quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Psicanálise nos Tempos do Cólera ou algumas palavras sobre a apresentação “Parcerias amorosas e laços sociais[1]”



“Aceitem as regras e estarão conectados!”, informou uma das organizadoras do evento enquanto a mesa, composta por reconhecidos nomes da psicanálise, se acomodava. A frase dizia respeito a um probleminha que tinha ocorrido com a rede de wifi e que agora precisava ser registrada para que pudéssemos acessá-la.  Mas lembrada a posteriori, parece mais um prenúncio do que se seguiria.

Freud, em 19 de abril de 1935, escreveu numa carta à uma mãe de um jovem homossexual:
“(...) Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma. Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito.”
Nem precisávamos desse posicionamento explícito do pai da psicanálise para deduzirmos que o campo do saber por ele inventado, rechaça qualquer interpretação da sexualidade humana como normatizada: a sexualidade infantil perverso-polimorfa, a variedade ampla do objeto da pulsão, a bissexualidade originária, a dupla vertente do édipo, enfim.
Por isso, passados mais de 80 anos da carta mencionada acima, tendemos a pensar (pelo menos entre quem está engajado em uma comunidade de analistas) que a transferência com a psicanálise, por si só, seria uma garantia de um posicionamento mais aberto acerca da desnaturalização da sexualidade humana. Especialmente entre os ditos “lacanianos”, acostumados que estão com a leitura da entrada no simbólico como subvertendo tudo que pudesse ser tomado como instintual.
Mas o trabalho apresentado por Antonio Quinet no IX Encontro da IF/ EPFCL Brasil em Medellin, Colômbia, alertou a uma plateia, atônita, que não é bem assim. Reunindo trechos de textos e falas proferidas em entrevistas por alguns analistas contemporâneos, Quinet mostrou como tem sido frequente o recurso de certos psicanalistas à teoria psicanalítica para se posicionarem contrariamente a temas da atualidade como o casamento homoafetivo e a adoção homoparental.
Um afeto de horror atravessou a plateia que, entre “ohhhs” e “uhhhs”, ouvia os relatos de declarações homofóbicas (ou homoterroristas, como chamou o autor do trabalho) que reduziam a diferença sexual à anatomia e o Édipo Freudiano à noção de família nuclear burguesa “com pai, mãe e filho natural registrado em cartório e batizado”. Algumas declarações chegavam a associar a homossexualidade a uma perversão inata a esses sujeitos e a comparar a adoção de crianças por casais homoparentais às ações do “Estado Islâmico”. (Isso enquanto ouvíamos pelos corredores do evento as notícias sobre o atentado em Nice e ainda guardávamos na lembrança o pesadelo do ocorrido em Orlando).
Durante a apresentação, o sistema de som (ou de tradução) falha temporariamente. Um real que se atravessa? Quinet resume o que já havia apresentado e rebate todas as teses homofóbicas com argumentos brilhantemente ancorados na obra freudo-lacaniana e na sua própria experiência com a psicanálise.
Enquanto o escuto, suas palavras vão se encontrando e afetando outras memórias. Uma delas ecoava mais forte: o assassinato de uma criança, João Donati, de 18 anos, na cidade goiana de Inhumas. O jovem teve suas  pernas quebradas, foi torturado e enforcado. Em sua boca encontraram um bilhete, escrito pelo assassino, que fazia menção ao fato de ele ser homossexual.
Até escrever esse texto, não sabia porque essa memória tinha se presentificando com tanta força ao ouvir a apresentação de Quinet. Talvez porque soube dela como uma invasão do real (estamos todos conectados, para o bem e para o mal): acessava a linha do tempo do Facebook e, sem ter tempo de decidir se queria mesmo ver aquilo, aparece-me uma foto do corpo do rapaz como foi encontrado em um terreno baldio, desfigurado, ao lado de uma foto de seu perfil na rede social. Podia ser meu filho, podia ser o filho de um amigo. Foi demais.
Mas ao pesquisar para falar aqui desse caso, lembrei o que dizia o bilhete encontrado no corpo de João: “Vamos acabar com essa praga”. Foi esse significante “praga” que encadeou minha lembrança à fala de Quinet que, por sua vez ressoava com outro comentário proferido, nesse mesmo encontro, por Colette Soler: a psicanálise não se transmite pelo saber, ela é, antes epidêmica, transmitida como uma praga. Já disse Freud quando ia visitar os americanos: “Eles não sabem que estou indo lá levar a peste”.
De um lado, o objeto de ataques terroristas (e homoterroristas) do outro, a psicanálise. O que eles tem em comum? Ambos convocam o real, ambos tocam a peste. Mas não certamente da mesma maneira. O discurso analítico é o único que permite fazer algo frente a isso que irrompe como diferença insuportável, mas que habita o cerne do nosso ser. Permite tocá-lo sem precisar destruí-lo, aniquilá-lo, torturá-lo e matá-lo.
Por fim, uma outra epidemia entra na minha cadeia associativa. Enquanto passeava pelas ruas mágicas de Cartagena (ali entendemos de onde vem o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques[2]) lia nas horas de descuido “O Amor nos Tempo do Cólera”. Ao ser tomada pelas histórias de Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino e fazê-las encontrar com o que ouvi na apresentação de Antonio Quinet, lembrei da frase de um desses personagens: “...lhe tinha amor bastante para vê-la com olhos de verdade."[3]
Não é qualquer amor que permite ver o outro com olhos de verdade, é o que nos diz Gabo. No que diz respeito às parcerias amorosas, aceitar as regras não é garantia de que estejamos conectados. Há sempre um gozo estranho que se atravessa e que é impossível de conectar.
Fica a pergunta: seria possível hoje, em tempos de surto de cólera (do afeto, mais que da bactéria), pensarmos uma psicanálise que responda à questões da atualidade como uma possibilidade de um novo amor, um amor que seja bastante para que possamos ver o outro com os olhos da verdade, sem que isso nos leve a querer destruí-lo? A apresentação de Quinet me faz acreditar que sim, sob o preço de que não nos calemos e de que não façamos da psicanálise uma justificativa para nos adequarmos às regras.





[1] Parcerias amorosas e laços sociais” é o título da apresentação proferida por  Antonio Quinet no IX Encontro da IF/ EPFCL Brasil em Medellin, Colômbia
[2] Categoria que ele mesmo rejeitava: "é só realismo. A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação".
[3] Marques, Gabriel Garcia. O Amor nos Tempos do Cólera. Rio de Janeiro, Record, 1985.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

What Happened, Miss Simone?

 

O aguardado documentário sobre a vida de Nina Simone, uma das maiores vozes do século XX, não desapontou. A diretora Liz Garbus soube compor um mosaico sobre a vida e obra da cantora que passa longe de uma simples exaltação. A pergunta título já deixa entrever o que vamos encontrar ali: uma história demasiado humana e que, por isso mesmo, nos cativa.

What happened, miss Simone? Poderia ser respondia de diversas maneiras: pelo viés político, artístico, histórico. Mas, sem deixar de lado a importância de nenhuma dessas facetas, foi a mulher que encontrei ali que me tomou. Logo nas primeiras cenas, temos uma Nina que sobre ao palco em Montreux com um olhar ausente, perdida em meio aos aplausos que chovem. Talvez ela mesmo se pergunte neste momento: what happened?

Nascida Eunice Waymon, em meio a segregação racial da Carolina do Norte,  se encantou por

Bebedouros separam brancos e negros nos anos 50

Bach na década de 40 e traçou uma carreira de sucesso que a levaria ao Carnegie Hall. Apesar da paixão pelo piano clássico, foi como cantora de jazz e blues que se revelou ao mundo. Tocar e cantar nos bares tornou-se a única alternativa para a filha de uma empregada doméstica com um marceneiro. Foi essa vicissitude do destino quem deu ao mundo o prazer de conhecer a voz robusta e aveludada de Nina (menina, como era chamada por um namorado) Simone (em homenagem a atriz Simone Signoret).

A composição escolhida para se re-nomear revela um ideal : a menina,  branca, bem-sucedida, sensual e politicamente engajada, encarnada na atriz francesa com quem compartilha um mesmo sonho de liberdade. O encontro com seu grande amor, Andy, talvez tenha sido o primeiro descobrimento dessa imagem (todo amor, afinal, não é ao mesmo tempo narcísico e objetal?) A menina cai de amores pelo policial durão, pois ele “sabia o que queria”. Ele a protege, organiza sua vida, passa a ser seu empresário e lhe dá a segurança de que precisava para enfrentar o show business. Mas é este mesmo amor que vai revelar-se em sua face mais cruel, empurrando-a para o trabalho além das forças e espancando-a quando desobedecia.  “Ele me assustava”, dizia Nina, “mas eu o amava e achava que ele ia mudar”. História tão conhecida essa, dessas mulheres, brancas, negras, americanas, brasileiras, que por amor, se deixam (ou se fazem) destruir. What Happened, miss Simone? Como o sonho de liberdade acabou flertando com os grilhões de uma relação abusiva?

Uma palavra que ricocheteia em todo documentário, talvez seja a senha para respondermos à pergunta: anger. Seja uma raiva auto dirigida, nos momentos de depressão; seja nos ataques no palco, onde exigia a atenção que um pianista clássico merecia; seja quando dirigia essa raiva para a filha ainda criança: “minha mãe era movida pela fúria”, afirma Lisa Simone em determinado ponto. Foi essa mesma “fúria” que a permitiu, depois de muitos anos, separar-se de Andy, engajar-se no ativismo pelos direitos civis e fazer disso uma causa.   

Nessa militância ela usa toda sua raiva em prol do ativismos politico, culminando com "Mississipi, Goddam!". Algo como "Misssissipi, puta que pariu!", música feita após a morte de quatro crianças negras  num ataque a uma igreja. Ela disse o que estava engasgado e todo mundo queria dizer. Mas sua raiva levou-a mais longe, chegando a divergir de Luther King quanto ao uso da violência. 

“Are you ready black people? Are you ready to smash white things?”, ouvimos uma Nina quase em transe instigando o público em um de seus shows. O circuito pulsional faz seu trottoir onde "bater" e "ser batido" são duas faces da mesma moeda. “Strange Fruit” essa que carregamos no ventre, que vemos com horror (como o poema cantado
Negros linchados em indiana, origem do poema "Srange Fruits"
por Nina diz), balançando nas árvores para apodrecer como os cadáveres dos negros linchados em Indiana, mas que também encontramos em nós mesmos como nossa causa mais íntima. Estranho familiar, diria Freud.

Nina sonhava com a liberdade, mas quando se desvencilhou das garras de Andy, não soube o que fazer com ela. Destruiu-se e perdeu tudo que tinha e, quando já era uma lenda, se viu completamente perdida cantando em bares anônimos de Paris.

Essa história me lembrou uma outra. A de Ysé, contada por Paul Claudel, e retomada por Colete Soler em seu livro “O que Lacan dizia das mulheres”.  Frente a iminência da partida de seu amante para a guerra, Ysé lhe implora que não vá. Ele se vangloria: Então, no fim a gente tem que confessar que precisa mesmo é do marido! Mas Ysé lhe arranca o pedestal: “Não confie muito em mim. Não sei, sinto em mim uma tentação... E peço que não me venha essa tentação, porque não convém... De que precisa uma mulher, senão de segurança, como a abelha atarefada na colmeia, limpinha e bem fechada? E não esta liberdade assustadora!”
Diz Colete Soler: “Não era contra os perigos da China que ela fazia seu apelo, mas contra a coisa mais próxima. Em síntese, Ysé lhe diz: proteja-me de mim mesma.”

Acho que podemos ler na história de Nina também um apelo, algo que a defendesse dessa liberdade assustadora onde, no final do trilho, o que encontramos, são corpos decompostos balançando numa árvore. Strange Fruits.

O mérito do documentário foi, além de nos proporcionar momentos belíssimos em companhia de Miss Simone, mostrar os diversos ângulos de Nina: da entrega amorosa à fúria odienta, sem reduzi-la a nenhum deles, mostrando-a susceptível de todas as paixões humanas. Assim como qualquer um de nós. 

Afinal, no one can always be an angel, não é Miss Simone?




sexta-feira, 29 de maio de 2015

Análise, supervisão e desejo do analista: enlaces e desenlaces de uma valsa



O famoso “tripé” da formação do analista: análise (um), supervisão (dois), estudo teórico (tres) talvez seja o ponto pacífico para  a maioria das  entidades psicanalíticas. Desde a IPA até a Escola lacaniana, todos repetem isso que já virou quase um bordão. O problema é que, aprendemos no divã, às vezes aquilo que é repetido resta esquecido por trás do que se diz no que se ouve.  Talvez  seja esse o caso do que acontece com a supervisão, ovelha negra desse tripé, não parece ter despertado tanto interesse, pelo menos no que diz respeito a elaboração desta experiência.
No entanto esse dispositivo tem um lugar de fundamental importância, não só para a formação no que diz respeito ao exercício da clínica, mas também pelo que ela pode apontar do desejo do analista. É por isso que gostaria de parabenizar Elynes pela escolha do tema e agradecer pela oportunidade de pensar um pouco acerca de uma questão que eu experiencio e que ainda faltava escrever.
Minha proposta é tentar ver, a partir da minha experiência, o que posso dizer desse enlaçamento entre Análise, supervisão (poderíamos incluir aqui o estudo teórico) e o desejo do analista. Teríamos aí então um tripé enodado por um quarto termo, desejo do analista.
Quero começar então “sacudindo” um pouco esse tripé. Comecemos pela palavra. Tripé vem do latim tripes, -edis, que tem três pés[1]. É um instrumento utilizado para dar estabilidade a alguma coisa. Aliás, descobri que um outro nome do tripé é “estativa” palavra que tem a mesma raiz etimológica que “estátua”, “status” e que tem sua raiz no verbo “estar”. Essa é realmente a primeira imagem que nos ocorre. Mas, eu queria relembrar aqui, na apresentação de Ercília sobre a supervisão, achei muito propícia uma fala de Osvaldo, quando ele disse que esse tripé não pode ser estático, “estativa”, como o tripé de uma maquina fotográfica. Mas a língua nos ajuda a sair do impasse pois não temos somente o pé do tripé, temos o “pé-de-vento”, o “pé-de-valsa”, o “pé-de-planta” e até o “peito-do-pé”. 
Então, é preciso, como disse Osvaldo,  pensar três "pés" que dançam, bailam, se encontram e se afetam:  Um, dois, tres ... um, dois, tres... (pensem na contagem do tempo na valsa!)


É sobre isso que eu queria falar, porque a minha hipótese é de que é o desejo do analista que permite essa dança, impedindo que se congele feito estátua, os três pés no chão.
Porque pensei isso? Porque em primeiro lugar, o desejo do analista é algo que permeia os dispositivos da formação. Depois, porque, para Lacan, o desejo do analista é algo que só pode manter-se de pé ao final de uma análise. É quando o sujeito, até então analisante, experimenta, em ato, o vazio do circuito pulsional do qual se fez, como objeto, o fecho. Ao extrair o gozo que tamponava esse vazio, o sujeito pode se reconhecer aí desvelando a verdade mentirosa que encobria o seu desejo e justificava como uma espécie de álibi a sua impotência em sustentá-lo. É esta operação que vai permitir consentir com o desejo do analista.
Mas, é fato da experiência, os sujeitos na maioria das vezes, não esperam o final da análise para começar a sustentar uma clínica. As vezes entra-se nisso completamente inadvertido, às vezes tem-se um pequenos vislumbre do que mais tarde vai permitir sustentar essa prática, mas isso ainda é tênue. Por outro lado, uma vez tendo essa clínica iniciado, ela convocará o desejo, os encontros com o real, todo mundo que começa a atender em algum momento se dá conta disso. 
E aí, quando o desejo do analista ainda não pode ser sustentado, o que responde é a angústia. Não se fala muito da angústia do lado do analista praticante[2], mas Lacan fala dela no seminário 10: “Mas, quando o analista inicia sua prática, não é impossível, graças a Deus, que, por mais que se apresente uma ótima disposição para ser analista, ele sinta, desde sua primeiras relações com o doente no divã, uma certa angústia.” (p.13) Vejam que Lacan, chistosamente, dá graças a deus por essa angústia. Acredito que seja pelo fato de que angústia e desejo são topologicamente congêneres. Então, a presença da angustia do lado do analista praticante é, antes de tudo, um guia que lhe permitirá explorar oa veredas do seu desejo, na análise: Um, dois tres...um dois, tres..

Dito isto, vou me deter agora sobre o lugar da supervisão nesse processo, examinando-o a partir de duas vertentes:
a)     a vertente dos enlaces e desenlaces da supervisão com a clínica do analista praticante.
b)    a vertente dos enlaces e desenlaces da supervisão para a análise do analista praticante.
A primeira vertente é a mais óbvia. Não é por acaso que Freud ressalta a importância do dispositivo da supervisão ao diferenciar a formação do analista do ensino universitário ao afirmar em “Sobre o ensino da psicanálise na universidade (1918) que “No que diz respeito à experiência prática, além do que adquire com a sua própria análise pessoal, pode consegui-la ao levar a cabo os tratamentos, uma vez que consiga supervisão e orientação de psicanalistas reconhecidos.” Se tomamos a questão através do conceito de “desejo do analista” entendemos que a supervisão surge nesse tripé como o lugar onde esse operador necessário vai poder se colocar (considerando que o supervisor é um analista que já chegou na sua análise ao ponto de poder sustentá-lo)  enquanto a análise do analista praticante ainda não o permite fazê-lo. Na minha experiência isso foi fundamental, principalmente depois que pude fazer da supervisão uma regularidade, não formal, mas necessária, para o refinamento do caso. A questão que descobri aqui, não é tanto a de alguém que sabe e vai te dizer o “como fazer”. Mas é a oportunidade que é a supervisão de poder, ao falar a um outro, elaborar os pontos do caso a partir desse vazio que o desejo do analista sustenta.  É curioso o que leva alguém a pedir supervisão e o que vai permitir a esta instauração momentânea do sujeito suposto saber operar. Não vou discorrer sobre isso aqui, mas posso afirma que isso só vai ser possível a partir da análise do “analista praticante”, até porque, dependendo da fantasia desse sujeito e do ponto em que ela foi ou não tocada em sua análise, os comentários do supervisor podem até ser tomados como crítica ou desaprovação e aí não consegue provocar muito mais do que angústia. Que também é necessária, já vimos, pois ela, por sua vez, vai remeter o supervisionando (analista –praticante) à sua análise, guiando assim os passos que ele vai trilhar: Um, dois, tres... um, dois, tres..

Mas é quanto a segunda vertente desses enlaces que eu mais me surpreendi e queria agora compartilhar com vocês. Queria dar aqui dois exemplos de como a supervisão se enlaça com o tempo da análise e remete a ela:
a)    um analista praticante assiste a um seminário teórico sobre a histeria. Ao final, resolve pedir supervisão ao ensinante que ministrava o seminário. Sua questão sobre o caso era acerca do diagnóstico: há dois anos escutando essa pessoa e a questão do pai não se colocava. Seu lugar no caso era uma incógnita já que não surgia espontaneamente e, mesmo quando perguntada, as respostas pareciam evasivas. Seria então uma psicose? O analista praticante relata o caso, a partir do que ouviu, claro, e coloca essa questão diagnóstica. Primeira pergunta do supervisor: “porque você achou que eu podia lhe ajudar com esse caso?” A resposta foi: porque eu achei interessante as coisas que você falou sobre o lugar do pai na histeria. A resposta do supervisor veio em ato: “então você já se respondeu a sua pergunta quando pensou em me procurar: trata-se de uma histeria. Se o pai não aparece é porque ele está deliberadamente escondido para que ele possa ser salvo. Procure isso.” Um tempo depois, na análise, foi possível perceber como essa intervenção apontava para algo do ato do analista, sustentado por seu desejo, embora ainda não sabido, naquele momento pelo analista praticante: Um, dois, tres.. um dois, tres...

b)    Um analista praticante manda uma mensagem para marcar uma supervisão. Ao escrever, faz um lapso: me avise quando estiver “porta”, ao invés de “me avise quando estiver “pronta”. A supervisora chistosamente responde: “já abri a porta!”. O que vai se desenrolar nessa supervisão não vem ao caso contar aqui, mas posso dizer que, no material que compôs esta supervisão, algumas palavras do supervisor tiveram um efeito ao apontar exatamente para o que impedia o desenganchar de um impasse na análise, abrindo a "porta", literalmente. Mais uma vez, é o trabalho da análise que permite ao sujeito poder atravessá-la:  Um, dois, tres.. um, dois, tres... e o desejo do analista como quarto nó, enlaçando essa valsa!

  
ps: ao final da apresentação deste texto no Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza, a colega e coordenadora da atividade, Elynes Barros, nos brindou com uma música de Chico Buarque de Holanda (indefectível, viu Osvaldo Martins? rs) que remete à nossas discussão. Deixo aqui a letra/poema da música e compartilho também o video:

Tem Mais Samba
(Chico Buarque)

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver










[1]"tripe", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/tripe [consultado em 26-05-2015].

[2] Usarei aqui a designcação “analista praticante” para aquele que, ainda engajado em sua análise, aventura-se a autorizar-se numa prática clínica.

domingo, 22 de março de 2015

Os Labirintos da Falta e as Tramas por Onde Advém o Sujeito

 A pergunta sobre a origem não é nova na história da humanidade. Provavelmente, desde que há pensamento, há ali também a pergunta sobre a origem. De Gaia e Urano, passando por Adão e Eva até as teorias evolucionistas de hoje, todo um saber foi sendo elaborado para tentar dar conta do que constitui aquilo que é. O ser, a substância e o que o causa tem sido temas caros também à filosofia.

A psicanálise também vai se interessar por esta pergunta, não no sentido de uma metafísica, mas na medida em que Freud assume que não há, desde o início de cada vida que vem ao mundo, algo que responda como um sujeito. Para tanto, faz-se necessário todo um movimento, mas esse movimento que gira em torno da função estruturante da falta. Daí que Lacan vai afirmar que, nada na experiência psicanalítica, pode ser elaborado se não considerarmos a função da falta.

A elaboração da falta na experiência psicanalítica
Teoricamente, podemos tomar essa elaboração sobre a falta na constituição do sujeito por das vertentes: a vertente da falta de objeto e a vertente da falta fálica.

Em Freud, temos na experiência primordial de satisfação algo que poderíamos considerar o momento mítico de constituição do sujeito. A sensação de fome que inerva a parede do estômago faz com que o bebê emita um grito, grito este que vai ser tomado pelo outro, nebemensch, como um apelo. Esse outro comparece então com o seio que vai proporcionar a primeira experiência de satisfação. Dessa experiência, resta um traço que vai se inscrever e que vai ser “ativado” da próxima vez que a fome se apresentar. O outro lado da moeda dessa experiência é que, concomitante à inscrição do traço como afirmação (bejahung) temos a expulsão (austossung) de algo que vai ser rejeitado como estranho. O complexo do nebemensch se divide agora “em dois componentes, dos quais um produz uma impressão por sua estrutura constante e permanece unido como uma coisa, enquanto o outro pode ser compreendido por meio da atividade de memória – isto é, pode ser rastreado até as informações sobre o próprio corpo [do sujeito].”(Freud, projeto, p. 448)

Temos então a situação em que agora, o bebê não mais espera a intervenção do Outro, mas busca satisfazer-se investindo esse traço mnêmico, ou seja, alucinando. No entanto, o objeto alucinado que o bebê investe não se sustenta como experiência de satisfação já que não existe na realidade. Mais uma vez ele chora, mais uma vez o outro comparece com o seio. Só que agora já se instalou aí uma diferença abissal entre o que ficou registrado como traço e o que se encontra na realidade como objeto, sempre insatisfatório, sempre deixando “a desejar”.

A outra via pela qual podemos resgatar a função da falta na psicanálise é aquela que se apresenta em torno da dialética do falo. Seguindo uma via diferente daquela apontadas pelos pós-freudianos (que propunham a existência de um objeto genital maduro) Lacan vai retomar as elaborações freudianas acerca da primazia do falo e suas consequências para apontar que o que está em jogo aí é, na verdade, a falta de objeto.

A relação mãe – filho já se coloca desde o início como triádica, tendo em visto que o falo já se coloca ai como terceiro elemento. Na subjetividade da mãe, o filho que vem ao mundo é tomado como substituto fálico e, pelo menos parcialmente, ocupa no desejo da mãe esse lugar. Temos então a situação em que o bebê é tomado no “engodo cooptativo” que o faz identificar-se ao falo imaginário materno. No entanto, como diz Lacan, a noção de falicismo implica por si mesma o desprendimento da categoria de imaginário, pois é por uma espécie de reviramento que ele passa a ocupar o seu lugar na dialética subjetiva, não enquanto órgão real, mas enquanto significante.
Isso porque o de que se trata aqui não é do órgão real, mas do falo da mãe, aquele que só é descoberto enquanto faltando em seu lugar, no lugar em que era esperado, e essa é a própria definição de significante já que ele não é outra coisa senão “o símbolo de uma ausência”. (Lacan, Seminário sobre a carta roubada , p.27)

É assim que, por um movimento que se inicia com as presenças-ausências da mãe, a criança vai se dando conta de sua incompletude. Vimos que o movimento do desejo vai ser o de tentar reencontrar o objeto perdido. Mas essa tentativa só pode se dar através da única via possível, aquela da demanda. A demanda implica em colocar aquilo que se apresenta como necessidade nas trilhas do significante, dirigindo-as ao outro. (Figura 01)
Figura 01

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Estamos no domínio da reivindicação, onde espera-se que o Outro possa responder. Mas, no horizonte, o que se espera que o Outro responda é, não pelo objeto da demanda, mas pelo objeto do desejo, aquele perdido e que se busca reencontrar. O desejo é exatamente aquilo que surge nessa “margem onde a demanda se rasga da necessidade”(Lacan, subversão, p. 828)
Figura 02


O desejo é exatamente aquilo que surge nessa “margem onde a demanda se rasga da necessidade” (Lacan, subversão, p. 828)

A frustração, é, para Lacan, a versagung, quebra da promessa, onde o Outro não responde. Não responde, claro, porque do desejo ele também nada sabe. Mas o neurótico é aquele que não se conforma com que o Outro não saiba. (sem IX, p. 215)

Uma das consequências da frustração assim experimentada, é que o sujeito vai tomar o desejo enigmático do Outro como integrante do circuito das demandas, e vai fazer do seu próprio desejo uma demanda no Outro. (Figura 02) No Seminário “A identificação”, Lacan recorre a dois toros que se entrelaçam para demonstrar essa relação que ocorre a partir de uma inversão: desejo num, demanda no outro; demanda de um, desejo do outro, que é o nó onde se atravanca toda a dialética da frustração. A segunda consequência é que esse vazio que corresponde ao desejo do outro, vai, em parte, ser reduzido a um significante, o falo, que passa a ser agora “o objeto metonímico de todas as demandas”. (Sem IX, p.200)

É sobre esse movimento que a operação da castração vem incidir para, fazendo atravessar-se ai o registro da Lei, que irá permitir com que o sujeito escape à essa relação de engodo. Ela implica em que a demanda do Outro seja tomada como desejo pelo sujeito, e essa demanda, Lacan a explicita, se formula assim: “tu não desejarás aquela que foi o meu desejo.” Isso tem uma função de corte. É isso que o mito do Édipo vem a ocupar, sendo necessário que, doravante, seja o pai morto quem venha desempenhar essa função de Lei, que permite o advento do desejo. 

Como elaboramos em nosso trabalho apresentado no encontro da EPFCL-Brasil do ano passado, o neurótico, ao se defrontar com a falta, com o impossível de dizer, recorre ao pai para interditar aquilo que supõe correr o risco de gozar. No entanto, é essa própria impossibilidade que impõe a criação do mito do pai gozador, seu assassinato e consequente instauração do pai simbólico. Todo o mito é construído, afirma Lacan, para velar essa falha, fazendo com que aquilo que era impossível, surja como interditado.

É por isso que o Outro enquanto coisa interditada e o Outro enquanto Lei são a mesma coisa, porque o Outro só existe enquanto efeito de linguagem e é por uma operação de metáfora que ele constitui ao mesmo tempo, a coisa interditada e a lei a que a interdita. Operação que vimos materializar-se na operação do corte no Crosscap, que produz ao mesmo tempo a banda de moebius (por onde passeia o inseto) e essa pecinha faltante (o a) . (Figura 03)
Figura 03


Os Labirintos de Ophélia


Ofélia é uma personagem, fruto da criação artística do diretor espanhol Guillermo Del Toro no Filme “O Labirinto do Fauno”. O cenário é o da guerra civil espanhola. O pai de Ofélia, um alfaiate, morrera há alguns meses e sua mãe fica grávida de um dos clientes do marido: o temível capitão Vidal. Vidal é um dos comandantes do exército franquista, conhecido por sua crueldade e responsável por exterminar os rebeldes contrários ao regime do ditador espanhol.
A gravidez apresenta-se como de alto risco, mas mesmo assim, Vidal decide levar Ophelia e sua mãe para morar com ele em uma instalação militar, no meio da floresta. Chegando lá, sua primeira providência é separar mãe e filha, sob o argumento de que esta precisa de repouso absoluto. Ophelia, sentindo-se sozinha naquele ambiente hostil, consegue driblar a separação imposta pelo capitão e consegue chegar ao quarto da mãe que está muito fragilizada pela gravidez e pela viagem. Nesta cena que abre todo o desenrolar do filme, a menina pergunta á mãe: porque tivemos que vir pra cá? Por que você teve que casar com ele? Ao que a mãe responde que se sentia muito sozinha depois que o pai morreu. Ophelia, um tanto quanto admirada, interpõe: sozinha? Mas você tinha a mim! Ao que a mãe responde: existem coisas que uma mulher precisa que você só vai entender quando crescer.
o Fauno
Deparada ao mesmo tempo com a fragilidade da mãe e com seu desejo enigmático, Ophelia mergulha em mundo de fantasias onde conhece o Fauno, uma criatura metade humana, metade bode, que a convence de que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo e que precisa realizar três tarefas para retornar para seu reino.
Uma dessas tarefas consiste em resgatar um certo punhal mágico. Nessa que é uma das mais belas e impactantes cenas do filme, Ophelia precisa atravessar um portal para procurar o punhal, mas é advertida pelo Fauno de lá encontrará um grande banquete exposto: ela não deve, em hipótese alguma, comer nada. 



Chegando lá, ela encontra o tal baquete e uma figura estranhíssima que jaz inerte na cabeceira da mesa. O monstro horrível tem apenas dois buracos no lugar das narinas e um outro no lugar da boca. Sobre a mesa, em um prato estão dois olhos arrancados. Nas paredes imagens de infanticídio anunciam o que está por vir. Apesar de todo o horror da cena, Ophelia transgride a proibição do fauno e come uma uva. Nesse momento o monstro toma vida, coloca os dois olhos que estavam na mesas em buracos na palma da mão e começa a perseguir Ophelia e as fadinhas que a auxiliam na tarefa.

Figura 04 - Santa Luzia de Zurbaran
Essa cena aporta os elementos que se encontram no ponto mesmo onde surge o sujeito. Após se deparar com o desejo enigmático do Outro (tem coisas que uma mulher precisa...), a pulsão é forçada a realizar uma torção: “Por um reviramento que não é uma simples negação da negação, a potência de pura perda surge no resíduo de uma obliteração.” (A significação do falo, p. 698).  A ausência do objeto ali onde ele era buscado impõe à pulsão um retorno: “assim, o curso se completa quando o ciclo pulsional atinge o ponto de partida, a saber, a fonte pulsional. E, no exato momento em que o circuito se fecha, um efeito se inscreve no lugar de onde brotara o empuxo. Esse ponto concerne ao sujeito. (Godino, p. 68)
Pulsão escópica e pulsão oral convergem na sedução de um fausto banquete. Os olhos arrancados sobre o prato, assim como na “Santa Lucia” de Francisco de Zurbarán que encontramos no Seminário da Angustia (Figura 04) , apontam para esse objeto que cai do sujeito em sua relação com o desejo, objeto ao qual o sujeito é reduzido na cena fantasmática que suporta seu desejo.  
Figura 05- Cronos devorando seus filhos de Goya
Ainda nessa cena, somos presenteados pelo diretor com uma representação de “Cronos devorando seu filho” (figura 05) de Goya, onde monstro arranca e come a cabeça de uma das fadinhas, enquanto Ophelia, por muito pouco, consegue escapar. Está feito. O pai primitivo comparece em sua função castradora e Ophelia agora “sabe” que “Dizer que o Outro é a lei ou que é o gozo enquanto proibido, é a mesma coisa.” (Lacan, Sem IX, p. 241)
O que se segue no filme tem todos os elementos do romance familiar do neurótico: o desejo da morte do irmão, a fantasia de pais melhores que os seus (rei e rainha) e o grand finale onde Ophelia se oferece em sacrifício no lugar do irmão: instauração do Supereu como introjeção da lei e imperativo de gozo.
O artista sempre antecipa o psicanalista, embora o faça sem saber....


O PARADOXO DO GOZO E O ENIGMA DE SUA RELAÇÃO COM A LEI


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
(Manoel de Barros, 1993)


O objetivo deste texto é tomar a expressão “paradoxo do gozo” utilizada por Lacan no seminário sete para examiná-la em sua relação com a lei, relação esta que, neste mesmo seminário, é apresentada como sendo da ordem do enigma.
Examinemos, em primeiro lugar, o que é um paradoxo. A doxa, como se sabe, deriva do grego e refere-se a uma opinião ou crença comum. Esta crença comum, por sua vez, depende diretamente da articulação entre dois aspectos: o bom senso e o senso comum. No livro intitulado A Lógica do Sentido o filósofo francês contemporâneo de Lacan, Gilles Deleuze (1974), define esses elementos da seguinte forma:
a) o bom senso se caracteriza pela afirmação de uma direção possível, de um senso único. Essa direção vai do mais diferenciado ao menos diferenciado, do singular ao regular, do passado ao futuro. Ela exprime a existência de uma ordem de acordo com a qual é preciso escolher uma direção e se fixar a ela.
 b) Já o senso comum se caracteriza pela suposição da existência de uma subjetividade e de uma objetividade partilhadas. No plano subjetivo, parte da consideração de uma unidade capaz de dizer “Eu”: “é um só e mesmo eu que percebe, imagina, lembra-se, sabe etc.; e que respira, que dorme, que anda, que come...” Correlativamente, no plano objetivo, o bom senso refere-se também a unidade do objeto ou de mundo:  “é o mesmo objeto que eu vejo, cheiro, saboreio, toco, o mesmo que percebo, imagino e do qual me lembro... e é no mesmo mundo que respiro, ando, fico em vigília ou durmo, indo de um objeto para outro segundo as leis de um sistema determinado.” (Deleuze, 1974, p. 80).
Há ainda uma solidariedade entre o bom senso e o senso comum para engendrar o que é da ordem do sentido. É a partir da articulação entre essas dimensões que implicam na suposição de uma ordem e de uma permanência, que se pode jogar o jogo do sentido. Pois bem, o paradoxo se define exatamente por se opor a esses dois aspectos da doxa, tanto ao bom senso como ao senso comum. Primeiramente porque ele não supõe mais uma direção única, nem mesmo uma direção contrária. A potência do paradoxo consiste em apontar dois sentidos e duas direções ao mesmo tempo. Em segundo lugar, porque no terreno do paradoxo as identidades se dissolvem.
Como afirma Deleuze (1974, p. 94):
“O paradoxo é a subversão simultânea do bom senso e do senso comum: ele aparece de um lado como os dois sentidos ao mesmo tempo do devir-louco, imprevisível; de outro lado, como não-senso da identidade perdida, irreconhecível. Alice é aquela que vai sempre nos dois sentidos ao mesmo tempo: O país das maravilhas (Wonderland) tem uma dupla direção sempre subdividida.”
Ainda assim, o paradoxo não é exatamente contraditório – o que implicaria em uma anulação de seus enunciados. Na verdade, ele aponta para o plano do impossível, lá onde se pode assistir à gênese da contradição: “É contudo aí que se opera a doação de sentido, nesta região que precede todo bom senso e senso comum. Aí, a linguagem atinge sua mais alta potencia como paixão do paradoxo” (Deleuze, 1974, p. 94).
Ou, como ensina Manoel de Barros[1] (1996, p.47), o paradoxo é o “criançamento das palavras. Lá onde elas ainda urinam na perna”. É quando a criança “garatuja o verbo para falar o que não tem”. Salve o poeta, que nos ensina de forma tão mais bela aquilo que quebramos a cabeça para formular teoricamente!
Oportuno também a referência ao infantil que esse poema traz, pois é nesse terreno que estamos quando se trata do inconsciente. E é ele que interessa quando Lacan interroga as relações entre desejo, lei e gozo para formulá-las em termos de paradoxo e enigma. Passemos, então a examiná-las.

O nó entre Gozo, Desejo e Lei
Primeiramente, tomemos a reação entre lei e desejo. Ela remonta aos primórdios da psicanálise, desde que Freud, em sua correspondência com Fliess, elabora o complexo de édipo como núcleo da neurose. A universalidade da paixão pela mãe e do desejo de matar o pai, faz de cada um de nós, em germe ou em fantasia, um personagem da tragédia grega Oedipus Rex (Freud, 1897/1980).
O pai abusador antes anunciado na teoria da sedução é substituído pelo pai que interdita a mãe para o filho, lançando-o na tarefa de encontrar um substituto para o objeto perdido. Alguns anos depois, Freud elabora outra versão do pai, aquela encontrada em Totem e Tabu (1912-14/2012). Aqui também está em jogo o desejo pelas mulheres inacessíveis e o assassinato do pai como medida tomada pelo filho para ter acesso a elas. No entanto, o crime cometido, ao invés de liberar o acesso ao objeto, invade os filhos com uma culpa que vai levá-los a invenção do pai totêmico, pai simbólico portanto, que passa a reger as relações entre os membros da tribo.
Pai sedutor, pai interditor, pai gozador, são as pére-versions freudianas que aparecem como tentativa de dizer a verdade da neurose ao longo de sua obra, apontando para seu “desejo de encontrar um pai que seja o causador da neurose.” (Freud, 1897/1980, p.350). Essa frase, diga-se de passagem, surge na carta 64 à Fliess, a mesma em que Freud afirma estar perto de descobrir a origem da moralidade (o que sabemos, vai desembocar na formulação do Complexo de Édipo).
Apesar da última dessas versões já apontar para a ineficácia do assassinato do pai para o acesso ao objeto interditado, ainda temos presente ai uma situação em que um desejo pré-existente é impedido pelo pai que, esse sim, goza: “Um pai violento e ciumento, que reserva todas as fêmeas para si e expulsa os filhos quando crescem, eis o que ali se acha.” (Freud, 1912-14/2012, p. 216).
O pai como agente da lei também está no cerne dos interesse do estudo de Jacques Lacan que retomou o édipo freudiano extraindo daí o que é da ordem da estrutura. No Seminário 5 (Lacan, 1957-58/1999) temos uma elaboração que vai apontar para o lugar ocupado pelo pai em termos de função. Já não se trata mais da pessoa do pai da realidade, mas do suporte de uma lei simbólica que se dirige concomitantemente à mãe e ao filho: para a primeira – “tu não reintegrarás o produto do teu ventre”; para o segundo – “tu não te deitarás com tua mãe”. O pai surge diferenciado em suas dimensões imaginária, simbólica e real, sendo que é na dimensão simbólica, como Nome-do-Pai que ele se coloca como conferindo autoridade à lei. Tomar o Édipo enquanto arranjo simbólico talvez seja o primeiro passo de um caminho que vai permitir à Lacan ir além de Freud no que tange aos objetivos de uma análise.
Ainda no seminário 5, Lacan afirma, com o Freud de Totem e Tabu, que o pai que promulga a Lei é o pai morto, o que já começa por introduzir um paradoxo que ele só retomará no Seminário 7: se o assassinato do pai se dá pela cobiça do objeto cuja posse a ele pertencia, como poderia a cobiça (enquanto desejo) existir aí se é somente depois de morto que ele instaura a lei que permite desejar? Temos então duas afirmações paradoxais: a) O pai morto é que instaura a Lei que interdita o gozo; e b) É somente porque a Lei existe que o gozo se anuncia como transgressão.
Foi preciso dar mais um passo na incursão que levará Lacan a formular o campo do gozo, como campo lacaniano. No Seminário 7 (Lacan, 1959-60/1991) ele faz referência à conferência proferida em 1960 em Bruxelas (publicada com o título de Discurso aos católicos) onde recorreu a um trecho de uma epístola de São Paulo aos romanos para apontar essa relação paradoxal entre o desejo, o objeto e a lei:
“Que Diremos então? Que a Lei é pecado? De modo algum. Mas eu não conheci o pecado senão pela Lei. Porque não teria ideia da cobiça se a Lei não me tivesse dito “Não cobiçarás’. Foi o pecado, portanto, que aproveitando-se da ocasião que lhe foi dada pelo preceito excitou em mim todo tipo de cobiças. Pois sem a Lei, o pecado não vive. Sem a Lei, eu vivia. Mas quando o preceito adveio, o pecado recobrou vida, ao passo que eu encontrei a morte.” (Lacan, 1960/2005, p. 24-25)
Lacan nos sugere substituir o significante “pecado” pelo termo da “Coisa” para termos aí uma indicação bem clara do nó do desejo com a Lei. O gozo da “Coisa” não existia antes que a Lei se instaurasse. Pelo contrário, é porque a lei existe que o gozo pode surgir como transgressão, ainda que “em germe ou em fantasia”, como é o caso do neurótico. O neurótico, conjuga o verbo pecar (ou gozar) no tempo verbal que só existe na gramática infantil e que foi poeticamente formulado por Chico Buarque[2] em “João e Maria”: agora eu era...agora eu era herói, agora eu tinha acesso ao gozo, só que num tempo passado que só passou agora a existir. O paradoxo do gozo aponta, portanto, para um paradoxo do desejo, que só pode se formular como wunsch, como o voto expresso na gramática do “agora eu era”.
Voltemos para finalizar à relação o paradoxo com o impossível de onde brota o sentido. O paradoxo não é escravo do bom senso, nem do senso comum. Ele aponta para um não-senso, para uma verdade que, embora impossível de ser toda dita, exige que algo possa, ali, ser formulado. No caso do paradoxo que enoda Lei, desejo e gozo, a verdade que jaz impossível de ser toda dita aponta para o encontro com a falta de um significante que possa nomear o gozo.
O neurótico, ao se defrontar com a falta, com o impossível de dizer, recorre ao pai para interditar aquilo que supõe correr o risco de gozar. Assim,  
Para que algo da ordem da lei seja então veiculado preciso que passe pelo caminho traçado pelo drama primordial articulado em Totem e Tabu, ou seja, o assassinato do pai e suas consequências, assassinato, na origem da cultura, dessa figura da qual não se pode deveras nada dizer, temível, temida assim como incerta, a do personagem onipotente, semi-animal da horda primordial, morto por seus filhos. (Lacan, 1959-60/1991, p.211)
No entanto, é essa própria impossibilidade que impõe a criação do mito do pai gozador, seu assassinato e consequente instauração do pai simbólico enquanto morto. Todo o mito é construído, afirma Lacan, para velar essa falha, fazendo com que aquilo que era impossível, surja como interditado: “Esse ato constituía todo o mistério. Ele é feito para nos velar isto, que não apenas o assassinato do pai não abre a via para o gozo que sua presença era suposta interditar, mas ele reforça sua interdição”. (Lacan, 1959-60/1991, p.211)
 Sim, o pai está morto, mas se ele está é porque o é desde sempre. Como afirma Lacan (1959-60/1991): “ele nunca foi pai a não ser na mitologia do filho”.

Considerações Finais
O paradoxo, portanto, brota ali onde uma falha se faz presente, opondo-se tanto ao bom senso, como ao senso comum, resistindo ao fechamento do sentido, apontando para o impossível de dizer tudo, o impossível da relação sexual. Em psicanálise sabemos que a castração é o nome dessa falha.
O neurótico, por sua vez, é aquele que constrói uma resposta frente a essa falha, ao articulá-la ao mito do assassinato do Pai. Pai morto, pai simbólico, é ele enquanto “Nome-do-pai” que vai permitir os deslizamentos e pontuações da cadeia significante, permitir com que se continue jogando o “jogo do sentido”. É só então que podemos falar de uma transgressão que “terá havido” quando do assassinato do pai. Diante da verdade em sua face medusante, o neurótico cria. Estamos diante do paradoxo em que Lei, desejo e gozo se articulam. 
E como ao abordar de frente à verdade precisamos sempre de alguma proteção que nos impeça de cegar, recorramos mais uma vez ao poeta, para que ele contornando o impossível com suas palavras, nos permita o véu da beleza:
Ando muito completo de vazios.

Meu órgão de morrer me predomina.

Estou sem eternidades.

Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.

Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.

Atrás do ocaso fervem os insetos.

Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.

A minha independência tem algemas.
(Manoel de Barros, 1993)



REFERÊNCIAS

BARROS, M. O livro das ignorãças. 3ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.
___________. Livro sobre Nada. Rio de Janeiro: Record, 1996
DELEUZE, G. A Lógica do Sentido. Perspectiva: São Paulo, 1974.
FREUD, S. (1888-1893). Cartas a Fliess – cartas 64 e 71. In: Obras Completas, Ed Standard Brasileira, vol. I, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
FREUD, S. Totem e Tabu (1912-14). In: Obras Completas, Vol. 11. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
LACAN, J. O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio
de Janeiro, Zahar Ed., 1999.
_________. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de
Janeiro, Zahar Ed., 1991
_________. O Triunfo da Religião, precedido de Discurso aos Católicos (1960). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


[1] Manoel de Barros é um dos maiores poetas contemporâneos brasileiros, nascido em 1916, em Cuiabá, no estado de Mato Grosso.
[2] Compositor do cancioneiro popular brasileiro.