão postal: praia, corcovado, cristo e tudo mais ali...aos nossos pés. Teresa agora é da praia, não é de ninguém, mas encena uma fantasia que nos faz acreditar sermos os amantes que sobre ela deitam seus olhos. 
Volto de lá com a impressão de que posso aprender algo com ela, algo sobre os "paradoxos do desejo"!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Quanto tempo leva assumir um desejo?


O mundo é feito de um jeito que nos leva a acreditar numa espécie de geração espontânea do desejo, como se desejar fosse o equivalente psíquico da respiração. Penso, logo sei o que desejo, o “em busca do quê corro”. Da mesma forma, sei exatamente o que não quero, o que me incomoda, o “pra longe de quê fujo”.
O “em busca de quê corro” está em tudo que se constrói e defende-se com unhas e dentes. Como geralmente coloca-se muito suor nessa empreitada, passa-se a defender a isso como a si mesmo. Tanto que se torna praticamente impossível viver sem isso. Corre-se por tanto tempo nessa direção que às vezes nem se sabe mais por que. Corre-se pelo gosto da corrida. E afinal, se parássemos de correr, iríamos fazer o quê mesmo?  Corremos, portanto. Só para não ter que se deparar com o risível vazio dos que não tem pra onde ir.
Já o “pra longe de que fujo” é tão antigo quanto seu oponente. Cedo na vida descobre-se que há motivo pra temer... só se esquece o “quê”. Enfim, não se trata de um caso de “mal” metafísico genericamente apreendido. Trata-se “daquele” inimigo íntimo com o qual dorme-se e acorda-se todos os dias. Mudam as configurações, as pessoas, os adereços, mas é sempre a sua cara sinistra em todas elas. Engraçado que mesmo em meio a toda essa intimidade , nem sequer se desconfia de que ele talvez tenha mais afinidade consigo que “aquilo em busca do que corro”, afinal de contas, enquanto este último precisa ser buscado, perseguido, o mesmo não acontece com o primeiro. Chega sem ser convidado, não faz  a mínima cerimônia e se instala como se a casa fosse sua.. e não é? Não! Grita-se com a força que restou do esforço que se fez correndo. Eu não sou isso! Eu não quero isso! Sem falar que o “isso” e questão é o exato avesso do que se acredita ser e, portanto, coloca em xeque tudo que diz respeito à segurança do hábito humeano. Talvez resida aí a explicação para o fato dele ser o fiel companheiro ignorado de um Dom Quixote às avessas que insiste em não atribuir realidade às suas sombras.
Um dia descobre-se (e nada é garantia de que esse dia chegue) que, por trás de todas as cortinas erigidas para dar ao mundo essa sensação de ordem, aquilo “em busca de quê corro” e aquilo “pra longe de quê fujo” não pertencem à planos distintos. Pelo contrário, são antes as duas pontas do mesmo laço de fita e, no meio, você. Isso sem falar que as duas pontas da fita se encontram e então quando você corre demais atrás do que quer acaba encontrando o que não quer e vice-versa.   
A primeira reação pode ser tentar livrar-se disso. Ok, posso até reconhecer que “aquilo de quê fujo” faz mesmo parte de mim, não sou tão amável quanto pensava..tudo bem. Mas tratemos de fazer uma bela faxina e cortar “o mal pela raiz” como se diz por aí.  O problema, meu amigo, é que em se cortando uma das pontas, desfaz-se o laço, e aí não sobra muito espaço pra chamar de seu. Nesse ponto (se chegou até aí) você é obrigado, enfim, a reconhecer: é meu desejo! Eu sempre desejei isso “pra longe de que fujo”. É realmente incrível o poder libertador disso. Ao nomear e subjetivar o inimigo, ele perde seus poderes demoníacos. Ele é só humano, demasiadamente humano e próximo.
É estranho que se leve tanto tempo só para poder assumir o que se deseja. Só que esse ainda não é o fim da jornada. A questão que se coloca é (como ouvi esses dias da boca de uma lady que, certamente, fez a travessia): sabendo de tudo isso, você ainda quer o que você deseja?