sábado, 13 de setembro de 2014

A questão da técnica, o estatuto do sujeito e o lugar do objeto em psicanálise




Uma disciplina intitulada “Teorias e Técnicas Psicoterápicas” que se pretenda “psicanalítica” coloca, desde saída, alguns problemas que merecem ser examinados.
Em primeiro lugar, porque esse título traz, em si embutida, a ideia que marca o pensamento moderno de que o saber se acumula em um arsenal teórico cientificamente respaldado que, posteriormente vai poder ser aplicado na prática, devidamente instrumentalizado. Ou seja, através da acumulação do saber científico eu tenho como ter de antemão um determinado corpo de saber que me permitiria intervir para obter determinado efeito esperado.
É essa a visão presente, por exemplo, no currículo da graduação em psicologia, em que o aluno passa alguns semestres acumulando um saber teórico para, em seguida, realizar o seu estágio clínico em um “Serviço de Psicologia Aplicada", ou seja, um lugar onde ele irá aplicar a técnica.
No entanto, essa forma de pensar a técnica como uma mera instrumentalização merece ser questionada, principalmente quando se trata das disciplinas que compõem o campo "psi". Especialmente porque nesse campo, não é raro surgir a angústia do lado daquele que aplica a técnica, exatamente por sentir que o conjunto teórico de saberes que ele acumulou não é suficiente ou nem mesmo adequado para permiti-lhe intervir, ficando a incômoda sensação de farsa.
Além disso, vale a pena resgatar o comentário de Bukowski (1987) em uma entrevista dada a Sean Penn e que toca em cheio na fragilidade que perpassa a intervenção clínica pautada nesse modelo:
“Creio que o problema entre psiquiatria e seu paciente é que o psiquiatra atua de acordo com o livro, ainda que o paciente chegue pelo que a vida lhe fez. E mesmo que o livro possa ter certa astúcia, as páginas sempre são as mesmas e cada paciente é diferente. Existem muito mais problemas individuais que páginas.”
Sim, existem muito mais problemas individuais que páginas! No entanto, esse pensamento que está na base da organização da psiquiatria e da psicologia contemporânea tenta classificar o que "chega pela vida" em páginas dos livros". Essa estrutura é fundada naquilo que ficou conhecido na história como “momento cartesiano”, marcado pelo cogito de Descartes: penso, logo existo. Ou seja, há uma possibilidade de amarrar a garantia do ser em algo que é formulado pelo pensamento.
Mas é naquilo que recebemos na prática clínica que esse fundamento é mais questionado, pois aquilo com que lidamos é geralmente perpassado por um saber que não se basta, não se garante pela páginas dos livros nem em todo o saber teórico organizado.
E é aí que, no final das contas, fica a pergunta: de onde tirar a matéria por onde iremos intervir? Devo buscar nas minhas experiências pessoais, nos meus preconceitos, nas minhas experiências de vida? Mas como, se muitas vezes sou eu o sujeito angustiado reduzido frente a um discurso que me objetifica como mero depositário de um saber pré-fabricado, do qual eu em nada participo?
A angústia de introduzir esses questionamentos pode ser imobilizante, talvez por isso mesmo ela seja tão pouco abordada na universidade. Mas nossa proposta é que possamos avançar essas questões, ao invés de ignorá-las.
Partamos então da “Questão da Técnica”. Esse na verdade é o título de um texto muito interessante de Martin Heidegger, onde ele vai questionar as definições mais conhecidas de “técnica”: aquela que diz que a técnica é “um meio para fins”; e aquela que diz que a “técnica é um fazer do homem”.
  Nesse texto, a proposta de Heidegger é questionar a técnica em sua essência que, segundo ele, não é de modo algum algo meramente técnico. Ele nos diz o seguinte:
“Assim, pois, a essência da técnica também não é de modo algum algo técnico. E por isso nunca experimentaremos nossa relação para com a sua essência enquanto somente representarmos e propagarmos o que é técnico, satisfizermo-nos com a técnica ou escaparmos dela. Por todos os lados, permaneceremos, sem liberdade, atados à ela, mesmo que a neguemos ou a confirmemos apaixonadamente. Mas de modo mais triste estamos entregues à técnica quando a consideramos como algo neutro; pois essa representação, à qual hoje em dia especialmente se adora prestar homenagem, nos torna completamente cegos perante a essência da técnica.”
Então, se nos mantivermos presos à técnica como algo neutro, estaremos privados de liberdade e completamente cegos diante da experiência. A técnica, portanto, deve ter algum outro fundamento que a ancore.
O filósofo então retoma as definições comumente atribuídas a técnica para questioná-las: “o que é o instrumental mesmo? Onde se situam algo como um meio e um fim?” E é aí que ele situa que, perguntarmo-nos pela questão dos meios e dos fins, coloca necessariamente em questão a função da “causa”:
“Um meio é algo pelo qual algo é efetuado e, assim, alcançado. Aquilo que tem como consequência um efeito, denominamos causa.”
Tanto o meio por onde se obtém um determinado efeito como a própria finalidade que se busca alcançar colocam em função a questão da causa. E aí, já não estamos mais no terreno da pura técnica, mas já adentramos em um outro que é aquele da Ética. Veremos porquê.
Quando ouvimos o significante “causa”, dentro do modelo científico, ele nos remete imediatamente a conhecida relação de causa e efeito. No campo da clínica, por exemplo, há muito se questiona acerca da “causa” das doenças, dos transtornos, dos distúrbios. Mas o que se oculta nessa interrogação é que ela já é fundamentada por uma outra vertente da “causa”: “a causa pela qual se luta, a causa que se defende e pela qual se pode até morrer. Trata-se da causa que norteia uma vida.” (Quinet, A. A estranheza da Psicanálise, 2003, P. 27)
Aqui já é preciso dizer que trouxemos para o debate um outro campo, aquele da política. A indústria farmacêutica que financia as pesquisas chamadas “clínicas” sustenta uma “causa”. O sujeito que padece de um sofrimento, também sustenta a sua.Isso porque, como nos diz Heidegger, a causa e o que ela ocasiona tem a ver com o que a cada vez aparece no produzir, e o que aparece no produzir é a verdade que o sustenta:  
“O produzir leva do ocultamento para o descobrimento. O trazer à frente somente se dá na medida em que algo oculto chega ao desocultamento. Este surgir repousa e vibra naquilo que denominamos o desabrigar (Entbergen). Os gregos têm para isso a palavra “aletheia”. Os romanos a traduzem por “veritas”. Nós dizemos “verdade” e a compreendemos costumeiramente como a exatidão da representação. (...) Por onde nos perdemos? Questionamos a técnica e agora aportamos na aletheia, no desabrigar. O que a essência da técnica tem a ver com o desabrigar? Resposta: tudo. Pois no desabrigar se fundamenta todo produzir. (...) A técnica não é, portanto, meramente um meio. É um modo de desabrigar. Se atentarmos para isso, abrir-se-á para nós um âmbito totalmente diferente para a essência da técnica. Trata-se do âmbito do desabrigamento, isto é, da verdade.”
Assim, perguntar sobre os meios para se chegar a um fim, não é uma questão meramente técnica, mas também ética e política. Chagamos portanto a uma relação entre técnica, causa e verdade, que passaremos a explorar.
Há séculos, diz-nos Heidegger, a filosofia ensina que há quatro causas:
  1. a causa materialis, o material, a matéria a partir da qual, por exemplo, uma taça de prata é feita;
  2. a causa formalis, a forma, a figura, na qual se instala o material;
  3. a causa finalis, o fim, por exemplo, o sacrifício para o qual a taça requerida é determinada segundo matéria e forma; 
  4. a causa efficiens, o forjador da prata que efetua o efeito, a taça real acabada. 

          Na verdade essas quatro dimensões da causa foram elaboradas por Aristóteles, há mais de 300 anos a.C. Em um texto intitulado “A Ciência e a Verdade”, Lacan vai examinar os campos do saber que se organizaram na história da humanidade a partir da causa e da verdade que está em jogo em cada um deles: a magia, a religião e a ciência. E, a partir daí, vai poder situar a especificidade da psicanálise em situação de ex-centricidade em relação a esses outros campos
a) a magia é a verdade como causa sob seu aspecto de causa eficiente. Isso porque a verdade está no agente que é o xamã, cujo corpo ele empresta ao mito, sustentando o ritual por onde a verdade se processa. (Quinet, 2003, p 31). “Ela supõe o significante respondendo como tal ao significante. O significante na natureza é invocado pelo significante no encantamento. É metaforicamente mobilizado. A Coisa, na medida que fala, responde a nossas objurgações.”(Lacan, 1966, p.885). Trovão, chuva, meteoros e milagres, é assim que aparece aquilo que o xamã mobiliza na natureza, mas essa é uma forma de relação com a causa que negligencia a verdade do sujeito. Esconde-se aí que a preparação do sujeito em sua relação com a verdade é imprescindível para que ele possa operar com seus poderes. Ele precisa se purificar, entrar em contato com a natureza, etc.
b) Na religião, trata-se da verdade como causa final: “o religioso entrega a Deus a incumbência da causa, mas nisso corta seu próprio acesso a verdade. Por isso é levado a atribuir a Deus a causa de seu desejo, o que é propriamente o objeto do sacrifício. Sua demanda é submetida ao desejo suposto de um Deus que , por conseguinte, é preciso seduzir. O jogo do amor entra por ai.
c)  Na ciência, o que ocorre é que, da verdade como causa, ela nada quer saber nada, centrando-se inteiramente na causa formal. A questão do saber e da verdade são reduzidas à questão do método, das formas, e nada mais do lado do sujeito precisa ser questionado, como por exemplo, o desejo do pesquisador... Falaremos um pouco mais dessa modalidade de saber.
A ciência progride pela vontade de potência de domínio sobre o real. Encontrar as respostas para tudo aquilo que se atravessa em nossa história como enigma, obstáculo, e no limite, para a própria morte. No entanto, esse progresso científico é balizado muito mais pelos novos obstáculos que cada teorização encontra, do que pelos próprios avanços obtidos. Essa é a tese de Koyré, filósofo como quem Lacan irá dialogar, mas que podemos encontrar de alguma maneira também nas formulações de Popper e Kuhn.
“Na perspectiva de Koyré, o obstáculo e inerente a produção do conceito, e por extensão, à elaboração do saber da ciência. Até porque o tal ‘obstáculo’ não faz mais do que revelar o impensável de uma época. Em consequência, acaba por mostrar o limite da axiomática na qual se insere. Donde se depreende que, para ele, o impensável em uma axiomática – em uma época dada – indica o advento de uma nova dimensão e aponta o surgimento da axiomática seguinte.” (CABAS, G.A. 2003, p.200)
 No entanto, o curioso do discurso científico é que, desses limites com os quais ele vai se deparando (e que constituem sua verdade), ele não quer saber nada. Ele foraclui a verdade como causa, assim como sutura o sujeito eliminando a questão do seu desejo.
É assim que a ciência moderna nasce por um movimento que elimina as relações do sujeito com a verdade, por uma valorização do “como funciona”, em detrimento do “qual o agente” ou “qual a finalidade” de uma ação. Enquanto que no pensamento teocêntrico, Deus era o eixo central enquanto causa final, as leis do pensamento científico são uma espécie de causa formal, onde não interessa a intenção do agente nem seus porquês.
 É interessante observarmos que, ao mesmo tempo em que cria as condições para o surgimento do sujeito (antes do momento cartesiano, o único agente do universo era Deus), o nascimento da ciência moderna expulsa de suas condições de possibilidade exatamente tudo que diz respeito a esse sujeito. Isso porque, a partir daí, nada do “ser de sujeito” do cientista participa dessa produção do conhecimento. Pelo contrário, espera-se dele a máxima neutralidade. Como diz Lacan no seminário 11, ninguém se pergunta sobre o desejo do Físico!
Daí porque Lacan vai afirmar que o sujeito da psicanálise é o mesmo sujeito da ciência. Antes da ciência moderna, não haveria possibilidade de surgimento da psicanálise pois a questão da “causa” era totalmente atribuída a Deus. Além disso, podemos dizer que a psicanálise nasce de um dos obstáculos encontrados pela ciência positivista: é Freud, encontrando as histéricas de Salpetriêre que se constituíam em um limite para o saber cientifico, não respondiam a ele, não se encaixavam em suas premissa.
Assim, seguindo a tese de Koyré, seria a psicanálise uma ciência, já que nasce do encontro de um obstáculo de uma axiomática anterior? Poderia até ser, se não fosse o fato de que a psicanálise já nasce subvertendo a lógica do discurso científico. Ocorre que Freud, ao se questionar sobre a histeria, não o fez sob os moldes de um observador externo ao objeto estudado. O que a psicanálise sustenta é que o “sujeito está, se nos permitem dizê-lo, em uma exclusão interna a seu objeto. ”(Lacan, 1966, p. 875).
Foi através da análise de seus próprios sonhos que Freud avançou no terreno da histeria. Isso porque ele propôs uma outra fundamentação para o saber. Frente a nossa pergunta inicial: onde vou poder buscar a matéria por onde vou intervir na clínica? Freud respondeu: com seu próprio saber inconsciente. Isso porque o que ele descobre é que o sintoma tem um sentido, uma lógica a ser decifrada: isso fala! É portanto no próprio texto inconsciente que se manifesta através dos lapsos, sonhos chistes, que a verdade do sujeito deve ser buscada.
Ou seja, a psicanálise, nas exposição das causas aristotélicas, opera de forma diferente tanto da magia (que se encontra na clínica sob a forma de sugestão) como da religião e da ciência. A psicanálise reintroduz no campo do saber a relação do sujeito com seu desejo, ou seja, com sua verdade.
 Mas aí, ela opera uma subversão tão grande, que não é mais possível pensarmos a questão da formação como algo que se dá nos bancos de uma universidade. Não podemos mais esperar de uma acumulação do saber, que foraclui o sujeito, as bases para que ela possa intervir segundo uma técnica.
É preciso que o próprio sujeito vá se interrogar sobre o seu desejo, que ele possa ter acesso a sua própria verdade e às fixões[1]. E a verdade para a psicanálise tem uma especificidade. Não se trata de uma verdade transcendente, absoluta, universal. Trata-se de uma verdade particular, um “fato de memória”: “lembrar os obstáculos que precederam a conquista de um saber – o que Lacan denomina ‘a verdade enquanto causa’- é o que o discurso analítico define como ‘lembrança da castração’. (CABAS, G. 2003, p. 212)
É isso que a ciência não considera, a memória dos obstáculos, e que a psicanálise vai resgatar.
O neurótico é alguém que, ao se deparar com um obstáculo, constitui uma ‘axiomática’ para responder pelo que ele é, pelo lugar do Outro e pelo que ele entende do mundo em si. Só que essa construção o fixa a uma realidade em que ele é sempre objeto do gozo do Outro; em que ele repete uma situação em que ele sofre com seu sintoma, mas com isso goza de uma satisfação que mal se reconhece como tal.
Na clínica a consideração desses princípios implica reconhecer que a conduta do terapeuta de forma alguma pode ser reduzida a uma “escolha da abordagem” teórica ou do aprendizado de técnicas, mas implica em um dimensão do saber inconsciente que só pode ser acessado através da análise.
 Assim, falar da técnica exige necessariamente que falemos da (de)formação necessária para aquele que vai exercê-la, e isso não pode ser pensado separadamente de uma ética e de uma política. Isso é o que veremos na próxima aula.  
Referências
  • Bukowski, C. (1987). (Entrevista com Sean Penn, ator e poeta). Recuperado em 20 outubro, 2011, de http://bukowski.net/poems/int2.php 
  • CABAS, A. G. O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeitoao sujeito em questão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.  
  • Heidegger, M. A Questão da Técnica (1953). Revista Scientiæ zudia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007. Disponível em www.revistas.usp.br/ss/article/download/1111AS
  • LACAN, Jacques. A ciência e a verdade (1965-66). In:Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
  • QUINET, A. A estranheza da psicanálise: a Escola de Lacan e seus analistas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p.124-129.








[1] Neologismo criado por Lacan que junta ficções e aquilo que se fixa

domingo, 31 de agosto de 2014

Lost in Translation...



 “Foi só isso? Parece que ele disse bem mais que isso...”

A fala é de Bob Harris (Bill Murray), um ator de cinema que está em Tokyo para fazer um comercial de whisky. O Diretor, japonês, fala umas vinte frases incompreensíveis para o ocidental, ao que a tradutora retruca: ele disse que quer que você se vire e olhe para a câmera. Claro que não foi só isso que ele disse. O resto ficou..lost in translation.  A frase, que dá título a esse filme belo e delicado, não poderia definir melhor o que se passa (A tradução em português - Encontros e Desencontros - não foi tão feliz assim).


Bob é um homem de meia idade, que arrasta um casamento desgastado em seus 25 anos, e com uma cara de quem preferia estar em qualquer lugar do mundo, menos no Japão. Entre as idas e vindas para a filmagem do comercial (que lhe exige uma encenação ridícula, mas que paga milhões de dólares para ele estar ali) Bob se revira no quarto do hotel, assolado pelo jet lag de 24 hs de diferença de fuso. Não é dito muita coisa, mas quem já passou uma noite tentando, em vão, dormir, sabe imediatamente do que se trata. Ele desce pro bar do hotel e lá conhece Charlotte (Scarlett Johanson) - linda, como só ela consegue ser, mas extremamente entediada. Ela está na cidade acompanhando o marido fotógrafo. Ele, veio a trabalho. Ela... ainda não está muito certa a que veio. Aliás, essa é a frase que, repetida em situações diferentes, resume sua personagem: “I’m not sure”.


Ela não está muito certa do que vai querer beber, de qual é sua profissão, do está fazendo no mundo, do que é estar casada, do que é estar consigo mesma. Assim como Bob, ela se arrasta insone entre o quarto e o bar do hotel. Nessas idas e vindas, eles se encontram. Trocam algumas palavras, não muitas. Mas parece que compartilham algo, talvez a sensação de que a vida está passando e eles não fazem ideia de como vieram parar ali.
Tokyo é uma metáfora para este “ali”. Uma metáfora belíssima, por sinal. Num dos momentos mais poéticos do filme, acompanhamos Charlotte deslocar-se de trem até Kyoto. Na viagem vemos o Monte Fuji imponente e ancestral, e a acompanhamos em um passeio num parque, onde seu olhar cruza com uma mulher ricamente adornada em trajes típicos japoneses, amparada pela mão do marido. Por um segundo, somos atravessados naquele olhar por todas as perguntas que uma mulher se faz, sobre si, sobre o amor, sobre a vida. 

Assim é a dor e a delícia de poder usar das palavras. Nunca se diz tudo. Na palavras da poeta Orides Fontela: “Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave".  Mas, apesar desse impossível, e até por causa dele, eis que uma metáfora se faz e a poesia invade a cena.
Aquilo que nos chega da experiência, como que invadindo nosso corpo, precisa ser transcrito em outra língua, traduzido mesmo, disse Freud em sua famosa carta 52 à Fliess. E nisso que se traduz, alguma coisa resta sempre “lost in translation”. Irrecuperável, mas presente inexoravelmente cada vez que tentarmos nos dizer.
Estar sozinha em um país distante é uma forma de experimentar mais perto esse algo. Em uma experiência recente, fui tomada pela visão de um quadro que, assim como esse filme, me disse muito sobre o que é estar tão intimamente acompanhada disso que “Que dá dentro da gente e que não devia/ Que desacata a gente, que é revelia”. O quadro, de Edward Hooper, se chama “Hotel Room”.  
Nele vemos uma mulher sentada na cama de um hotel qualquer. Ela se despiu, seu chapéu e suas roupas estão jogados sobre uma cadeira e ela parece cansada demais para desfazer a mala. Nas suas mãos um papel que ela examina, provavelmente o bilhete do trem que vai pegar no dia seguinte. Tal qual a Charlotte diante da gueixa da cena do filme, me vi fascinada por aquela mulher, identificada ao que ali se diz de sua situação de viajante sozinha, mas, principalmente, identificada ao que não sei dizer de mim que ela parece também portar. Enfim, seja em NovaYork, em Tokyo, em Madrid ou no interior do Ceará, tem sempre a possibilidade de encontrarmos com essa estranheza familiar.

Sofia Copolla teve um grande mérito nesse filme (mais um entre tantos): não reduziu o desconforto, o tédio, a angústia, a um encontro onde o amor resolve tudo, como é a promessa do cinema holywoodiano). Charlotte e Bob se encontram, é fato. Mas isso não elimina a estranheza. Apesar da sensação implícita de que pela primeira vez na vida conseguem estar com alguém com quem minimamente conseguem conversar, a promessa de um amor vai se arrastando. Provavelmente enquanto ele pensa na esposa e nos filhos que deixou na América, e ela no marido workaholic que não consegue ficar perto dela.
A tensão é constante, mas não há encontro físico. Eles dormem juntos porque pegam no sono conversando, mas não fazem sexo. E o único beijo do filme acontece num momento lindo, quando prestes a pegar o avião que vai levá-lo embora para longe de Charlotte, Bob sussurra algo em seu ouvido, algo que nós espectadores nunca vamos saber: lost in translation.

Fica a sensação se que algo escapou, algo está perdido. Mas é isso também que faz toda a beleza do filme e da vida. Não é que a vida valha a pena, apesar de perdermos. É exatamente porque perdemos que vale a pena seguir inventando: inventando o amor, a poesia, a vida. 

A psicanálise tem outra forma de dizer isso. Nessa mesma viagem em que encontrei Hooper, tiver a oportunidade de ouvir uma belíssima apresentação do psicanalista Antonio Quinet onde ele disse da estrangeiridade de todos nós em relação ao inconsciente, que é sempre translinguístico. Isso é, apesar da ilusão de que “é falando que a gente se entende”, estamos todos - mesmo quem nunca saiu do seu lugar natal - sempre tendo que nos virar com uma língua estrangeira. E que a tarefa do analista consiste em arrancar as palavras de sua familiaridade, permitindo que, por um lado, o sujeito se descole de suas identificações, e por outro, que aquilo que cai “lost in translation” compareça.  

terça-feira, 26 de agosto de 2014

As escolhas (Hetero) (Homo) sexuais e a Psicanálise

Para além das determinações sociais, culturais ou de gênero, a psicanálise vai afirmar que, para o ser falante,  tanto a identificação com seu sexo como a escolha de objeto são engendradas a partir de uma “outra cena”, inconsciente.
Usamos aqui tres palavras que exigem que falemos um pouco mais sobre elas: identificação, escolha e objeto. Comecemos com uma pergunta: afinal, podemos falar de “escolha” no que tange a sexualidade?
“Dizer que um homem ou uma mulher “escolheu” ser homossexual pode parecer um absurdo, ainda mais no caso em que tudo que ele/ela preferiria na vida seria ser heterossexual, ou quando luta contra seus desejos, ou se recrimina por eles e até tenta se matar para não ter que viver sua pulsão, a qual lhe exige constante satisfação. (...) No entanto, falar de escolha subjetiva em relação à sua forma de falar é uma postura ética, que tira o sujeito dito homossexual do lugar de vítima: de sua genética ou de seu destino ou do desejo de seus pais, o Outro parental. Falar de escolha sexual implica em fazer o sujeito responsável por seu gozo.” (Quinet, 2013, p. 131)
Como então podemos entender essa “escolha” que mal se reconhece como tal? Em primeiro lugar é preciso situá-la dentro dessa “outra cena” a que nos referimos há pouco. Não se trata de uma escolha consciente, de uma decisão tomada deliberadamente em um dado momento cronológico da vida. Trata-se de uma escolha forçada, como diz Lacan. Para ilustrar essa escolha, ele coloca a seguinte situação: imagine que você que vem andando distraído, portanto uma bolsa com todos os seus pertences. De repente, surge o ladrão que, com uma arma encostada na sua cabeça, sentencia: a bolsa ou a vida! Não sei o que você faria, a gente nunca sabe de antemão como reagiria numa situação dessas, mas pode ter certeza de uma coisa: a bolsa, você já a perdeu!  Considerando que a opção de correr está fora de cogitação (lembre-se que o cano está apontado pra sua cabeça, sobram duas opções: a) você escolhe a vida e entrega a bolsa; b) você escolhe a bolsa, e ai ele lhe tira a vida. O que no final das contas não vai lhe sobrar muito pra continuar usufruindo da bolsa.
Pois bem, nossa constituição psíquica nos coloca em determinado momento frente a uma escolha desse mesmo tipo, e nos obriga a nos alienar ao Outro da linguagem e com isso perdemos algo. É preciso dizer que nem todos escolhem essa via, é possível escolher também a bolsa, não se alienando ao Outro, mas nesse caso as consequências são tão devastadoras que já não podemos usufruir da bolsa. Mas não trataremos desse caso aqui. Detenhamo-nos portanto naqueles que escolhem a vida.
Não nascemos homens ou mulheres, nem hetero nem homossexuais. (Na verdade, o que Freud descobriu em sua clínica foi que nascemos com uma predisposição bissexual que só depois vai se definir). Mas enfim, nós nascemos mesmo é completamente desamparados, sem recurso algum para lidar com um corpo que vive, ao sabor das pulsões parciais. Se nós estamos aqui hoje conversando, é porque quando nascemos, algum outro se dignou a nos tomar em seu desejo e, frente a esse nosso desamparo fundamental, compareceu.
Freud toma como exemplo dessa situação o bebezinho recém-nascido que chora e esperneia. Ele sente coisas, coisas que não sabe ainda nomear. Uma delas é uma sensação de contrações no estômago que o deixa muito irritado: FOME! O adulto que se aproxima, geralmente a mãe ou quem ocupa seu lugar, oferece o seio ou a mamadeira ele então tem aquilo que chamamos de “primeira experiência de satisfação”. Aquilo é maravilhoso! E ele guarda consigo um traço mnêmico dessa experiência. Mas o que Freud descobriu foi que, da próxima vez que a fome bater, ele não vai sair gritando e esperneando pra chamar novamente a mãe. Ele investe libidinalmente o traço que ficou marcado dessa experiência, o que quer dizer que ele alucina! Ele tenta por essa via alucinada repetir a experiência do mesmo objeto da primeira satisfação. Mas ele não encontra, porque o que ele tem são apenas traços, vestígios desse objeto.  E aí, ele é obrigado a chamar novamente a mãe que novamente comparece com o seio.
Como diz Quinet (2013, p. 132), “o sujeito escolhe o  Outro do amor como uma escolha forçada, que constitui sua alienação- menos pior que o desamparo da ausência do Outro. Trata-se da escolha do Outro do sentido, ou seja, da linguagem, aquele que dá ao sujeito o apoio do simbólico. Mas para entrar na sexualidade, ele deve, em seguida, poder separar-se , pois, entre o sujeito e o Outro, há o objeto a, causa do desejo, que lhe dará a orientação subjetiva e sexual em sua singularidade. É esse o objeto que o sujeito alojará no parceiro sexual de sua escolha.” (p. 132)
Após a alienação ao Outro do amor, a separação. Desse processo restará um vazio deixado pelo objeto esperado mas não encontrado É nesse lugar que Lacan vai construir seu conceito de objeto a, objeto que causa o desejo e não objeto de satisfação do desejo. Dito de outra maneira, nós não temos algo a nossa frente (como quer nos fazer acreditar o capitalismo) que, ao ser encontrado, responderá pelo nosso desejo. O que nós temos é um vazio que nos obriga a caminhar pela vida, buscando substitutos que o preencham.
É na relação que estabelecemos com esse vazio, ou com esse objeto que vão se organizar duas das nossas escolhas mais importantes em termos de sexualidade: a escolha da posição sexuada dentro da partilha dos sexos (posição masculina ou feminina) e a escolha de objeto sexual.
O discurso religioso ou até mesmo o discurso da ciência nos levam a crer que existe uma norma natural que rege isso. Do lado religioso, ouvimos constantemente afirmações como “a relação entre dois homens não pode ser aceita porque não é natural”. Do lado científico, as teorias genéticas levam a explicações baseadas nas  organizações cromossômicas que cada um portamos e defende que é isso que define nosso sexo.  Daí que tudo aquilo que desvia dessa pretensa natureza é tido como desvio, pecado ou doença.
Mas o que a psicanálise descobre é que que, se tem uma coisa que todos nós somos em termos de sexualidade, é que somos todos desviantes! Perverso polimorfo, foi assim que Freud chamou a criança, que busca satisfazer suas pulsões por todos os buracos do corpo: daí a pulsão oral, anal, escópica, invocante... A entrada na norma fálica tenta recalcar essa sexualidade infantil a serviço dos avanços a civilização. Mas ocorre que a pulsão persiste, insaciável, exigindo sua satisfação, ainda que por outras vias desviadas. Daí que a sexualidade do ser falante, ao contrário do animal, é sempre conflituosa.
É em meio a essa bagunça da pulsão, por um lado, e as exigências civilizatórias, por outro, que cada um precisa se posicionar sexualmente e escolher seu objeto. Falemos primeiramente da escolha da posição sexuada: tornar-se homem ou tornar-se mulher, o que é isso?
Freud descobriu uma coisa estranha: a criança pequena desconhece a diferença sexual e atribui um falo a todos os seres animados...e as vezes até aos inanimados. É o que ele chamou de “primazia do falo”. Acima de tudo, ela supõe um falo á mãe, que como ser mais importante na sua escala do universo, deve ter um falo maior que todos do mundo! Do tamanho do de um cavalo, como diz o famoso pequeno Hans. Na verdade ela até se identifica a esse falo materno, como aquilo que a complementa e a realiza. Nesse momento, meninos e meninas tem uma mesma escolha de objeto: a mãe.
A descoberta de que a mãe não tem o falo, de que ela não é completa, de que ela deseja, é decisiva  para o posicionamento da criança frente a partilha sexual e aqui muita coisa pode acontecer. Se ela for neurótica, o caso que estamos abordando aqui, ela vai localizar no pai, aquilo que a mãe deseja, ou seja, o falo. Foi a isso que Freud tentou explicar com o termo Complexo de Édipo. O Édipo é uma experiência determinante para que o sujeito possa separar-se desse lugar de objeto da mãe, definindo seu lugar no mundo e com isso sua identificação com seu sexo e sua escolha de objeto. Somente aqui as coisas começam a se diferenciar para meninos e meninas:
a)   o menino será aquele que, ao localizar o falo do lado do pai, passa a se identificar com ele, aquele que tem o falo, abre mão da mãe como objeto de amor e passa a procurar uma mulher que a substitua.
b)   A menina será aquela que, localizando o falo do lado do pai, se identifica com aquela que não tem o falo, a mãe, e passa a esperar receber o falo do pai em forma de um bebê. Como esse bebe do pai não chega, ela passa a buscá-lo em outros homens.
Essa é a explicação freudiana que, apesar de muito importante para entendermos o processo de sexuação, tem alguns pontos cegos, alguns pontos problemáticos. Principalmente no que tange a explicar a posição feminina, pois se ela responde pelo que é o desejo da mãe (um filho) ela deixa intocada a questão do que quer uma mulher.
Lacan vai entrar nessa conversa apontando que Freud fez avanços importantíssimos nessa área e que precisavam ser resgatados: a sexualidade infantil, a realidade psíquica, a lógica inconsciente,  o objeto para sempre perdido... mas que ele se deteve num certo ponto: suas elaborações se detiveram dentro da lógica fálica, aquela que responde pelo desejo, pela libido, sempre masculina. Por isso Freud se deteve frente ao que ele chamou de “continente negro”.
Para poder avançar nos esquemas freudianos, Lacan recorreu à lógica e esboçou um quadro que situa, de um lado a lógica toda fálica, masculina. E do outro, o que ele chamou de não – todo fálico, ou lógica feminina. A escolha do lugar na partilha sexual, portanto, não depende nem da anatomia, nem das construções sociais, mas do lugar em que cada um vai se colocar: todo fálico ou não todo fálico.
O lado todo fálico, convencionou-se chamar lado homem, é totalmente inscrito na lógica fálica. Como afirma Quinet (2013, p. 136) “o homem se assegura que é homem a partir da apropriação fálica. Isso porque ele tampouco tem o falo e sua angústia de castração o leva não a temer perdê-lo (como pênis, o falo imaginário) pois não o tem, mas a arrumar substitutos, cuja perda, aí sim, significariam sua castração.” Essa lista de substitutos é infinita e inclui mulheres, dinheiro, poder, carros, etc. Objetos que adquirem significação fálica em uma dada cultura.
 O lado não todo fálico, lado que designaria a posição feminina, não está todo delimitado pelas significações sociais localizadas na norma fálica. É preciso dizermos que, a norma fálica organiza as cadeias significantes e a própria linguagem, permitindo que regulemos as relações sociais através de discursos. Quem se coloca do lado mulher, portanto, não está toda submetida a essa norma fálica, embora também esteja com um pé dentro dela. O gozo feminino irrompe nessa lógica fálica apontando para um fora da linguagem, fora do sentido, fora da norma, o que faz com que o feminino tenha sido visto ao longo dos tempos como algo meio louco e desorganizador.
Agora, alguns pontos importantes:
a) Nada impede que um ser portador de uma anatomia masculina se inscreva do lado feminino ou vice-versa. É de uma escolha de gozo que se trata, não de anatomia.
b) Existem diversas possibilidades de se localizar nessas duas lógicas.
c) Nós não nos relacionamos sexualmente com pessoas, mas com um objeto que causa nosso desejo e que situamos nela. Nos investimos o objeto.
d) A escolha de objeto não está condicionada pela posição sexuada.
O que podemos deduzir desses tres pontos é que, como dizia um antigo comercial, "existem diversas maneiras de preparar Neston":
·  Um ser que nasceu portador de um pênis ou de uma vagina, pode se colocar do lado masculino e escolher investir um objeto sexual que está localizado em uma mulher ou em outro homem.
·  Um ser que nasceu portador de um pênis ou de uma vagina pode se colocar do lado feminino e escolher investir um objeto sexual que está em um homem, em uma mulher ou até em Deus, caso do gozo místico.
A única condição para que essa combinatória aconteça é que esteja colocada a diferença sexual. Não há sexo entre iguais, é sempre uma alteridade que se busca, aquilo que eu não tenho. Isso leva Quinet (2013) a afirmar que, a rigor, a homossexualidade não existe. Para haver sexo é preciso que alguém se coloque do lado todo fálico e alguém do lado não-todo fálico, para além da diferença anatômica entre os sexos. 


(Texto apresentado no grupo de vivências do Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia  - ENEP, realizado em agosto de 2014 na Universidade Estadual do Ceará)
Referência
QUINET, A. A Escolha do sexo com Freud e Lacan. In As Homossexualidades na Psicanálise. QUINET, A. e COUTINHO JORGE, M. A. Orgs. São Paulo: Segmento Farma, 2013 

sábado, 16 de agosto de 2014

This must be the Place..or not!


 
“Tem alguma coisa errada aqui, eu não sei exatamente o que é, mas tem”. Talvez essa frase, repetida por Cheyenne ao longo do filme, seja o que faz amarração entre o espectador confortavelmente sentado em sua poltrona numa tarde de domingo e a estranheza que perpassa “This must be the Place”. A frase, e a interpretação de Sean Penn – claro! Que apesar de atingir o cômico em diversos pontos do filme, deixa um quê de amargo na boca desde as primeiras cenas.

A história trata de um roqueiro velho e decadente, com traços de Ozzy Osborne, entediado numa vida sem projetos. Mesmo assim, todo dia ele veste o personagem: unhas pintadas de preto, batom vermelho e uma cabeleira negra que insiste em lhe cair sobre os olhos. Patético.
Até que um dia Cheyenne fica sabendo que seu pai (com quem não fala há trinta anos) está muito doente e precisa ir visitá-lo. De família judaica, o cantor fica ainda mais bizarro em meio a judeus ortodoxos com suas longas peiot . Logo ficamos sabendo que ele demorou demais (devido à fobia de avião, ele se deslocou de navio) e, numa das cenas mais emocionantes do filme, Cheyenne encontra o pai jazendo sobre seu leito de morte. A estranheza do momento é total: a decoração tipicamente judaica, a boca vermelha e cheia de rugas do cantor, a comoção da morte e o corpo estendido na cama...Debaixo do lençol, que ele vacilantemente levanta, somo guiados pela câmera até um número gravado na pele do pai morto. Sobrevivente de um campo de concentração, o velho homem dedicara toda sua vida a perseguir um soldado nazista, seu torturador. No entanto, como a morte chegou antes que ele concluísse sua caçada, esta foi repassada à Cheyenne como um legado incontornável.
E assim, o roqueiro infantilizado torna-se um caçador de nazistas! Mesclando emoção e muito humor, acompanhamos toda a falta de jeito e a sensibilidade de Cheyenne em sua jornada rumo à realização do último desejo do pai.
“Tem alguma coisa errada aqui, eu não sei exatamente o que é, mas tem”.  O filme nos captura na sensação de estranheza que essa sentença carreia (ainda mais contrastante quando se pensa na canção do Talking Heads que dá título ao filme). Meu palpite é que isso se deve ao fato de que essa frase, pontualmente repetida ao longo do filme, marcando suas escansões, diz de um sentimento que é velho conhecido de todos nós. Angústia, é como o vernáculo designa essa sensação de que algo não vai bem, de algo que não está em seu lugar, embora não saibamos dar-lhe nome. E aí, embora o filme trate de uma figura a mais oddest  possível, estamos ali todos nós.
Seguimos Cheynne no que ja se converteu num Road Movie, e vemos como a confusão e letargia do cantor vai se transformando em desejo: Um pai morto, uma causa, e uma travessia...
Só crianças não tem vontade de fumar, diz uma personagem a certa altura do filme. Cheyenne não fuma. Até cheirou heroína...cheirou, porque tem medo de agulha. Só posso dizer que no final ele acende um cigarro, o resto você precisa assistir para ver a cara impagável do Sean Penn! 



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Amor só é bom se doer?

Freud dixit : perguntem aos poetas! E em matéria de amor, a língua portuguesa deu ao Brasil um de seus maiores expoentes: Vinícius de Moraes.
 O “poetinha” não só compôs e cantou o amor, como o perseguiu incansavelmente. Vinícius, o homem, chegou a casar-se nove vezes, correndo atrás do “amor total” e caindo fora de cada relação tão logo a chama eterna se apagava. (Mas deixemos de lado a biografia, já que se não se trata de bancar o psicólogo.)
Batida de samba, os versos anunciam:
Amigo sinhôSaravá!
Xangô me mandou lhe dizer:
Se é canto de Ossanha, não vá!
Que muito vai se arrepender.
Pergunte pr'o seu Orixá,
O amor só é bom se doer 
“Amor só é bom se doer”, não é novidade. Rimar amor e dor já é lugar comum. Na verdade, o amor romântico nasce assim: um impedimento, um balcão, dois amantes e uma trova. Cartas de amor, é o que a dor da distância produz. Na poesia romântica, na musica romântica, só se fala das dores de amor, dos desencontros do amor, das impossibilidades do amor.
Nas linhas de “Canto de Ossanha” Vinícius (com a ajuda de Baden Powell que mais tarde entrou pra igreja evangélica e renegou os afro-sambas) fala-nos de um dos perigos a que está exposto o amor: o das ameaças de canto sedutortraidor. Um canto que traz consigo uma promessa, mas que já vem acompanhada de um alerta dearrependimento: “Se é canto de Ossanha, não vá! Que muito vai se arrepender.”
Ossanha é um dos ícones da mitologia afro-brasileira. Conta a lenda que um rei decidiu casar a sua filha mais velha. Mas só concederia sua mão àquele que adivinhasse o nome de suas três filhas. Ossanha aceitou o desafio e subindo em uma árvore, disfarçou-se de pássaro e pôs-se a cantar um canto irresistível, atraindo a atenção das princesas. Disfarçado de pássarobrincou com elas a tarde toda, ganhou sua confiança e descobriu seus nomes. Assimconseguiu casar-se com a pretendida.
Embora não nos diga o porquê do perigo, nos versos vinicianos é o próprio Xangô(autoridade entre os orixás) quem avisa do destino trágico reservado à quem se deixar levar por esse canto. A nos fiarmos na estrutura dos mitos, sabemos, com Ulisses,onde leva essa sedução da voz: as sereias, com seu canto mavioso, encantam os marinheiros e os arrastam para a morte.
A morte, preço a ser pago pela reprodução sexuada entre os seres. A morte, ponto final para todo desejo não advertido, desejo que se deixa seduzir pela crença de que é possível encontrar o objeto que o satisfaça.
Mas o que o mito (re)vela é a divisão estrutural de todo ser falante, que o destina ao paradoxo de, por um lado, ser ali onde não pensa, e por outro, pensar onde não é.Como diz a canção:
O homem que diz dou,
Não dá!
Porque quem dá mesmo.
Não diz!
O homem que diz vou
Não vai!
Porque quando foi,
Já não quis!
O homem que diz sou
Não é!
Porque quem é mesmo é
Não sou!
O homem que diz tou,
Não tá!
Porque ninguém tá quando quer.
É o desejo, que sobrepuja o Eu que diz “sou”, porque ninguém tá quando quer. Não existe afânise do desejo, é antes o sujeito que sucumbe frente à fulguração do desejo.O amor-canto-de-ossanha enganador, engana a dor dessa divisão, fazendo acreditar que é possível integrar essas metades num “amor total”. Amor narcísico, diz Freud, pois não está interessado na alteridade, na diferença, mas apenas em recuperar aquilo que julga parte de si.
No canto de Ossanha, o desejo surge fazendo questão, desacomodando. O sujeito, dividido entre o imperativo e sua recusa, vacila num ritornelo:
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!

Até que o enunciador se afirma por um “Não Vou!” decidido, e justifica:
Não! Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...
Ato, decisão, escolha subjetiva...disso depende um novo amor. Será que a análise anuncia a manhã de um novo amor? Será possível inventar uma rima outra, que não amor e dor?
A análise começa por essa via do canto-promessa de amor, cartas (lettres) de amor se endereçam e desfilam. A diferença só se faz possível porque, nessa repetição, um desejo novo se faz presente. Desejo do analista que, ao fazer semblante de canto, oreduz à pura voz que o sustenta. Voz, marca de gozo, letra (lettreesvaziada do sentido que sustentava a mandinga do Outro traidor.
A partir dessa experiência do vazio, de tomá-lo em sua radicalidade, pode ser que surja manhã de um novo amor”. Novo, não na acepção de “recente”, “recém-chegado” (nesse sentido é bem possível desfilar uma lista de “novos” amores sem nunca sair do mesmo), mas novo no sentido de “inédito”, daquilo que permite que algo se inscreva como diferença.
Em novembro estaremos em Campo Grande para falar de amor, convidamos a todos para que possamos dizer um pouco mais sobre isso.

(Texto escrito como prelúdio para o XV Encontro da Escola de. Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Brasil, a se realizar em Campo Grande em novembro de 2014)