“Menina, não se atreva a falar de
Deus aqui dentro. Se Deus existisse ele não deixaria a gente fazer isso com
você.” (M. de Sade)
Poderíamos contar os últimos dias apenas por imagens e, certamente, elas
servirão muito àqueles que se dedicarem a escrever a história do golpe político
que o Brasil vem sofrendo vivendo desde agosto de 2016 e que hoje se concretiza
com o ex-presidente Lula transformado em preso político na “República de
Curitiba”. Mas talvez poucas delas sejam tão capazes de sintetizar a “moral” subjacente
ao que veio sendo gestado em nosso país como a de Oscar Maroni vestido de
prisioneiro exibindo a genitália de uma prostituta semidesnuda, calcinhas arreadas
nos joelhos, diante de uma turba convidada para comemorar a prisão de Lula. Para
quem não sabe, Oscar é um cafetão famoso no mundo da pornografia e dono da casa
Bahama que a imprensa chamou de “centro
hedonista”, tucanando definitivamente o “puteiro”. Ele também ficou conhecido
por ser preso diversas vezes por formação de quadrilha, exploração e prostituição.
Atrás de Maroni e o corpo exposto da mulher, perfilam-se, entre homenageados e
abençoadores da cena, os rostos do paladino da justiça, juiz Sergio Moro, e da ilustríssima
ministra do Supremo (com tudo) Tribunal Federal, Senhora Carmen Lucia. A festa
é o cumprimento de uma promessa feita em 2016. Num vídeo que pode facilmente
ser acessado na internet, Maroni promete cerveja, caso Lula seja preso, no
seguinte diálogo:
"Se o Lula for preso,
a cerveja é de graça até a meia noite. Agora, se matarem ele na prisão, a
cerveja vai ser de graça durante o mês inteiro". Outro homem que está
numa mesa junto ao empresário questiona caso a morte seja com crueldade.
"E se for sofrida, a morte?". Ao que Maroni responde em tom jocoso:
"Aí eu dou meu rabo".
Impossível ver a cena e não
ser lançado imediatamente na imageria de “Os 120 Dias de Sodoma” do famoso
Marquês de Sade. Na obra um padre, um financista, um juiz e um
nobre francês reúnem-se no castelo de Silling, para por em prática as mais inomináveis
práticas sexuais junto à jovens meninas e meninos arrancados de suas famílias, acompanhados
de um grupo de pessoas compostos por prostitutas, homens viris e velhas feiticeiras.
Numa das cenas mais famosas, uma jovem garotinha implora por clemência em nome
de Deus e ouve a frase da nossa epígrafe.
Tanto
a frase como a metáfora do livro são muito inspiradoras nesse momento porque
nos permitem deslindar a montagem perversa que age como plano de fundo do
golpe. Tentarei pincelar aqui algumas de suas coordenadas.
A
ideia de Deus, da moral pequeno burguesa, da família e dos bons costumes sempre
foi usada para trazer à tona nossos medos mais secretos. Medo de algo que não
conseguimos nomear, mas que insiste a partir de dentro e do qual não podemos
fugir. Esse medo, em última instância, podemos reduzir ao nosso próprio corpo,
mas que facilmente toma a forma do outro a quem julgamos dever extirpar. Um outro ameaçador, que com seu gozo obscuro
põe em risco nossas conquistas. Foi assim em 64, tem sido assim nos
últimos tempos (considerando apenas que agora temos essa figura pouco
convencional do ator pornô que milita na defesa dessa moral).
O
Outro, desde priscas eras, tem um nome no Brasil: o comunista. Ele mata
pessoas, come criancinhas, é ateu, não respeita a família nem a...propriedade. É
aí que chegamos a verdade desse discurso. A manipulação do medo como a
experimentamos não está a serviço de outra coisa que a manutenção de uma ordem financeira.
O deputado que votou pelo impeachment de Dilma em nome de Deus e da família não
dá a mínima para esses valores. Foram todos comemorar a vitória no prostíbulo,
como foi divulgado na época.
Estavam
todos, sim, a serviço do dinheiro que corria solto nas propinas e que foi
cortado pela presidenta deposta. Dinheiro que corre a serviço da norme – mâle, como diz Lacan, fazendo um
jogo significante entre “normal” e “norma macho” que aponta para o lugar do
falo na regulação do gozo em sua tradução significante. Ao contrário do que muitas
vezes se pensa, a norma fálica não se pauta na potência do órgão masculino, mas
justamente em sua insuficiência em saturar o desejo humano. Não estamos mais
sob o primado do instinto que programa o macho para a fêmea e vice-versa. Somos
regidos pela pulsão que, em sua premência incessante, não conhece objeto que a
satisfaça completamente. A norma fálica inscreve para o neurótico essa falta na
cadeia simbólica e faz com que passemos a perseguir o ponto que localizamos
como resposta ao enigma norteador do desejo. Alguns colocam aí o dinheiro, o
amor, o trabalho. Mas de todo modo ela faz parecer menos louco o fato de
estarmos todos correndo atrás de algo. A norma fálica também estrutura a
fantasia do neurótico como aquele cenário onde haveria um outro que goza
plenamente, um gozo que o neurótico desconhece conscientemente, mas com o qual mantém
um jogo de aproxima e afasta repetitivo.
No
entanto, a norma fálica não faz só o neurótico. Ela também se inscreve de algum
modo para o perverso. Só que este, ao contrário do primeiro, não se localiza no
polo faltante dessa fantasia. O perverso “sabe” do gozo do outro e é como seu
agente que ele se coloca. Ele põe em cena para o neurótico o objeto que supõe
ser causa de sua divisão e de sua angústia.
Para
além da fantasia, seja ela neurótica ou perversa, nem todo gozo se se deixa
dizer pela norma fálica. Trata-se, como elaborou Lacan, do gozo feminino que,
em ser não-todo fálico, aponta para o que extravasa essa lógica do ter e para o
que não se deixa amoedar no discurso. Por isso, se por um lado a mulher pode
ser tomada por um homem como objeto causa de seu desejo e lugar onde este vai
recortar o objeto para gozar com ele no encontro sexuado, por outro lado, o gozo
propriamente feminino encarna tudo aquilo que se coloca como alteridade
radical, inclusive para ela mesma.
Voltemos
para a cena sadeana de Maroni e sua relação com o golpe. Ela encarna o gozo
obsceno que deveria permanecer velado em todo o discurso que sustenta essa
trama. O golpe está a serviço da manutenção de uma ordem perversa que não
aceita a falta. Que não admite tocar na distribuição de renda, não admite pobre
viajando de avião, nem porteiro passando férias em Miami. Não admite “analfabeto”
presidente. Mais ainda, não admite mulher governando! Se há um lugar para a
mulher na lógica do golpe esse só pode ser o de objeto de exploração (bem
diferente do objeto causa do desejo) como pedaço de carne, olhos vendados e
genitália exposta ao espetáculo dado aos homens que votam em nome de Deus, da
família...e da propriedade. É a lógica que matou Marielle, que depôs Dilma e
que quer ver Lula morto. É assim que, em
nome de Deus, os homens de bem localizam uma Lei para corrompê-la, com os mesmos
significantes que usam para encobrir seu golpe. É assim que temos pedófilos
votando leis anti-pedofilia, estupradores votando leis anti-aborto, traficantes
votando leis anti-drogas, assassinos votando pela pena de morte e corruptos
votando leis anti-corrupção.
Por
isso tudo, podemos dizer que o golpe é machista, é racista, é fascista. Por
isso tudo, a única chance de resistirmos é se aprendermos de algum modo a somar
forças diante dele e não cedermos ante a sedução do narcisismo das pequenas
diferenças. A meu ver o discurso, já histórico, do presidente Lula, ao desapegar-se
da sua persona e colocar-se a serviço da militância (mesmo sabendo que corre o
risco de não sair vivo dessa prisão), deixa algumas dicas nesse sentido:
“não
adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque não
sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com a ideia de
vocês.”
Que
suas palavras lançadas aos que partilham de algum modo dos ideais da esquerda possam
ser capazes de superar e produzir algo em sentido divergente da (obs)cena de
seus inimigos.
"E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"
(Sampa - Caetano Veloso)
Três conferências, três amarrações. As conferências de Bernard Nominé em
São Paulo no último fim de semana tiveram para mim a estrutura de um nó. Não
somente por se encadearem umas às outras, mas especialmente por terem a função
de mostrar um real em jogo na formação que vai além de qualquer possibilidade
abordagem através da significação. O nó não demonstra a estrutura, ele é a estrutura. Passo a apresentar aqui
um resumo do que ouvi. Certamente não se trata de uma transcrição exata do que
foi dito, mas aquilo que consegui ouvir no que Nominé disse. Nesse movimento sempre se perde algo, mas
espero que possa ser útil em transmitir um pouco da vivacidade da experiência que
esses dias presentificaram para mim.
Bernard Nominé e a demonstração do nó
A primeira conferência, proferida na PUC, “Função do tempo no desejo e seu uso
na cultura hoje”, apresenta o tempo como um elemento que participa daquilo que
causa nosso desejo. O tempo pode ser tomado na sua vertente simbólica como
aquilo que os governantes se esforçaram em sistematizar, organizando-o em seus
calendários. Esse é puramente simbólico. Trata-se de uma escrita, um calculo
matemático que fatia o tempo de acordo com os acontecimentos naturais (as fases
da lua, o dia e a noite, as colheitas, etc.)
Mas o tempo tem uma dimensão real como objeto que não é controlável e, no
entanto, nos define. E isso não da mesma maneira para todos. Temos um prazo de
vencimento que queremos todos esquecer. É assim para o obsessivo, em seu jogo
de procrastinação, para a histérica que se lança na antecipação e para o fóbico
que tenta suspender o tempo na prevenção. De todo modo, o neurótico é aquele
que nunca está na hora de seu desejo pois acerta seu relógio pela hora da
demanda do Outro.
Ao mesmo tempo real e pura abstração é assim que nos dividimos entre o
tempo de cada um e a hora que é para todos. De todo modo, o tempo nunca será
suficiente, sempre nos faltará tempo para ser. O momento final nunca é e nunca
será contado por aquele que vive. Ainda assim é um momento de verdade que
impele o sujeito a estar na hora de seu desejo.
Recorrendo às elaborações de Santo Agostinho em suas “Confissões”, Nominé
começa a construir uma abordagem borromeana do tempo. Para o filósofo, na
experiência humana é possível falar de três “presentes”:
·Presente
do passado – é a nossa memória
·Presente
do Presente – é a intuição
·Presente
do Futuro – é a esperança, a expectativa
Para a psicanálise, o real do tempo cria uma divisão no ser falante e
Nominé vai propor que abordemos as categorias agostinianas da seguinte forma:
·O
presente do passado, ser de memória, é puramente simbólico
·O
presente do futuro, como aquilo que so pode ser imaginado, é o imaginário
·O
presente do presente, como real, faz-se permanentemente e só ex-iste deixando
de ser.
Nominé inclui ainda um tempo verbal bastante explorado por Lacan que é o
futuro anterior, ou em português, o futuro do presente composto, aquele que é
expresso na frase “Eu terei jantado quando ele chegar”.
O tempo e o nó
O que se realiza em minha história é o nó entre presente passado e futuro,
incluindo o futuro anterior. O que ata os três registro é o dizer. Dizer cedo
demais pode não ter efeito algum. Dizer tarde demais não tem mais nenhuma
serventia. O dizer da enunciação só tem efeito se chegar no momento certo. O
bom momento não é o analista quem decide, é o analisante que lhe sopra.
O real do tempo, o presente do presente, é o que o neurótico evita viver
e é o que todas as intervenções do analista tentam delimitar. O analista tem um
manejo desse real do tempo. A transferência é uma relação essencialmente ligada
ao tempo e seu manejo. O analisante
precisa se haver com seu presente do presente em presença do analista. O Ato do
analista deve incidir no momento certo para ter um efeito. A presença do
analista se associa ao presente do analisante. Poder viver o presente do
presente,estar na hora de seu desejo é
o que a análise pode oferecer a quem atravessa a experiência.
A segunda conferencia, proferida no sábado de manha na USP, tratou sobre
“O Corpo, o significante e a letra”.Nela
Nominé começa falando dos efeitos do inconsciente simbólico sobre o corpo e diz
que esses podem ser esses efeitos podem ser interpretados em termos de
insatisfação sexual.
O nó borromeu
O sujeito tem um corpo. Ele não é um corpo. Essa relação do sujeito com o
corpo pode ser tomada em termos de uma estrutura de discurso, a partir do
discurso do mestre. O discurso do mestre articula a relação do corpo com o
gozo, ao tomar o primeiro como simbólico.
O mestre é o protótipo daquele que domina seu próprio corpo. Ele renuncia
ao gozo do corpo em prol do gozo do prestígio, isto é, o gozo do significante
mestre. O escravo, ao contrário, é aquele que prefere a vida ao puro prestígio.
Ele é definido pelo gozo, mas perde a liberdade de seu corpo. O mestre se priva do gozo e, o escravo, da liberdade. O corpo do escravo
passa a ser metáfora do gozo do mestre. Mas atenção, mestre e escravo não devem
ser tomados aqui como duas pessoas. Somos todos escravos do mestre (salvo
algumas exceções), pois temos que recorrer ao significante para sustentar nosso
corpo como simbólico. O S1 é o ideal, significante mestre como aquele que
supostamente conseguiu vencer o gozo. Já o S2 é o corpo como outro, marcado
pelo carimbo do significante ideal. S2 é o corpo simbólico.
Nominé fala que em algumas situações o sujeito pode querer tentar reduzir
todo o ser a esse corpo do simbólico, mas que isso é um risco mortal e
exemplifica isso com o livro de Yukio Mishima “Confissões de uma Máscara”. Nele
o autor relata suas relações com os valores tradicionais do Japão e como esse
ideal acaba levando-o ao suicídio através do ritual do sepuku.
Yukio Mishima
Essa dialética do senhor e do
escravo, luta por puro prestígio, não é humanamente sustentável. Lacan vai se
afastar de Hegel, portanto, exatamente ao introduzir nessa dialética a
subjetividade do escravo. Na dialética hegeliana não entra o gozo do escravo,
apenas o gozo de seu corpo que é atribuído ao mestre. Lacan vai tomar o escravo
como sujeito.
O gozo próprio ao escravo permanece a
deriva, escapa a dialética hegeliana e difere do gozo do corpo do escravo.
Esses dois gozos não são intercambiáveis, o que é um modo de dizer que a
relação sexual não existe. O Escravo gozo fora de seu corpo que é
aquele do gozo do mestre. Sendo assim há uma parte de seu ser que escapa ao
mestre. Esse gozo se condensa num objeto a ser situado fora do corpo, objeto
que e;e não sacrifica pelo mestre. Esse objeto não faz parte do corpo simbólico
e permite ao escravo não se confundir com o que é sacrificado pelo mestre.
Trata-se do gozo da vida, suporte do mistério do corpo falante.
Para Nominé essa escrita é aquela de “um”, que se dá completamente
no particular. O que ata o sujeito ao corpo é algo que é produto dessa
alienação, mas que também lhe escapa. O inconsciente é uma formação de compromisso:
ao mesmo tempo em que serve ao outro fazendo metáfora do gozo do outro, ele
também se serve disso para fazer “dis-corps”, dis-corpo, um corpo discordante. O inconsciente fabrica sentido a partir desse gozo discordante, que
permanece à deriva. O sintoma é aí a
resposta possível, ainda que fantasiosa, ao real do corpo que escapa,
remendando a relação esquartejada do corpo com o gozo. É o nó borromeano que vai permitir melhor apreender qual a função desse gozo
discordante. É ele que vai ocupar o lugar de amarração entre real, simbólico e
imaginário. É o objeto a que assegura a função do nó. Objeto de separação, mas
que também assegura a junção do sujeito com seu corpo.
O Objeto a no centro do nó borromeano
Embora possam parecer a primeira vista, o nó borromeano e o círculo de Euler são diferentes. O nó borromeano é algo que se pode apertar e reduzir a um
ponto bem apertado. É preciso para ter uma representação do mundo que se
sustenta é preciso ter uma representação de si mesmo que seja consistente,
amarrando os registros do imaginário, do simbólico e do real.
·Registro
do imaginário: Nascemos imaturos neurologicamente, é o estádio do espelho,
desenvolvido por Lacan, que vai nos assegurar a ilusão de uma imagem.
·Registro
simbólico: é o registro onde se localiza a morte. O corpo simbólico não é um
corpo vivo, ele é mortificado pelo simbólico. Não se pode localizar o gozo ai,
no entanto se pode gozar dele, do reconhecimento de seu ser no Outro, como
Ideal. O corpo imaginário e o corpo simbólico estão ligados entre si. É o real
que liga a imagem do corpo ao significante do Ideal.
·Registro
do real: é o corpo que vive sem pedir nossa opinião. Não é apreendido na imagem
que fazemos de nós mesmos e também transborda o corpo simbólico que nos foi
reservado.
Utilizando-se de uma vinheta clinica, Nominé passa em seguida a articular
no nó borromeano os outros gozos que aí consistem. O gozo fálico está fora da
imagem do corpo. É anomálico ao gozo do corpo e mostra a cada um os limites de
seu próprio corpo. O falo não é um órgão, mas uma função simbólica regulada
pelo Outro. É a castração que vem fazer limite ao campo do imaginário. É o
objeto a que separa o gozo fálico do campo do Imaginário.
Nominé toma a clinica da histeria para exemplificar essa elaboração do nó
e toma o conceito de Entgegenkommung utilizado por Freud para falar dessa experiência do
corpo. Trata-se daquilo que foi traduzido como “complacência somática”, mas que
a ele parece uma tradução insuficiente, pois em alemão a palavra remete a “concessão”,
“boa vontade” e também “vir ao encontro”. Mas trata-se de algo que trata das
relações do somático com o psíquico no sintoma histérico. É o que fixa o
sintoma histérico a uma significação e dai que surge a repetição. O sentido em
si mesmo nunca é fixado, ele foge. O trauma não é a excitação corporal, mas a significação
que é atribuída a ele. A parte do corpo tomada no sintoma é como o grão de
areia em torno do qual a ostra vai produzir a pérola. Está em Freud essa
metáfora.
Mas para
Lacan a complacência somática se trata, antes, de uma recusa do corpo. A histérica
é aquela que, com seu corpo, recusa em participar totalmente do gozo do Outro
(embora ela se preste a ele de outro modo, com suas intrigas).
Para Nominé,
a complacência somática é a participação
do corpo real no sintoma histérico. Ela está em concordância com a estrutura da
cadeia borromeana. O sintoma histérico da um gozo de sentido ao gozo real. O
corpo se põe a imitar o encontro de corpo a corpo que a histérica recusa.
Por fim ,
Nominé vai localizar em relação ao nó Borromeano como se dá a função da
análise e a intervenção do analista. O analista, segundo ele, deve ensinar o
analisante a “épisser”. Palavra que em francês tem o sentido de “emendar”, mas
também faz homofonia com “épicer” que significa “temperar”, colocar especiarias.
A introdução do
ato analítico não desfaz o nó. Pelo contrário, isso fica firme. Trata-se de
levar o analisante a fazer a sutura entre seu sintoma e o real parasita que
habita seu corpo. É de suturas e emendas que se trata a análise. Isso se faz
reduzindo e cortando o ponto em que o neurótico situava o gozo do Outro, pois o
Outro do Outro não existe. Essa operação amarra o o gozo fálico com o gozo do sentido, apertando
o nó em torno do que causa o desejo, ou seja, do objeto a.
O corte e a emenda do nó
A
interpretação tem a estrutura de um chiste. Não é por meio da significação que ela participa do nó,
mas da sonoridade do significante, e essa sonoridade procede de uma letra. Por fim, tivemos ainda a realização no Fórum do Campo
Lacaniano de São Paulo da conferência intitulada “Saber fazer ou saber fazer
com”. Nominé começou essa conferencia lembrando o dever de interpretar do
analista. E ele se pergunta: será que a interpretação depende de um saber
fazer?
Ele responde dizendo que o saber-fazer é a coisa do
especialista do expertisse. O que está em jogo na interpretação é de outra
ordem, o saber fazer com (savoir y faire) que remete muito mais a saber se
virar com algo, a algo que é da ordem da invenção, o saber se inventa.
Conferência no FCL-SP traduzida por Dominique Fingermann
O pedagogo transmite o saber. Na transmissão da
psicanálise o que se transmite é antes o desejo de saber. O savoir y faire do
analista também tem a ver com estar aí, no momento preciso.
O objeto a permanece inimaginável, ele é a volta não
contada do toro, o centro inapreensível do crosscap. Ele ex-siste, se situa
sempre ao lado (à cotê).
O centro do nó, segundo Nominé só é definível quando o nó
é feito. Os nós corrediços deslizam, é preciso, portanto identificar o centro
em torno do qual o nó se aperta. Trata-se de estreitar ao máximo aquilo em
torno do qual o trabalho de uma análise gira.
Cada circulo do nó borromeano é, em si,
um nó trivial. (pesquisando na internet encontrei que, em matemática, um nó não é um cordão enrolado, mas uma curva no espaço, fechada e que
não se auto-intersecta, formando um arranjos espacial peculiar. O adjetivo
trivial remete aos objetos topológicos – nós - que têm uma estrutura muito
simples, que pode facilmente ser provado ou definido. A origem do termo em
linguagem matemática vem do currículo
trivium medieval, formado pela lógica, gramática e retórica). A cadeia
borromeana é um arranjo formado por três nós triviais. Para saber mais, clique aqui.
O nó
é efeito de um dizer que causa um acontecimento. Ele também implica o tempo,
que por sua vez é uma das funções do objeto a. Não é o analista que decide o
momento oportuno (Kairós), é o analisante quem lhe indica sem saber
Para
Nominé o esforço de Lacan em realizar essa amarração é anterior aos nós
borromeus e remete a construção do grafo do desejo, mas essa tentativa se
mostrou insuficiente.
O
Objeto a surge de um nó de sentido, mas o cerne dessa amarração é um “pas de
sense”, significante que em francês faz homofonia entre o sem sentido e um
passo de sentido. É o chiste que faz aparecer o cerne do "pas de sense". Aceder a
isso é contar de outra forma para saborear de outro lugar essa operação. Aquilo
com que se ata o Imaginário e o Simbólico é o real do significante. Nominé da
o exemplo de um chiste de um governante que morre nos braços de uma prostituta.
A
interpretação deve ter a estrutura do chiste, trazendo a surpresa. Aqui ele
traz duas referencias interessantes, uma delas é a de Shakespeare: “ A fortuna
de um gracejo está no ouvido de quem escuta, nunca na língua de quem o faz”. A
outra referência é a de Teodor Reik , que escreveu o livro “O Psicólogo surprendido” (Clique aqui para ver uma resenha).
Para Reik o psicanalista será surpreendido pelas emergências do inconsciente tanto
nele mesmo, quanto no paciente. E ele deve ser capaz de permanecer se surpreendendo
para permanecer agindo como analista, mantendo vivo em si mesmo o caminho
iniciado durante sua psicanálise pessoal.
Essa presença do analista é ao mesmo tempo, um
tempo e um lugar, um “dizer que não” que faz o corte. Para que o analista
apreenda esse “saber fazer com” não basta repetir o que Lacan disse, é preciso
se colocar na experiência. O sinthome elaborado por Lacan remete a que cada um
saiba fazer algo de seu gozo, algo que seja suportável, tirando o melhor de si.
E agora, finalizando o rascunho e a tentativa de
amarração de tudo que ouvi e vivi de forma intensa esses dias em São Paulo, vou
me aventurando a elaborar algo sobre o que estava em jogo quando pensamos na
amarração borromeana dessas três conferências.
Algumas amigas que estiveram por lá
Do tempo como modo de pensar os registro do
imaginário (presente do passado), simbólico (presente do futuro) e real
(presente do presente) Nominé extraiu o objeto a como o atemporal de cada
sujeito. Gozo discordante com a programação dos ideais coletados do Outro, é
ele quem permite uma amarração possível entre s três registros, mas ao mesmo
tempo mantendo uma distância necessária entre cada um deles. Essa delimitação
tão clara é o que não existe sem uma análise. Sem os ditos que se desenrolam
trivialmente em uma análise, repetidos à exaustão, não existe borda, não existe
furo. Ou melhor, os furos estão todos recobertos, preenchidos pelo sentido atribuídos
ao gozo do Outro. Cortar esse ponto de gozo e emendar de outra maneira o gozo fálico
e o gozo do sentido é o que vai permitir ao sujeito inventar outra maneira de
se virar com o gozo anomálico e saber fazer com isso.
Na costura dessas três conferencias, percebi que
elas se transpassam em pelo menos dois pontos (pontes e túneis?): 1 – não basta
repetir o que Freud disse, o que Lacan disse, (nem mesmo o que Nominé disse), é
preciso se arriscar na experiência, experimentar. Não ter medo de se aventurar
pelo desconhecido, inclusive pelo desconhecido da matemática e da topologia que
as vezes provoca resistências entre nós. Urge nos dedicarmos a isso se
quisermos estar a altura de nossa tarefa; 2- A interpretação é um dizer com
estrutura de um chiste. Ela exige, do lado do analista, que este esteja
presente no lugar certo. E do lado do analisante que seja ele a soprar para o
analista que momento é esse.
Outros desdobramentos dessa experimentação que
foram esses dias em Sampa certamente se farão ouvir.
PS: os trechos das mídias divulgados nessa página foram autorizados pelo autor.
PS2: atualizando a postagem hoje, 04 de novembro, com o trabalho da artista plástica Fabiana Azeredo, intitulado "Nós do nó" ( Posca sobre papel Fabriano 22x33) inspirado na leitura do texto acima.
“Aceitem as regras e
estarão conectados!”, informou uma das organizadoras do evento enquanto a mesa,
composta por reconhecidos nomes da psicanálise, se acomodava. A frase dizia
respeito a um probleminha que tinha ocorrido com a rede de wifi e que agora
precisava ser registrada para que pudéssemos acessá-la.Mas lembrada a posteriori, parece mais um prenúncio
do que se seguiria.
Freud, em 19 de abril de
1935, escreveu numa carta à uma mãe de um jovem homossexual:
“(...) Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa
uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela,
já que isso não supõe vício nem degradação alguma. Não pode ser qualificada
como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual,
produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande
respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns
dos personagens de maior destaque na história como Platão, Miguel Ângelo,
Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade,
perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito.”
Nem
precisávamos desse posicionamento explícito do pai da psicanálise para
deduzirmos que o campo do saber por ele inventado, rechaça qualquer
interpretação da sexualidade humana como normatizada: a sexualidade infantil
perverso-polimorfa, a variedade ampla do objeto da pulsão, a bissexualidade originária,
a dupla vertente do édipo, enfim.
Por
isso, passados mais de 80 anos da carta mencionada acima, tendemos a pensar
(pelo menos entre quem está engajado em uma comunidade de analistas) que a
transferência com a psicanálise, por si só, seria uma garantia de um
posicionamento mais aberto acerca da desnaturalização da sexualidade humana. Especialmente
entre os ditos “lacanianos”, acostumados que estão com a leitura da entrada no
simbólico como subvertendo tudo que pudesse ser tomado como instintual.
Mas
o trabalho apresentado por Antonio Quinet no IX Encontro da IF/ EPFCL
Brasil em Medellin, Colômbia, alertou a uma plateia, atônita, que não é bem
assim. Reunindo trechos de textos e falas proferidas em entrevistas por alguns
analistas contemporâneos, Quinet mostrou como tem sido frequente o recurso de
certos psicanalistas à teoria psicanalítica para se posicionarem contrariamente
a temas da atualidade como o casamento homoafetivo e a adoção homoparental.
Um afeto de horror
atravessou a plateia que, entre “ohhhs” e “uhhhs”, ouvia os relatos de
declarações homofóbicas (ou homoterroristas, como chamou o autor do trabalho)
que reduziam a diferença sexual à anatomia e o Édipo Freudiano à noção de
família nuclear burguesa “com pai, mãe e filho natural registrado em cartório e
batizado”. Algumas declarações chegavam a associar a homossexualidade a uma
perversão inata a esses sujeitos e a comparar a adoção de crianças por casais
homoparentais às ações do “Estado Islâmico”. (Isso enquanto ouvíamos pelos
corredores do evento as notícias sobre o atentado em Nice e ainda guardávamos
na lembrança o pesadelo do ocorrido em Orlando).
Durante a apresentação,
o sistema de som (ou de tradução) falha temporariamente. Um real que se
atravessa? Quinet resume o que já havia apresentado e rebate todas as teses
homofóbicas com argumentos brilhantemente ancorados na obra freudo-lacaniana e
na sua própria experiência com a psicanálise.
Enquanto o escuto, suas
palavras vão se encontrando e afetando outras memórias. Uma delas ecoava mais
forte: o assassinato de uma criança, João Donati, de 18 anos, na cidade goiana de Inhumas. O jovem teve suaspernas quebradas, foi torturado e enforcado. Em
sua boca encontraram um bilhete, escrito pelo assassino, que fazia menção ao
fato de ele ser homossexual.
Até escrever esse texto, não sabia porque essa memória tinha
se presentificando com tanta força ao ouvir a apresentação de Quinet. Talvez
porque soube dela como uma invasão do real (estamos todos conectados, para o
bem e para o mal): acessava a linha do tempo do Facebook e, sem ter tempo de
decidir se queria mesmo ver aquilo, aparece-me uma foto do corpo do rapaz como
foi encontrado em um terreno baldio, desfigurado, ao lado de uma foto de seu
perfil na rede social. Podia ser meu filho, podia ser o filho de um amigo. Foi
demais.
Mas ao pesquisar para falar aqui desse caso, lembrei o que
dizia o bilhete encontrado no corpo de João: “Vamos acabar com essa praga”. Foi
esse significante “praga” que encadeou minha lembrança à fala de Quinet que, por
sua vez ressoava com outro comentário proferido, nesse mesmo encontro, por
Colette Soler: a psicanálise não se transmite pelo saber, ela é, antes
epidêmica, transmitida como uma praga. Já disse Freud quando ia visitar os
americanos: “Eles não sabem que estou indo lá levar a peste”.
De um lado, o objeto de ataques terroristas (e
homoterroristas) do outro, a psicanálise. O que eles tem em comum? Ambos
convocam o real, ambos tocam a peste. Mas não certamente da mesma maneira. O
discurso analítico é o único que permite fazer algo frente a isso que irrompe
como diferença insuportável, mas que habita o cerne do nosso ser. Permite
tocá-lo sem precisar destruí-lo, aniquilá-lo, torturá-lo e matá-lo.
Por fim, uma outra epidemia entra na minha cadeia
associativa. Enquanto passeava pelas ruas mágicas de Cartagena (ali entendemos
de onde vem o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marques[2])
lia nas horas de descuido “O Amor nos Tempo do Cólera”. Ao ser tomada pelas
histórias de Fermina Daza, Florentino Ariza e Juvenal Urbino e fazê-las
encontrar com o que ouvi na apresentação de Antonio Quinet, lembrei da frase de
um desses personagens: “...lhe tinha amor bastante para vê-la com olhos de
verdade."[3]
Não é qualquer amor que permite ver o outro com olhos de
verdade, é o que nos diz Gabo. No que diz respeito às parcerias amorosas, aceitar
as regras não é garantia de que estejamos conectados. Há sempre um gozo
estranho que se atravessa e que é impossível de conectar.
Fica a pergunta: seria possível hoje, em tempos de surto de
cólera (do afeto, mais que da bactéria), pensarmos uma psicanálise que responda
à questões da atualidade como uma possibilidade de um novo amor, um amor que
seja bastante para que possamos ver o outro com os olhos da verdade, sem que
isso nos leve a querer destruí-lo? A apresentação de Quinet me faz acreditar
que sim, sob o preço de que não nos calemos e de que não façamos da psicanálise
uma justificativa para nos adequarmos às regras.
[1]“Parcerias
amorosas e laços sociais” é o título da apresentação proferida porAntonio Quinet no IX Encontro da IF/ EPFCL
Brasil em Medellin, Colômbia
[2]
Categoria que ele mesmo rejeitava: "é
só realismo. A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos
meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação".
[3]Marques, Gabriel Garcia. O
Amor nos Tempos do Cólera. Rio de Janeiro, Record, 1985.
O aguardado documentário
sobre a vida de Nina Simone, uma das maiores vozes do século XX, não
desapontou. A diretora Liz Garbus soube compor um mosaico sobre a vida e obra
da cantora que passa longe de uma simples exaltação. A pergunta título já deixa
entrever o que vamos encontrar ali: uma história demasiado humana e que, por
isso mesmo, nos cativa.
What happened, miss Simone?
Poderia ser respondia de diversas maneiras: pelo viés político, artístico,
histórico. Mas, sem deixar de lado a importância de nenhuma dessas facetas, foi
a mulher que encontrei ali que me tomou. Logo nas primeiras cenas, temos uma
Nina que sobre ao palco em Montreux com um olhar ausente, perdida em meio aos
aplausos que chovem. Talvez ela mesmo se pergunte neste momento: what happened?
Nascida Eunice Waymon, em
meio a segregação racial da Carolina do Norte,se encantou por
Bebedouros separam brancos e negros nos anos 50
Bach na década de 40 e traçou uma carreira de sucesso
que a levaria ao Carnegie Hall. Apesar da paixão pelo piano clássico, foi como
cantora de jazz e blues que se revelou ao mundo. Tocar e cantar nos bares
tornou-se a única alternativa para a filha de uma empregada doméstica com um
marceneiro. Foi essa vicissitude do destino quem deu ao mundo o prazer de
conhecer a voz robusta e aveludada de Nina (menina, como era chamada por um
namorado) Simone (em homenagem a atriz Simone Signoret).
A composição escolhida para
se re-nomear revela um ideal : a menina,branca, bem-sucedida, sensual e politicamente engajada, encarnada na
atriz francesa com quem compartilha um mesmo sonho de liberdade. O encontro com
seu grande amor, Andy, talvez tenha sido o primeiro descobrimento dessa imagem
(todo amor, afinal, não é ao mesmo tempo narcísico e objetal?) A menina cai de
amores pelo policial durão, pois ele “sabia o que queria”. Ele a protege,
organiza sua vida, passa a ser seu empresário e lhe dá a segurança de que
precisava para enfrentar o show business. Mas é este mesmo amor que vai
revelar-se em sua face mais cruel, empurrando-a para o trabalho além das forças
e espancando-a quando desobedecia.“Ele
me assustava”, dizia Nina, “mas eu o amava e achava que ele ia mudar”. História
tão conhecida essa, dessas mulheres, brancas, negras, americanas, brasileiras,
que por amor, se deixam (ou se fazem) destruir. What Happened, miss Simone?
Como o sonho de liberdade acabou flertando com os grilhões de uma relação
abusiva?
Uma palavra que ricocheteia
em todo documentário, talvez seja a senha para respondermos à pergunta: anger. Seja uma raiva auto dirigida, nos
momentos de depressão; seja nos ataques no palco, onde exigia a atenção que um
pianista clássico merecia; seja quando dirigia essa raiva para a filha ainda
criança: “minha mãe era movida pela fúria”, afirma Lisa Simone em determinado ponto.
Foi essa mesma “fúria” que a permitiu, depois de muitos anos, separar-se de
Andy, engajar-se no ativismo pelos direitos civis e fazer disso uma causa.
Nessa militância ela usa toda sua raiva em prol do ativismos politico, culminando com "Mississipi, Goddam!". Algo como "Misssissipi, puta que pariu!", música feita após a morte de quatro crianças negras num ataque a uma igreja. Ela disse o que estava engasgado e todo mundo queria dizer. Mas sua raiva levou-a mais longe, chegando a divergir de Luther King quanto ao uso da violência.
“Are you ready black people? Are you ready to
smash white things?”, ouvimos uma Nina quase em transe instigando o público em
um de seus shows. O circuito pulsional faz seu trottoir onde "bater" e "ser batido" são duas faces da mesma moeda. “Strange Fruit” essa que
carregamos no ventre, que vemos com horror (como o poema cantado
Negros linchados em indiana, origem do poema "Srange Fruits"
por Nina diz),
balançando nas árvores para apodrecer como os cadáveres dos negros linchados em Indiana, mas que também encontramos em nós mesmos como nossa causa mais
íntima.Estranho familiar, diria Freud.
Nina sonhava com a liberdade,
mas quando se desvencilhou das garras de Andy, não soube o que fazer com ela.
Destruiu-se e perdeu tudo que tinha e, quando já era uma lenda, se viu
completamente perdida cantando em bares anônimos de Paris.
Essa história me lembrou uma
outra. A de Ysé, contada por Paul Claudel, e retomada por Colete Soler em seu
livro “O que Lacan dizia das mulheres”.Frente a iminência da partida de seu amante para a guerra, Ysé lhe
implora que não vá. Ele se vangloria: Então, no fim a gente tem que confessar
que precisa mesmo é do marido! Mas Ysé lhe arranca o pedestal: “Não confie
muito em mim. Não sei, sinto em mim uma tentação... E peço que não me venha
essa tentação, porque não convém... De que precisa uma mulher, senão de
segurança, como a abelha atarefada na colmeia, limpinha e bem fechada? E não
esta liberdade assustadora!”
Diz Colete Soler: “Não era
contra os perigos da China que ela fazia seu apelo, mas contra a coisa mais
próxima. Em síntese, Ysé lhe diz: proteja-me de mim mesma.”
Acho que podemos ler na
história de Nina também um apelo, algo que a defendesse dessa liberdade
assustadora onde, no final do trilho, o que encontramos, são corpos decompostos
balançando numa árvore. Strange Fruits.
O mérito do documentário foi, além de nos proporcionar momentos belíssimos em companhia de Miss Simone, mostrar os diversos ângulos de Nina: da entrega amorosa à fúria odienta, sem
reduzi-la a nenhum deles, mostrando-a susceptível de todas as paixões humanas.
Assim como qualquer um de nós.
Afinal, no one can always be an angel, não é Miss Simone?