sábado, 5 de abril de 2014

Escrever, diz ela



 Comemorar o centenário de Marguerite Duras em Fortaleza não é propriamente um lugar comum. A escritora, diretora e roteirista não é tão conhecida em terras alencarinas. Além disso, a própria autora não apostava nas propriedades de laço social que poderia advir de sua obra. Como bem lembrou Dominique Fingermann, ela diz em “A Dor”: “Aqueles que vivem de dados gerais nada têm em comum comigo. Ninguém tem nada em comum comigo."
E no entanto, a escrita dessa mulher me afetou de uma maneira indelével, de um modo estranho, que eu ainda não consigo colocar apropriadamente em palavras. Arrebatadora, ela, e nós os arrebatados, disse Lacan.
Talvez o que permita a essa obra ressoar em Paris ou no sertão do Ceará, seja exatamente, não o dado geral, mas o estranho, o violento, o arrebatamento de algo completamente desconhecido, mas que no entanto, esteve sempre ali.
Estes foram alguns dos afetos experimentados na minha primeira leitura de M.D. O livro era “O Amante” (Sua obra mais conhecida e ganhadora do prêmio Goncourt, o prêmio literário mais cobiçado da França). 
A história, versava sobre uma menina vietnamita em uma balsa fazendo a travessia do rio Mekong e de um homem mais velho, um chinês,  que se tornaria o “amante” em questão. Mas já estavam ali presentes também os diversos elementos biográficos(?) que eu encontraria depois em diversas outras obras. Marguerite fala de uma forma totalmente despudorada da loucura da mãe em sua obstinação em possuir terras; da prostituição velada a que ela se submete e que a família acompanha cúmplice, apenas pela possibilidade de comer em um restaurante; do amor incestuoso pelo irmão mais novo que morreria cedo, devastando M.D., e a fúria sádica do irmão mais velho, o delinquente.
Realmente, nenhuma dessas experiências tem nada em comum comigo. E ainda assim (e talvez por isso mesmo) eu me perguntava, porque isso me revira? Não sei responder. Mas isso me pôs a trabalhar, de várias maneiras.

Parte desse “motor de trabalho” foi o que enderecei ao dispositivo de cartel, elemento constitutivo da formação do analista na Escola de Lacan. Recentemente propus um cartel com o tema “Escrita e psicanálise”, que se encontra em funcionamento. Considero que esta proposta é tributária da minha leitura da obra durrassiana, pois a inquietação provocada era o que estava como pano de fundo.
Com frequência, durante as nossas reuniões, seu nome me vem à boca. Mas continuo ainda sem saber exatamente porque. Talvez o cartel (que ainda está no começo) me permita aos poucos elaborar algo sobre isso. E esse texto já é um começo.
Ele parte inicialmente de uma observação feita pelo “mais-um” desse cartel, na nossa primeira reunião. Discutíamos sobre o quão ampla eram as possibilidades de relação entre escrita e psicanalise: análise de uma obra, o estudo de um autor específico,  a busca por conceitos psicanalíticos em uma obra, etc. Mas nesse dia, foi ficando claro que não era nada disso que se tratava. Até que o mais-um formulou explicitamente a nossa pergunta: do que é que se trata quando se escreve? O “de que se trata” não no sentido do conteúdo, mas do processo mesmo de escrever. O que é Escrever? Porque se escreve? Como se escreve? O que acontece com quem escreve? E com o escrito?
Enfim, essas são questões ainda incipientes e que ainda não podem ser completamente respondidas. Ainda movem ao trabalho do cartel. Mas já que o nome de Marguerite Duras esteve desde o início como pano de fundo para a constituição desse cartel,  pensei que essa oportunidade de dizer algo sobre ela, seria excelente para endereçar-lhe essas perguntas e tentar ver o que ela responderia. Convido-os a seguirmos esse rastro por onde, como já disse Freud, o artista antecipa o psicanalista nas respostas. 
***
Comecemos então com o “o que é escrever?”
Temos aqui uma resposta polêmica de M.D., pois para ela, muitos daqueles que são considerados escritores,  não o são, ou não o foram. Sartre, por exemplo, ela diz que não foi escritor. Pode ter sido um cronista, um sociólogo, um moralista, mas não escritor: “O escritor é um selvagem – e Sartre é mais do que um civilizado.”.
Escrever, para Duras, é algo que nasce da possibilidade de tudo por em duvida. (Écrire, p. 21). A escrita, segundo ela, nasce de um momento fatal do qual não se pode escapar, em que tudo é posto em questão: “o casamento, os amigos, os amigos do casal. Menos o filho. O filho não é nunca posto em dúvida. E essa dúvida começa a crescer em torno de si. Trata-se de um encontro consigo onde não há mais nada a perder, só se escreve verdadeiramente quando se está perdido: quando não se tem nada a escrever, a perder, se escreve.”(Écrire, p.22)
Apesar de fatal e terrificante, esse momento em que tudo é posto em questão é o que abre caminho para aquilo que é necessário para que se possa escrever: a solidão.
Para M.D. só é possível escrever na solidão. Não existe escrita a duas mãos. Ela diz que você pode compor a duas mãos, cantar a duas vozes, por exemplo. Mas escrever jamais. Então é uma solidão necessária,  mas terrificante.
Essa solidão é tributária desse “questionar tudo” do qual não se pode fugir. É dessa dúvida, nasce a solidão. Ela diz inclusive que muita gente fugiria diante do horror disso, e é por isso que não temos tantos escritores assim.
Então é como se escrever fosse esse se descolar do que é conhecido, colocar em dúvida tudo que já se sabe, numa travessia rumo ao desconhecido. Essa é outra indicação dela sobre o que é a escrita: Não se escreve sobre o que já se sabe.  
“A escrita é o desconhecido. Antes de escrever não se sabe nada do que vai ser escrito. É o desconhecido de si, de sua cabeça, de seu corpo. Escrever não é nem mesmo uma reflexão. Escrever é uma espécie de faculdade que se tem ao lado de sua pessoa, paralela a ela mesma uma outra pessoa que aparece e avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que algumas vezes, por sua própria criação, está em risco de perder a vida. Se soubéssemos algo do que vai ser escrito antes de fazê-lo, nós não escreveríamos.” (Écrire,p.52)
Essa última frase, foi de Lacan que ela a recebeu. Lacan disse sobre ela: “Ela não deve saber sobre o quê ela escreve. Porque ela se perderia. E isso seria a catástrofe”. Duras ficou aturdida. E fez disso “uma espécie de “identidade de princípio, de um “direito de dizer” totalmente ignorado das mulheres.”

Agora, podemos perguntar sobre quais as indicações de MD sobre o  “Como escrever?”
Então, em primeiro lugar, na solidão. Em segundo lugar, ela diz: com a força do corpo. “É preciso ser mais forte que si mesmo para poder abordar a escritura, é preciso ser mais forte que aquilo que vamos escrever. É uma coisa engraçada, sim. Não é apenas a escrita, o escrito. É o grito das feras da noite, os gritos de todos, os meus e os seus, o grito dos cães. É a vulgaridade massiva, desesperadora, da sociedade. A dor, é também Cristo e Moisés, e os faraós e todos os judeus, e todas as crianças judias, é também o mais violento da bondade.” (Ècrire, p.24)
Enfim, perguntemos agora à Duras: porque escrever?
Para escapar da morte, diz ela. “A solidão é isso, ou o livro, ou a morte”. “Ser escritor é se encontrar diante de um horror onde só a escrita poderá salvá-lo”.
Temos então em M.D. esse conjunto de elementos sobre o que é a escrita e o processo de escrever: a vida posta em questão; a dor; a solidão; a busca por algo que possa salvá-la da morte; a necessidade de nisso colocar o corpo e, eu gostaria de adicionar, a possibilidade de devir outra coisa a partir do escrito. Por exemplo, na entrevista que ela concedeu a Bernard Pivot em 1984 para o programa de TV Apostrophe, ela diz que com o livro “o amante” foi que ela conseguiu perdoar o irmão. E noutro momento quando ela fala da casa que conseguiu comprar com a venda de “barragem contra o pacifico”, obra em que ousou falar da mãe.
Veremos agora o que esses elementos podem nos ajudar a pensar a questão da escrita na psicanálise.
Escrita em Duras e Psicanálise: Pontos de interseção
Lacan aproximou de alguma maneira a função do escrito e aquilo que se processa em uma análise. No Seminário 18, De um discurso que não fosse do semblante, por exemplo, ele diz que “a diz-mansão da verdade em sua morada é algo que só se faz pelo escrito na medida em que é somente a partir do escrito que se constitui a lógica.”
Como poderíamos entender essa frase de Lacan?

Se remetermo-nos a experiência, o que é fazer análise? É antes de tudo falar. Falar livremente, disse Freud, associando. Porque topamos, nós e cada analisante que inicia seu percurso, essa proposta freudiana? Penso que entrar verdadeiramente nisso só é possível quando, como disse Duras, algo é posto em dúvida. Não só os amigos, os amores... mas aquilo que dava sustentação a todas essas relações. Não é quando surge um sintoma que alguém busca verdadeiramente uma análise. Mas quando o “sujeito vê soçobrar a segurança que ele extraía dessa fantasia em que se constitui para cada um sua janela sobre o real”. (Lacan, sem 13 apud Quinet). Nessa frase Lacan está tratando da travessia da fantasia que conduz ao final de uma análise. Mas penso podermos dizer que isto já está colocado desde o início. Sem esse “por em questão” como diz Duras, não há escrita, não há análise.
Daí, a solidão. Também não se faz análise à dois. Primeiro porque a análise promove uma descolagem do outro imaginário, apontando para o impossível de fazermos dois com ele. Depois porque, embora estejam ali presentes, analisante e analista, não se trata de uma relação intersubjetiva. O analista não está ali como pessoa, nem mesmo como sujeito. Ele está ali como semblante do resto que sobrou da divisão constitutiva do sujeito, divisão estrutural e inevitável para todo ser falante. Como disse Dominique Fingermann certa vez aqui em Fortaleza, o amor de transferência diz “dois”. O analista em seu ato, diz “um”.
Então, topamos essa solidão e nela um gozo permitido: tudo falar, livremente, associar. Constituímos assim a diz-mansão ou a mansão dos ditos[1].
Podemos dizer que “interrogar a diz-mansão da verdade” é a função de uma análise. Muitos ditos, que em sua rede de associações começam a remeter a um dizer. A verdade teria a ver com isso, com o dizer que funda todos esses ditos. Nesse sentido, interrogar a verdade seria extrair um dizer, ou seja uma lógica, desses ditos. E isso só seria possível a partir do escrito. Teríamos então uma escrita da análise. Ou, como diz Luciano Elia, num dos primeiros textos que lemos no nosso cartel da Escrita e Psicanalise:
“A função da escrita permite a interrogação sobre a verdade, tornando efetivas e permanentes as consequências do dizer do sujeito em análise (dizer que, fora da escrita, pode esvanescer-se em sua contumaz paixão pela ignorância, pelo não saber) e, como o que permite escrever o gozo em um novo corpo, o corpo de letras que substitui o corpo do sintoma. O corpo do neurótico, mal tratado pelo sintoma, pode ser reescrito em um corpo de letras: o gozo, escrito nesse corpo, não é o mesmo gozo de que o sujeito padecia, no tempo em que as letras que poderiam escrevê-lo estavam para ele perdidas.” (Elia, p.135)

Vemos agora surgir aí a terceira intercessão entre a escrita durassiana e a análise: é preciso comparecer com o corpo. Como disse Freud, “́impossível liquidar alguém in absentia ou in effigie”, sendo que o alguém em questão não é certamente o analisante, mas o gozo mortífero da repetição do qual o sujeito padece.
Mas aqui, acho importante pontuar pelo menos uma diferença radical entre a escrita segundo Duras e o processo de análise. É que, pela operação do discurso do analista, é possível, pelo menos em certa medida, evitar que a passagem ao ato leve o sujeito às raias do suicídio ou do alcoolismo desenfreado. O sofrimento de Duras com o Álcool foi retratado no livro de Yann Andréa Steiner (com quem M.D. formou um improvável casal: ele, um jovem homossexual. Ela, uma mulher já deidade avançada). Apesar de ter tido problemas com álcool ao longo de boa parte de sua vida, o livro M.D. retrata um período em que ela esteve á beira da morte, desacordada por vários meses. Na verdade, na entrevista concedida ao programa Apostrophe, ao ser perguntada se passou por uma ressurreição, ela diz que não e dá a entender que morreu mesmo ali. Enfim, acredito que o desejo do analista pode conduzir as coisas sem carrear tanto estrago.  
Certamente, há diversos outros elementos que afastam a escrita do artista, da escrita numa análise. A possibilidade mesmo de um final onde ocorra essa reescrita do corpo, não acho que seja plenamente viável através da arte. Penso aqui em Ernest Hemingway que, ao ser perguntado se fazia análise, respondeu que seu analista era a sua Corona portátil, número três (referindo-se à sua maquina de escrever) mas que,  posteriormente suicidou-se com a mesma arma com que o pai havia se matado anos antes e que sua mãe o enviara pelo correio. Todos recebemos os desígnio do Outro de alguma maneira, alguns de forma mais trágica e direta...
Então, acredito que seja a isso que Lacan se refere quando diz que o analista seja o único parceiro com alguma chance de responder. Responder fora da repetição e seu gozo mortífero.
 No entanto, a despeito das diferenças, mais uma vez podemos dizer que Freud acertou em cheio quando disse que o artista sempre precede o analista.

(Texto apresentado no Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza, por ocasião da comemoração do centenário de Marguerite Duras)




[1] Com diz-mansão Lacan faz um jogo de significantes que remete à dimensão da verdade, mas também morada da verdade, lá onde moram os ditos.

domingo, 15 de setembro de 2013

As Aventuras de Lacan com Saussure no País do Inconsciente



“Insetos não me agradam”, Alice explicou, “porque tenho bastante medo deles... pelo menos dos grandes. Mas posso lhe dizer os nomes de alguns.”
“Claro que eles atendem pelo nome, não é?” o Mosquito comentou irrefletidamente.
“Nunca soube que o fizessem.”
“De que serve eles terem nomes”, disse o Mosquito, “se não atendem por eles?”
“Não servem de nada para eles”, disse Alice, “mas é útil para as pessoas que lhes dão nomes, suponho. Senão, para que afinal as coisas têm nome?” 
(Alice Através do Espelho) 


É com enorme satisfação que recebo o convite para falar num encontro histórico que homenageia os 100 anos de morte de Ferdinand de Saussure, principalmente pela possibilidade de estabelecer um diálogo com pessoas de um campo diferente do meu. Acredito que isso é sempre muito rico, pois coloca em jogo uma heterogeneidade que nos permite antever algo de nossas próprias costas, assim como voltar para o lugar de onde viemos um pouco mais arejados pelo ar da diferença. Fugimos assim de nos acomodarmos a um lugar confortável, onde achamos que todos pensam igual, mas que nos lança nos riscos dos sectarismos fundamentalistas, hoje estão mais vivos que nunca . Agradeço portanto ao Grupo de Estudos Bakhtinianos do Ceará (GEBACE) e Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Pragmática (NIPRA) na pessoa do professor João Batista Gonçalves.
O lugar de onde venho falar aqui é o da psicanálise e isso já demarca uma especificidade do que vou falar e que, por usa, vez, demarca também a especificidade da apropriação que Lacan faz da linguística sassureana. Várias críticas foram feitas à maneira completamente subversiva com que Lacan se apropriou da linguística estruturalista, mas elas só se colocam na medida em que se desconhece que há uma distinção entre os campos que estão aí em jogo: enquanto que o objeto da linguística é o dos desdobramentos da linguagem humana, a psicanálise tem por objeto o inconsciente.
A linguagem que lhe interessa, portanto, é, nas palavras de Lacan, a linguagem do desejo. E se Lacan se apropria de alguns fundamentos da linguística, é na medida em que ela vai fornecer as ferramentas necessárias para empreender o que ele chamou de “retorno à Freud”. Ocorre que, na época em que Lacan se aproxima da psicanálise, havia prosperado uma certa leitura da obra freudiana que tendia e enfatizava as relações do ego com a realidade, resvalando para uma abordagem claramente adaptativa. Os conceitos mais subversivos apontados por Freud e que fizeram da psicanálise um campo do saber que rompe com a medicina e com a psicologia haviam sido completamente desprezados. Assim, o conceito de pulsão, as elaborações sobre a sexualidade infantil e até o próprio conceito de inconsciente perdem espaço para discussões acerca dos mecanismos de defesa do ego, da ênfase na chamada “parte sadia da personalidade” e da intervenção do analista a partir de seu próprio Eu, considerado mais forte que o do analisando. É contra esse estado de coisas que Lacan vai se colocar ao tomar a linguística estruturalista como lente para reler a obra de Freud. Ao final dessa fala pretendo leva-los a entrever o quão longe essa empreitada o levou, para além dos limites da estrutura, inclusive.
Intitulei minha fala nesse evento de “As Aventuras de Lacan com Saussure no País do Inconsciente”. Inicialmente a inspiração em Carroll veio de maneira despretensiosa, apenas a partir da associação livre que minha releitura do texto de Freud sobre o inconsciente foi provocando. No entanto, como toda associação livre não é tão livre assim, acabei me defrontando com um texto de Lacan intitulado “Homenagem a Lewis Carroll” e que, vim saber depois, foi transcrito a partir de uma fala proferida por ele numa intervenção radiofônica transmitida pela France Culture em 31 de Dezembro de 1966 num programa que marcava a comemoração dos cem anos de publicação de “Alice no país das Maravilhas”. É curioso também que esse programa foi reprisado por ocasião dos cem anos de morte de Lewis Carroll, em 1998, não sem que antes tenha sido cortada exatamente a intervenção de Lacan. Pego essas informações de um texto de autoria de Sophie Marret (2003) onde a mesma também afirma que os críticos da obra carrolliana até hoje ignoraram completamente essa intervenção de Lacan sobre o autor, provavelmente por centrarem sua teses na dimensão dos significados da obra, enquanto que o psicanalista francês se interessou pelo que havia aí do significante em articulação com o real impossível.
Sendo assim, achei ainda mais justificada a referência à Carroll na minha proposta, tendo em vista que mais uma vez estamos diante de um centenário, dessa vez homenageando aquele que deu à Lacan a possibilidade de entrever essa dimensão simbólica e reinventar a psicanálise. Além disso, estamos diante de um público voltado às letras e à literatura e isso me dá a chance de também homenagear Lacan, reintroduzindo de alguma maneira esse seu texto “esquecido”. 
Freud e Saussure foram contemporâneos e, embora não haja registros de que tenham entrado em contato com as teses um do outro, estavam trabalhando em torno de algo que tinha muito em comum. Ambos situam-se como homens do século XIX, mas com um espírito muito mais projetado para o século XX. Ambos influenciariam sobremaneira tudo o que se vai formular sobre o homem no século vindouro. O ponto em comum entre esses dois homens vai ser, cada um a seu modo, o interesse pela linguagem.
Sigmund Freud inicia seus trabalhos como neurologista. Mais tarde, em parceria com Josef Breuer, vai se interessar pelo estudo das manifestações histéricas à partir do método da hipnose. As pacientes, frequentemente do sexo feminino, apresentavam sintomas para os quais não se encontravam nenhuma base orgânica. Os médicos vienenses descobriram que, ao falar sob hipnose de situações traumáticas relacionadas de alguma forma a seus sintomas, essas pacientes obtinham uma melhora significativa.
 Freud viu aí o nascimento de algo novo para a medicina, mas não se deu por satisfeito com o novo método de tratamento. Primeiro, porque a remissão  dos sintomas era temporária. Era como se, ao acordarem, as mulheres não conseguissem integrar na consciência o que tinham falado sob hipnose. Segundo por que, dizem as más línguas, Freud era um péssimo hipnotizador. Em meio a essas dificuldades, ele começa a tentar outras técnicas para fazer a paciente falar em estado de vigília. Tenta operar a partir da sugestão dizendo coisas como: “quando eu retirar a mão de sua testa você vai falar sobre..”. 
Até que um dia ele encontra uma paciente “impaciente” que lhe diz: “Cale a boca e me deixe falar!” A genialidade de Freud foi que ele, não só se calou, como ouviu o que ela tinha a dizer. Nascia aí a “Taking Cure” ou cura pela fala, que esta paciente definia como “limpeza da chaminé”.
Pela fala alguma coisa se limpava, desentupia, caía. A proposta de método adotada por Freud á partir daí (e adotada pela psicanálise até hoje) foi o que ele chamou de “associação livre”.  O paciente é convidado a dizer tudo que lhe vier à cabeça naquele momento sem filtro moral ou censura de qualquer ordem.
Freud chega a apontar que para um leigo parece até que se trata de uma mágica! Palavras, palavras, palavras...como diz o personagem shakesperiano, como elas podem ter o poder de intervir sobre o corpo, varrendo sintomas?
Com Lacan, em seu diálogo com Saussure e outros autores estruturalistas como Levi-Strauss, encontramos as bases para ler em Freud uma explicação lógica para o funcionamento do inconsciente, a formação do sintoma e da incidência da análise sobre este último, que se afasta de qualquer espécie de magia ou misticismo. Falar incide sobre o sintoma porque, como formação do inconsciente, este é feito da mesma materialidade que a fala[2]. Essa materialidade é, para Lacan, aquela do significante:
"Nossa doutrina do significante está fundada no fato de que o inconsciente tem a estrutura radical da linguagem, que um material que aí está deve jogar de acordo com leis que são aquelas descobertas pelo estudo das línguas positivas, das línguas que são ou que foram efetivamente faladas." (Direção do tratamento, Écrits, p. 594)
Daí a formulação do seu famoso aforisma: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Ser estruturado como uma linguagem quer dizer que o inconsciente não é apenas um depósito inerte de memórias esquecidas. Trata-se, na verdade, de uma outra razão, organizada como um sistema, regida por leis próprias que são aquelas do significante e que tem seu paradigma nos mecanismos da metáfora e da metonímia.
No texto “A instância da letra no Inconsciente ou a Razão desde Freud” encontramos explanada a apropriação que Lacan faz da linguística saussureana, a partir do signo linguístico. Nesse texto, Lacan rende homenagens ao mestre genebrino, mas sua homenagem já é quase um assassinato[3], já que ele atribui à Saussure uma formulação do algoritmo do signo linguístico que não se encontra, como ele mesmo diz, em nenhuma das diversas aulas do “Curso de linguística Geral”: “significante sobre significado, correspondendo o “sobre” à barra que separa às duas etapas.” (Instância da letra, p.500) 
Então, se estão lembrados o signo saussureano é composto inversamente pelo significado (conceito) sobre o significante (imagem acústica), onde eles se encontram intimamente unidos e um reclama o outro. Além disso, Saussure atribui ao signo as características da arbitrariedade e da linearidade. A primeira afirma que a escolha do significante é imotivada, não tem com o mesmo nenhum laço natural na realidade. A segunda, a característica da linearidade, afirma que os significantes se dispõem na linha do tempo, seus elementos se apresentam um após o outro, formando uma cadeia.  Lacan vai também vai introduzir modificações e variações na maneira de compreender estes postulados do signo linguístico em Saussure.
Mas então, o que autoriza o psicanalista a se apropriar da teoria de um autor tão influente como Saussure, subvertendo-a desta maneira? Será apenas incoerência, anarquismo teórico, uma espécie de vale-tudo ou um simples descaso pelas formulações do autor?
No meu ponto de vista não se trata de nada disso. Ocorre que como ressaltamos anteriormente, estamos adentrando num outro terreno. Enquanto que a linguística estruturalista lida com as relações humanas no plano da consciência (onde prevalecem o princípio de realidade, com as regras lógicas que exigem ao pensamento se organizar em torno de significados), o que vai interessar à Lacan está relacionado à uma outra cena, aquela que Freud identificou como o inconsciente. Trata-se de dois registros diferentes, duas “linguagens” que, apesar de operarem com os mesmos elementos, seguem regras diferentes. Como diz Alice, há toda uma lógica diferente para além do espelho, onde as coisas mudam de lugar e o Jaberwocky (ou Pargarávio, como foi traduzido no português), apesar de não ter sentido algum, produz um efeito de significação:
Solumbrava, e os lubriciosos touvos
Em vertigiros persondavam as verdentes;
Trisciturnos calavam-se os gaiolouvos
E os porverdidos estriguilavam fientes.”
Efeito este que aponta para um impossível, ou na fala de Alice: “De todo modo, alguém matou alguma coisa: isto está claro, pelo menos.”
Entre a linguagem e a morte, desde Freud temos que considerar que há, de saída, uma divisão estrutural do sujeito, acarretada pela entrada deste na cultura, ou em termos lacanianos, pela entrada na linguagem. Este sujeito, não existe desde o momento em que nascemos. Ele se estrutura  incialmente se alienando ao outro materno, aos seus cuidados, seu toque e suas palavras.
Antes mesmo de nascer, todos nós já temos um lugar reservado na linguagem que nos antecede. São histórias que se contam de geração em geração, o nome que os pais escolhem e os planejamentos que esses fazem para o futuro filho. Tudo isso nos antecede e delimita, de certa forma, o mundo no qual iremos chegar. Além disso, chegamos para esta jornada ainda muito despreparados, desprovidos das ferramentas que precisamos para sobreviver. Em meio a nossa luta pela sobrevivência, é nesse outro que vamos buscar os significantes com que nomeamos nossa fome, nossa sede, nosso medo e... nosso desejo. Sendo assim, podemos afirmar com Lacan, que nascemos alienados a tudo isto que nos precede, a isto que ele deu o nome de ‘Outro’.
O Outro, com letra maiúscula diz respeito à linguagem, ao lugar onde existem os significantes dos quais nos apropriamos para nomear o mundo e as nossas experiências. Escrevemos “Outro” com letra maiúscula para diferenciar do “outro”, pessoas com as quais nos relacionamos, são os nosso pares, são aqueles com quem nos identificamos pois são como nós.
É deste suposto grande Outro que a criança recebe, desde antes de seu nascimento, o seu nome, o nome das coisas, o nome do que sente. O bebê que chora não sabe nomear o que sente, quem nomeia é este Outro, que tudo sabe. Sem essa referência ao Outro da linguagem seríamos como Alice ao entrar no bosque “onde as coisas não tem nome”:
“Esse deve ser o bosque disse pensativamente, em que as coisas não tem nomes. O que vai ser do meu nome quando eu entrar nele?” (p. 199)
O desejo de ter um filho (ou de qualquer outra coisa que venha nesse lugar), vem antes mesmo desta criança existir, junto com as expectativas, da escolha do nome, da profissão que a criança terá, de como ela será criada, são desejos e significantes que dão forma ao bebê.
Porém, quem quer que tenha acolhido esta criança em seu desejo, precisa estar voltada também para algo que se situe além do bebê, apontando que essa relação mãe e filho não basta para satisfazê-la. Ao apontar para o filho que tem outros interesses, a mãe se situa também como mulher e, como tal, um ser desejante. A criança percebe que a este Outro também falta algo, que ele não pode tudo, não vê tudo e não pode nomear tudo. Nessas idas e vindas o sujeito percebe que a mãe não é completa, que a ela também faltam coisas que busca alcançar. Esse ponto fraco aparece justamente porque o Outro também tem que recorrer à linguagem, impossível de dizer tudo.
Nesse lacuna que se abre, marcada pela falta no Outro é que o sujeito vai passar a se perguntar sobre o desejo: o que esse outro quer? E mais, o que ele quer de mim? É frente a esse pergunta feita ao Outro que o sujeito vai se escrever como resposta.
"Quem é você?", perguntou a Lagarta.
Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou, bastante timidamente: "Eu - eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento - pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então.
"O que você quer dizer com isso?", perguntou a Lagarta severamente. "Explique-se!"
"Eu não posso explicar-me, eu receio, Senhora", respondeu Alice, "porque eu não sou eu mesma, vê?"
.
Existem maneiras diversas de responder a esse encontro com o desejo do Outro e é essa resposta que vai determinar o modo como esse sujeito vai se estruturar. Na estrutura neurótica esse encontro é recalcado, com a consequente divisão do sujeito[4]. Segundo Quinet, Freud formula a subjetividade humana em conflito, a divisão do sujeito entre o que ele quer inconscientemente e o que ele conscientemente não quer ou ignora que quer. (Quinet, p. 23)
Nesse encontro com a falta no Outro, emerge algo que não pode ser tolerado pela consciência. O conceito freudiano de recalque vai se fundamentar na constatação de que, nesse momento, há uma separação entre a “ideia” e aquilo que a “representa”. Esses são termos freudianos! Estão publicados num texto de 1915. Se aproximarmos aí ideia, conceito, significado de um lado e representante, significante, de outro, vemos ai o quanto ele e Saussure estavam de alguma maneira próximos, embora nem se conhecessem.  
Então, o que que acontece no recalque? Ocorre a tentativa de impedir que essa ideia insuportável se torne consciente. Há portanto a instauração de uma barra quase intransponível entre significante e significado. Daí uma primeira consideração sobre a apropriação do signo linguístico por Lacan, que é o reforçamento da barra que compõe o algoritmo saussureano, atribuindo à mesma um caráter de resistência à significação.
“Dizemos então que se acha em estado de “inconsciente”, e podemos oferecer boas provas de que também inconscientemente ela pode produzir efeitos, inclusive aqueles que afinal atingem a consciência”. (Freud, o Inconsciente, 1915)
Então, o material recalcado, tornado inconsciente, não é inerte. Ele opera, produzindo efeitos com características diferentes daquelas que encontramos na consciência. Que características são essas? Vou retomar aqui um trecho do texto “O Inconsciente”:
“O âmago do Ics consiste de representantes pulsionais, que querem descarregar seu investimento, de impulsos de desejo, portanto. Esses impulsos pulsionais são coordenados entre si, coexistem sem influência mútua, não contradizem uns aos outros. (...)
Nesse sistema não há negação, não há dúvida nem graus de certeza. Tudo isso é trazido apenas pelo trabalho da censura entre Ics e Pcs. A negação é um substituto da repressão em nível mais alto. No Ics existem apenas conteúdos mais ou menos fortemente investidos.
Há uma mobilidade bem maior das intensidades de investimento. Pelo processo de deslocamento uma ideia pode ceder a outra todo o seu montante de investimento, pelo de condensação pode acolher todo o investimento de várias outras. Propus enxergar nesses dois processos indícios do assim chamado processo psíquico primário. (...)
Os processos do sistema Ics são atemporais, isto é, não são ordenados temporalmente, não são alterados pela passagem do tempo, não têm relação nenhuma com o tempo. (...)
Os processos do Ics tampouco levam em consideração a realidade. São sujeitos ao princípio do prazer; seu destino depende apenas de sua intensidade e de cumprirem ou não as exigências da regulação prazer-desprazer.
Vamos resumir: ausência de contradição, processo primário (mobilidade dos investimentos), atemporalidade e substituição da realidade externa pela psíquica são as características que podemos esperar encontrar nos processos do sistema Ics.”
Tracemos agora um comparativo entre as características do inconsciente tal como apresentadas por Freud neste texto e as modificações introduzidas por Lacan no signo linguístico.
Em primeiro lugar, percebemos que no plano inconsciente o que temos são representantes pulsionais que querem descarregar seu investimento, impulsos de desejo, Freud vai dizer. Com Lacan podemos dizer que estamos no plano da articulação de significantes e a exigência de satisfação pulsional. Nesse ponto, vou ter que me arriscar a jogar - de maneira um pouco imprudente - um conceito freudiano fundamental que é o conceito de pulsão. A pulsão como conceito limite entre o psíquico e o somático é o que, segundo Freud, se diferencia do instinto dos animais, por ser sempre parcial e por ser uma força constante em busca de satisfação. Embora nenhum objeto possa realmente satisfazê-la, no sentido de anulá-la, a pulsão não cessa de pressionar por satisfação. Então, no recalque, não é pelo fato de pertencer à dimensão inconsciente, que se resolve a pressão por satisfação de uma ideia investida libidinalmente. Ela vai continuar buscando formas de se satisfazer. E, o inconsciente, é uma espécie de “País das Maravilhas” onde todo tipo de combinação é possível. Por mais absurdo que possa parecer uma lagarta falando, um sorriso sem gato, um coelho apressado... O absurdo e propriamente o reino do inconsciente, assim como o demonstram nossos sonhos.
Além disso, no inconsciente, não se trata de jogos de imagens. Embora os sonhos esteja repletos de formações imagéticas, é no relato do sonhador, ou seja, na sua articulação linguageira, que Freud vai buscar o material para a interpretação analítica. 
E porque? Porque no inconsciente a primazia é do significante, tomado em jogos de combinações malucas de forma a permitir a satisfação pulsional. Daí porque Lacan vai inverter o algoritmo, colocando o significante acima da barra.
“Você pode observar uma borboleteiga (butterfly). Suas asas são fatias finas de pão com manteiga, o corpo é de casca de pão, a cabeça é um torrão de açúcar. “
“E o que ela come?”
“Chá fraco com creme.”
Assim como em nossos sonhos, elementos podem se combinar criando seres estranhos, a partir, não de seu significado, um inseto, colorido, que voa, por exemplo, mas a partir de associações significantes, manteiga, pão, chá, creme.
Dissemos ainda que Lacan também vai introduzir variações nas características da arbitrariedade e da linearidade do signo. Então vejamos. Quanto à arbitrariedade, ele radicaliza. Para Lacan,  precisamos nos livrar da ilusão de que o significante atende à função de representar o significado, ou melhor dizendo, de que o significante tem que responder por sua existência a título de uma significação qualquer.  Daí sua afirmação no texto intitulado “A Instância da letra no Inconsciente, ou a razão desde Freud” que “nenhuma significação se sustenta a não ser pela remissão a uma outra significação” (p.501). Nesse texto ele toma o exemplo clássico do algoritmo saussureano onde temos o conceito de árvore com sua respectiva imagem acústica. Essa não é necessariamente a ideia que criamos ao ouvir o significante árvore. Basta, como ele diz, plantar essa árvore na locução “trepar na árvore”, para jogar aí um toque de malícia que deixa entrever a dimensão do sexual para a qual aponta o inconsciente.  
Quanto a linearidade do significante, Lacan também vai pontuar diferenças em relação à afirmação de Saussure. Mais uma vez em função da particularidade do inconsciente. Para Saussure, a característica da linearidade se resume no fato de que os significantes “são diferentes entre si, limitados, independentes, sem variações. Ou pronunciamos ‘faca” ou pronunciamos ‘vaca’. Não existe um meio-termo entre /f/ e /v/, que são, deste modo unidades discretas, isto é, separáveis, descontínuas.” Essas unidades discretas tem que ser emitidas sucessivamente, não são co-existentes ou simultâneas. “Ao contrário, são sucessivas e, por isso, só podemos emitir um fonema de cada vez, em linha, ou melhor, linearmente” (Carvalho, 2003)
Para Lacan, a linearidade é necessária a constituição da cadeia do discurso, como afirma Saussure, no entanto, ela não é suficiente. Certamente ela se impõe na medida em que o discurso é ordenado no tempo,
“mas basta escutar a poesia, o que sem dúvida aconteceu com F. De Saussure, para que nela se faça ouvir uma polifonia e para que todo o discurso revele alinhar-se nas diversas pautas de uma partitura.”(Lacan, p. 507)
 E no inconsciente, uma nota que está numa linha qualquer da partitura não hesita em salta para outra linha, caso isso seja conveniente à dança da pulsão. Além disso, a pontuação dessa cadeia significante vai abrir possibilidades de encadeamentos outras:
“Não há cadeia significante, com efeito, que não sustente, como que apenso na pontuação de cada uma de sua unidades, tudo que se articula de contextos atestados na vertical, por assim dizer, deste ponto” (Lacan).
Quando um desses significantes consegue transpor a barra, temos aí um efeito de metáfora ou de metonímia, que vão caracterizar as leis de funcionamento do inconsciente.
Como afirmamos anteriormente, Freud já havia identificado que o inconsciente não segue as mesmas leis que  pensamento consciente. Mas, para além disso, ele descobre que os elementos significantes seguem ali outras leis, aquelas que ele chamou de condensação e deslocamento. Essas leis operam para fazer funcionar a possibilidade de investimento pulsional à despeito da barreira do recalque. É como se os elementos constitutivos das cadeias inconscientes precisassem se “disfarçar” para se manifestarem. Assim, o investimento de um significante passa facilmente a outro, seja por assonância, por ambiguidade ou contiguidade temporal, mas em qualquer um dos casos, sem nenhuma consideração pelo significado. E como então podemos reconhecer esse funcionamento do inconsciente? Freud afirma que podemos reconhece-lo em qualquer uma das chamadas formações do inconsciente: sonhos, chistes, atos falhos e sintomas.
No sonho, por exemplo, como a temporalidade não incide, temos o significante funcionando não pelo que possa significar, mas pelas possibilidades de condensação e deslocamento (ou metáfora e metonímia, como vai chamar Lacan, apontando para o caráter linguageiro desses mecanismos). A condensação ou metáfora ocorre quando
“duas representações dos pensamentos oníricos que tenham algo em comum, algum ponto de contato, são substituídas no conteúdo do sonho por uma representação composta, na qual um núcleo relativamente nítido retrata o que elas têm em comum, enquanto alguns detalhes colaterais indistintos correspondem aos aspectos em que elas diferem entre si.” (Freud, Interpretação dos sonhos).
É assim que, em um sonho podemos juntar características de duas pessoas diferentes que formam uma só. Na conversa de Alice com Humpty-Dumpty temos a fantástica criação das “palavras valise” que, como o próprio Humpty explica, é quando há dois sentidos embalados numa palavra só:
Solumbrava, e os lubriciosos touvos
Em vertigiros persondavam as verdentes;
Trisciturnos calvam-se os gaiolouvos
E os poverdidos estriguilavam fientes.”

Solumbrava: é aquela hora em que o sol vai baixando e as sombras se alongam.
Lubriciosos: significa lúbricos, que é a mesma coisa que escorregadios e operosos, ágeis.
Touvos: são parecidos com texugos...têm um pouco de lagartos...e lembram muito um saca-rolha.
 Vertigiro: é o giro extremamente rápido de uma verruma.
Persondar é perfurar prescutando
Verdentes: canteiros em volta dos relógios de sol
Trisciturno: triste, taciturno e noturnal (mais uma palavra-valise pra você)
Porverdidos: porcos verde que perderam  caminho de casa.
Estriguilar: é algo entre estridular, guinchar, cricrilar, estrilar e assobiar, com uma espécie de espirro no meio.
Claro que quando o Humpty decifra o sentido de uma palavra-valise, forçando-a a entrar na diacronia[5], faz com que ela perca muitos outros que poderiam advir na sincronia[6].
No deslocamento ou metonímia, o sonho pode tomar um detalhe de uma pessoa (um bigode ou a cor dos olhos, por exemplo, para remeter à outra). Trata-se do mecanismo que transfere as intensidades ligadas às representações de uma representação para outra.
Na conversa de Alice com a Tartaruga Falsa sobre a escola, por exemplo, por metonímia o nome das disciplinas cursadas se deslocam por outras relações que se estabelecem com o significante tartaruga:
“Não pude me dar ao luxo de estudar essa matéria”, disse a tartaruga Falsa com um sorriso “Só fiz o curso regular”
“E como era”, quis saber Alice.
“Lentura e Estrita, é claro, pra começar” respondeu a Tartaruga Falsa. “E depois os  diferentes ramos da Aritmética: Ambição, Subversão, Desemblezação e Distração”
“E o que mais tinham que estudar?” Disse Alice.
“Bem, tínhamos Histeria”, respondeu a Tartaruga Falsa, contando as matérias nas patas, “Histeria Antiga e moderna, com Marografia, depois Desdém...” (p. 113 e 114)

No sintoma também encontramos a metáfora que cifra uma mensagem que não poderia ser dita claramente tendo em vista que se trata de algo insuportável para a consciência. Assim, uma parte do corpo pode, na histeria, ser tomada como significante e vir na cadeia representando algo que não pôde ser colocado em palavras. (punhalada no coração, ter que engolir isso, não poder se manter em pé). Ou no caso da Neurose Obsessiva, onde o sintoma se forma a partir de uma ideia o mais distante possível na ideia recalcada, mas ainda pertencendo a mesma cadeia associativa.
O que está em jogo nos mecanismos da formação dos sintomas é uma evitação do desejo, tomado como impossível, pelo obsessivo, ou como insatisfeito, pela histérica, de qualquer maneira apontando para uma impotência do neurótico em alcançar o objeto que poderia satisfazê-lo. Ocorre que o de que se trata no desejo é da própria impossibilidade de encontrar um objeto que pudesse suturá-lo. O Desejo, desde Freud, é um vetor que aponta para uma experiência anterior, que só se inscreve como traço de experiência. O desejo, portanto, é metonímico, é sempre desejo de outra coisa. Seu objeto, por tanto, é perdido, e o que temos dele é apenas o rastro deixado pelas inscrições dos significantes. A estrutura, portanto não é completa, ela é perpassada por um furo, aquele que poderia responder elo desejo.
Voltamos então ao começo do deste texto, onde dissemos que a linguagem que interessa à Lacan é aquela do desejo. Ou seja, aquela com que cada sujeito vai tentar se fundar como tal, na sua relação com o vazio com que se depara na estrutura do Outro, com a impossibilidade de dizer tudo da linguagem e com o como se introduz para cada um sua relação com o real, com aquilo que fica fora da linguagem.
Finalmente, para nos despedirmos de Carroll, podemos nos perguntar sobre que real estava em jogo quando ele produziu Alice? Lacan nos adverte que não devemos buscar essa resposta na sua inclinação pela menina impúbere. “Mas na sua obra enquanto lugar eleito para demonstrar a verdadeira natureza da sublimação na obra de arte. Recuperação de um certo “objeto”... objeto impossível!




[1] Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Professora da UECE.
[2] Há aqui e em outras partes do texto lacaniano, uma utlização dos termos linguagem, fala e língua  como quase sinônimos que certamente, não vai passar despercebida a um publico de linguistas. Esse é inclusive um dos pontos e crítica à apropriação lacaniana desta disciplina. Mas como não é o foco deste texto fazer as comparações entre as aproximações e distanciamentos de Lacan com a linguistica saussureana, sugiro a leitura do texto A abertura da estrutura: limite da aplicação da linguistica saussuriana à psicanálise de autoria (Sales, 2008)
[3] Não faço uso aqui do termo “assassinato” com uma conotação pejorativa, pois estou considerando que, em psicanálise, o assassinato do pai é a base para a invenção da cultura.
[4] Na psicose, o elemento traumático é foracluído, e retorna em forma de alucinações; na perversão, o sujeito se nega a reconhecer a falta no Outro, embora tenha registro dela.
[5] O eixo das sucessões, sobre os quais não se pode considerar mais do que uma coisa por vez, mas onde estão situadas todas as coisas do primeiro eixo com suas respectivas transformações."
[6] O eixo das simultaneidades, concernente às relações entre coisas coexistentes, de onde toda intervenção do tempo se exclui”