domingo, 31 de agosto de 2014

Lost in Translation...





 “Foi só isso? Parece que ele disse bem mais que isso...”

A fala é de Bob Harris (Bill Murray), um ator de cinema que está em Tokyo para fazer um comercial de whisky. O Diretor, japonês, fala umas vinte frases incompreensíveis para o ocidental, ao que a tradutora retruca: ele disse que quer que você se vire e olhe para a câmera. Claro que não foi só isso que ele disse. O resto ficou..lost in translation.  A frase, que dá título a esse filme belo e delicado, não poderia definir melhor o que se passa (A tradução em português - Encontros e Desencontros - não foi tão feliz assim).


Bob é um homem de meia idade, que arrasta um casamento desgastado em seus 25 anos, e com uma cara de quem preferia estar em qualquer lugar do mundo, menos no Japão. Entre as idas e vindas para a filmagem do comercial (que lhe exige uma encenação ridícula, mas que paga milhões de dólares para ele estar ali) Bob se revira no quarto do hotel, assolado pelo jet lag de 24 hs de diferença de fuso. Não é dito muita coisa, mas quem já passou uma noite tentando, em vão, dormir, sabe imediatamente do que se trata. Ele desce pro bar do hotel e lá conhece Charlotte (Scarlett Johanson) - linda, como só ela consegue ser, mas extremamente entediada. Ela está na cidade acompanhando o marido fotógrafo. Ele, veio a trabalho. Ela... ainda não está muito certa a que veio. Aliás, essa é a frase que, repetida em situações diferentes, resume sua personagem: “I’m not sure”.


Ela não está muito certa do que vai querer beber, de qual é sua profissão, do está fazendo no mundo, do que é estar casada, do que é estar consigo mesma. Assim como Bob, ela se arrasta insone entre o quarto e o bar do hotel. Nessas idas e vindas, eles se encontram. Trocam algumas palavras, não muitas. Mas parece que compartilham algo, talvez a sensação de que a vida está passando e eles não fazem ideia de como vieram parar ali.
Tokyo é uma metáfora para este “ali”. Uma metáfora belíssima, por sinal. Num dos momentos mais poéticos do filme, acompanhamos Charlotte deslocar-se de trem até Kyoto. Na viagem vemos o Monte Fuji imponente e ancestral, e a acompanhamos em um passeio num parque, onde seu olhar cruza com uma mulher ricamente adornada em trajes típicos japoneses, amparada pela mão do marido. Por um segundo, somos atravessados naquele olhar por todas as perguntas que uma mulher se faz, sobre si, sobre o amor, sobre a vida. 

Assim é a dor e a delícia de poder usar das palavras. Nunca se diz tudo. Na palavras da poeta Orides Fontela: “Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave".  Mas, apesar desse impossível, e até por causa dele, eis que uma metáfora se faz e a poesia invade a cena.
Aquilo que nos chega da experiência, como que invadindo nosso corpo, precisa ser transcrito em outra língua, traduzido mesmo, disse Freud em sua famosa carta 52 à Fliess. E nisso que se traduz, alguma coisa resta sempre “lost in translation”. Irrecuperável, mas presente inexoravelmente cada vez que tentarmos nos dizer.
Estar sozinha em um país distante é uma forma de experimentar mais perto esse algo. Em uma experiência recente, fui tomada pela visão de um quadro que, assim como esse filme, me disse muito sobre o que é estar tão intimamente acompanhada disso que “Que dá dentro da gente e que não devia/ Que desacata a gente, que é revelia”. O quadro, de Edward Hooper, se chama “Hotel Room”.  
Nele vemos uma mulher sentada na cama de um hotel qualquer. Ela se despiu, seu chapéu e suas roupas estão jogados sobre uma cadeira e ela parece cansada demais para desfazer a mala. Nas suas mãos um papel que ela examina, provavelmente o bilhete do trem que vai pegar no dia seguinte. Tal qual a Charlotte diante da gueixa da cena do filme, me vi fascinada por aquela mulher, identificada ao que ali se diz de sua situação de viajante sozinha, mas, principalmente, identificada ao que não sei dizer de mim que ela parece também portar. Enfim, seja em NovaYork, em Tokyo, em Madrid ou no interior do Ceará, tem sempre a possibilidade de encontrarmos com essa estranheza familiar.

Sofia Copolla teve um grande mérito nesse filme (mais um entre tantos): não reduziu o desconforto, o tédio, a angústia, a um encontro onde o amor resolve tudo, como é a promessa do cinema holywoodiano). Charlotte e Bob se encontram, é fato. Mas isso não elimina a estranheza. Apesar da sensação implícita de que pela primeira vez na vida conseguem estar com alguém com quem minimamente conseguem conversar, a promessa de um amor vai se arrastando. Provavelmente enquanto ele pensa na esposa e nos filhos que deixou na América, e ela no marido workaholic que não consegue ficar perto dela.
A tensão é constante, mas não há encontro físico. Eles dormem juntos porque pegam no sono conversando, mas não fazem sexo. E o único beijo do filme acontece num momento lindo, quando prestes a pegar o avião que vai levá-lo embora para longe de Charlotte, Bob sussurra algo em seu ouvido, algo que nós espectadores nunca vamos saber: lost in translation.

Fica a sensação se que algo escapou, algo está perdido. Mas é isso também que faz toda a beleza do filme e da vida. Não é que a vida valha a pena, apesar de perdermos. É exatamente porque perdemos que vale a pena seguir inventando: inventando o amor, a poesia, a vida. 

A psicanálise tem outra forma de dizer isso. Nessa mesma viagem em que encontrei Hooper, tiver a oportunidade de ouvir uma belíssima apresentação do psicanalista Antonio Quinet onde ele disse da estrangeiridade de todos nós em relação ao inconsciente, que é sempre translinguístico. Isso é, apesar da ilusão de que “é falando que a gente se entende”, estamos todos - mesmo quem nunca saiu do seu lugar natal - sempre tendo que nos virar com uma língua estrangeira. E que a tarefa do analista consiste em arrancar as palavras de sua familiaridade, permitindo que, por um lado, o sujeito se descole de suas identificações, e por outro, que aquilo que cai “lost in translation” compareça.  

terça-feira, 26 de agosto de 2014

As escolhas (Hetero) (Homo) sexuais e a Psicanálise

Para além das determinações sociais, culturais ou de gênero, a psicanálise vai afirmar que, para o ser falante,  tanto a identificação com seu sexo como a escolha de objeto são engendradas a partir de uma “outra cena”, inconsciente.
Usamos aqui tres palavras que exigem que falemos um pouco mais sobre elas: identificação, escolha e objeto. Comecemos com uma pergunta: afinal, podemos falar de “escolha” no que tange a sexualidade?
“Dizer que um homem ou uma mulher “escolheu” ser homossexual pode parecer um absurdo, ainda mais no caso em que tudo que ele/ela preferiria na vida seria ser heterossexual, ou quando luta contra seus desejos, ou se recrimina por eles e até tenta se matar para não ter que viver sua pulsão, a qual lhe exige constante satisfação. (...) No entanto, falar de escolha subjetiva em relação à sua forma de falar é uma postura ética, que tira o sujeito dito homossexual do lugar de vítima: de sua genética ou de seu destino ou do desejo de seus pais, o Outro parental. Falar de escolha sexual implica em fazer o sujeito responsável por seu gozo.” (Quinet, 2013, p. 131)
Como então podemos entender essa “escolha” que mal se reconhece como tal? Em primeiro lugar é preciso situá-la dentro dessa “outra cena” a que nos referimos há pouco. Não se trata de uma escolha consciente, de uma decisão tomada deliberadamente em um dado momento cronológico da vida. Trata-se de uma escolha forçada, como diz Lacan. Para ilustrar essa escolha, ele coloca a seguinte situação: imagine que você que vem andando distraído, portanto uma bolsa com todos os seus pertences. De repente, surge o ladrão que, com uma arma encostada na sua cabeça, sentencia: a bolsa ou a vida! Não sei o que você faria, a gente nunca sabe de antemão como reagiria numa situação dessas, mas pode ter certeza de uma coisa: a bolsa, você já a perdeu!  Considerando que a opção de correr está fora de cogitação (lembre-se que o cano está apontado pra sua cabeça, sobram duas opções: a) você escolhe a vida e entrega a bolsa; b) você escolhe a bolsa, e ai ele lhe tira a vida. O que no final das contas não vai lhe sobrar muito pra continuar usufruindo da bolsa.
Pois bem, nossa constituição psíquica nos coloca em determinado momento frente a uma escolha desse mesmo tipo, e nos obriga a nos alienar ao Outro da linguagem e com isso perdemos algo. É preciso dizer que nem todos escolhem essa via, é possível escolher também a bolsa, não se alienando ao Outro, mas nesse caso as consequências são tão devastadoras que já não podemos usufruir da bolsa. Mas não trataremos desse caso aqui. Detenhamo-nos portanto naqueles que escolhem a vida.
Não nascemos homens ou mulheres, nem hetero nem homossexuais. (Na verdade, o que Freud descobriu em sua clínica foi que nascemos com uma predisposição bissexual que só depois vai se definir). Mas enfim, nós nascemos mesmo é completamente desamparados, sem recurso algum para lidar com um corpo que vive, ao sabor das pulsões parciais. Se nós estamos aqui hoje conversando, é porque quando nascemos, algum outro se dignou a nos tomar em seu desejo e, frente a esse nosso desamparo fundamental, compareceu.
Freud toma como exemplo dessa situação o bebezinho recém-nascido que chora e esperneia. Ele sente coisas, coisas que não sabe ainda nomear. Uma delas é uma sensação de contrações no estômago que o deixa muito irritado: FOME! O adulto que se aproxima, geralmente a mãe ou quem ocupa seu lugar, oferece o seio ou a mamadeira ele então tem aquilo que chamamos de “primeira experiência de satisfação”. Aquilo é maravilhoso! E ele guarda consigo um traço mnêmico dessa experiência. Mas o que Freud descobriu foi que, da próxima vez que a fome bater, ele não vai sair gritando e esperneando pra chamar novamente a mãe. Ele investe libidinalmente o traço que ficou marcado dessa experiência, o que quer dizer que ele alucina! Ele tenta por essa via alucinada repetir a experiência do mesmo objeto da primeira satisfação. Mas ele não encontra, porque o que ele tem são apenas traços, vestígios desse objeto.  E aí, ele é obrigado a chamar novamente a mãe que novamente comparece com o seio.
Como diz Quinet (2013, p. 132), “o sujeito escolhe o  Outro do amor como uma escolha forçada, que constitui sua alienação- menos pior que o desamparo da ausência do Outro. Trata-se da escolha do Outro do sentido, ou seja, da linguagem, aquele que dá ao sujeito o apoio do simbólico. Mas para entrar na sexualidade, ele deve, em seguida, poder separar-se , pois, entre o sujeito e o Outro, há o objeto a, causa do desejo, que lhe dará a orientação subjetiva e sexual em sua singularidade. É esse o objeto que o sujeito alojará no parceiro sexual de sua escolha.” (p. 132)
Após a alienação ao Outro do amor, a separação. Desse processo restará um vazio deixado pelo objeto esperado mas não encontrado É nesse lugar que Lacan vai construir seu conceito de objeto a, objeto que causa o desejo e não objeto de satisfação do desejo. Dito de outra maneira, nós não temos algo a nossa frente (como quer nos fazer acreditar o capitalismo) que, ao ser encontrado, responderá pelo nosso desejo. O que nós temos é um vazio que nos obriga a caminhar pela vida, buscando substitutos que o preencham.
É na relação que estabelecemos com esse vazio, ou com esse objeto que vão se organizar duas das nossas escolhas mais importantes em termos de sexualidade: a escolha da posição sexuada dentro da partilha dos sexos (posição masculina ou feminina) e a escolha de objeto sexual.
O discurso religioso ou até mesmo o discurso da ciência nos levam a crer que existe uma norma natural que rege isso. Do lado religioso, ouvimos constantemente afirmações como “a relação entre dois homens não pode ser aceita porque não é natural”. Do lado científico, as teorias genéticas levam a explicações baseadas nas  organizações cromossômicas que cada um portamos e defende que é isso que define nosso sexo.  Daí que tudo aquilo que desvia dessa pretensa natureza é tido como desvio, pecado ou doença.
Mas o que a psicanálise descobre é que que, se tem uma coisa que todos nós somos em termos de sexualidade, é que somos todos desviantes! Perverso polimorfo, foi assim que Freud chamou a criança, que busca satisfazer suas pulsões por todos os buracos do corpo: daí a pulsão oral, anal, escópica, invocante... A entrada na norma fálica tenta recalcar essa sexualidade infantil a serviço dos avanços a civilização. Mas ocorre que a pulsão persiste, insaciável, exigindo sua satisfação, ainda que por outras vias desviadas. Daí que a sexualidade do ser falante, ao contrário do animal, é sempre conflituosa.
É em meio a essa bagunça da pulsão, por um lado, e as exigências civilizatórias, por outro, que cada um precisa se posicionar sexualmente e escolher seu objeto. Falemos primeiramente da escolha da posição sexuada: tornar-se homem ou tornar-se mulher, o que é isso?
Freud descobriu uma coisa estranha: a criança pequena desconhece a diferença sexual e atribui um falo a todos os seres animados...e as vezes até aos inanimados. É o que ele chamou de “primazia do falo”. Acima de tudo, ela supõe um falo á mãe, que como ser mais importante na sua escala do universo, deve ter um falo maior que todos do mundo! Do tamanho do de um cavalo, como diz o famoso pequeno Hans. Na verdade ela até se identifica a esse falo materno, como aquilo que a complementa e a realiza. Nesse momento, meninos e meninas tem uma mesma escolha de objeto: a mãe.
A descoberta de que a mãe não tem o falo, de que ela não é completa, de que ela deseja, é decisiva  para o posicionamento da criança frente a partilha sexual e aqui muita coisa pode acontecer. Se ela for neurótica, o caso que estamos abordando aqui, ela vai localizar no pai, aquilo que a mãe deseja, ou seja, o falo. Foi a isso que Freud tentou explicar com o termo Complexo de Édipo. O Édipo é uma experiência determinante para que o sujeito possa separar-se desse lugar de objeto da mãe, definindo seu lugar no mundo e com isso sua identificação com seu sexo e sua escolha de objeto. Somente aqui as coisas começam a se diferenciar para meninos e meninas:
a)   o menino será aquele que, ao localizar o falo do lado do pai, passa a se identificar com ele, aquele que tem o falo, abre mão da mãe como objeto de amor e passa a procurar uma mulher que a substitua.
b)   A menina será aquela que, localizando o falo do lado do pai, se identifica com aquela que não tem o falo, a mãe, e passa a esperar receber o falo do pai em forma de um bebê. Como esse bebe do pai não chega, ela passa a buscá-lo em outros homens.
Essa é a explicação freudiana que, apesar de muito importante para entendermos o processo de sexuação, tem alguns pontos cegos, alguns pontos problemáticos. Principalmente no que tange a explicar a posição feminina, pois se ela responde pelo que é o desejo da mãe (um filho) ela deixa intocada a questão do que quer uma mulher.
Lacan vai entrar nessa conversa apontando que Freud fez avanços importantíssimos nessa área e que precisavam ser resgatados: a sexualidade infantil, a realidade psíquica, a lógica inconsciente,  o objeto para sempre perdido... mas que ele se deteve num certo ponto: suas elaborações se detiveram dentro da lógica fálica, aquela que responde pelo desejo, pela libido, sempre masculina. Por isso Freud se deteve frente ao que ele chamou de “continente negro”.
Para poder avançar nos esquemas freudianos, Lacan recorreu à lógica e esboçou um quadro que situa, de um lado a lógica toda fálica, masculina. E do outro, o que ele chamou de não – todo fálico, ou lógica feminina. A escolha do lugar na partilha sexual, portanto, não depende nem da anatomia, nem das construções sociais, mas do lugar em que cada um vai se colocar: todo fálico ou não todo fálico.
O lado todo fálico, convencionou-se chamar lado homem, é totalmente inscrito na lógica fálica. Como afirma Quinet (2013, p. 136) “o homem se assegura que é homem a partir da apropriação fálica. Isso porque ele tampouco tem o falo e sua angústia de castração o leva não a temer perdê-lo (como pênis, o falo imaginário) pois não o tem, mas a arrumar substitutos, cuja perda, aí sim, significariam sua castração.” Essa lista de substitutos é infinita e inclui mulheres, dinheiro, poder, carros, etc. Objetos que adquirem significação fálica em uma dada cultura.
 O lado não todo fálico, lado que designaria a posição feminina, não está todo delimitado pelas significações sociais localizadas na norma fálica. É preciso dizermos que, a norma fálica organiza as cadeias significantes e a própria linguagem, permitindo que regulemos as relações sociais através de discursos. Quem se coloca do lado mulher, portanto, não está toda submetida a essa norma fálica, embora também esteja com um pé dentro dela. O gozo feminino irrompe nessa lógica fálica apontando para um fora da linguagem, fora do sentido, fora da norma, o que faz com que o feminino tenha sido visto ao longo dos tempos como algo meio louco e desorganizador.
Agora, alguns pontos importantes:
a) Nada impede que um ser portador de uma anatomia masculina se inscreva do lado feminino ou vice-versa. É de uma escolha de gozo que se trata, não de anatomia.
b) Existem diversas possibilidades de se localizar nessas duas lógicas.
c) Nós não nos relacionamos sexualmente com pessoas, mas com um objeto que causa nosso desejo e que situamos nela. Nos investimos o objeto.
d) A escolha de objeto não está condicionada pela posição sexuada.
O que podemos deduzir desses tres pontos é que, como dizia um antigo comercial, "existem diversas maneiras de preparar Neston":
·  Um ser que nasceu portador de um pênis ou de uma vagina, pode se colocar do lado masculino e escolher investir um objeto sexual que está localizado em uma mulher ou em outro homem.
·  Um ser que nasceu portador de um pênis ou de uma vagina pode se colocar do lado feminino e escolher investir um objeto sexual que está em um homem, em uma mulher ou até em Deus, caso do gozo místico.
A única condição para que essa combinatória aconteça é que esteja colocada a diferença sexual. Não há sexo entre iguais, é sempre uma alteridade que se busca, aquilo que eu não tenho. Isso leva Quinet (2013) a afirmar que, a rigor, a homossexualidade não existe. Para haver sexo é preciso que alguém se coloque do lado todo fálico e alguém do lado não-todo fálico, para além da diferença anatômica entre os sexos. 


(Texto apresentado no grupo de vivências do Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia  - ENEP, realizado em agosto de 2014 na Universidade Estadual do Ceará)
Referência
QUINET, A. A Escolha do sexo com Freud e Lacan. In As Homossexualidades na Psicanálise. QUINET, A. e COUTINHO JORGE, M. A. Orgs. São Paulo: Segmento Farma, 2013 

sábado, 16 de agosto de 2014

This must be the Place..or not!


 
“Tem alguma coisa errada aqui, eu não sei exatamente o que é, mas tem”. Talvez essa frase, repetida por Cheyenne ao longo do filme, seja o que faz amarração entre o espectador confortavelmente sentado em sua poltrona numa tarde de domingo e a estranheza que perpassa “This must be the Place”. A frase, e a interpretação de Sean Penn – claro! Que apesar de atingir o cômico em diversos pontos do filme, deixa um quê de amargo na boca desde as primeiras cenas.

A história trata de um roqueiro velho e decadente, com traços de Ozzy Osborne, entediado numa vida sem projetos. Mesmo assim, todo dia ele veste o personagem: unhas pintadas de preto, batom vermelho e uma cabeleira negra que insiste em lhe cair sobre os olhos. Patético.
Até que um dia Cheyenne fica sabendo que seu pai (com quem não fala há trinta anos) está muito doente e precisa ir visitá-lo. De família judaica, o cantor fica ainda mais bizarro em meio a judeus ortodoxos com suas longas peiot . Logo ficamos sabendo que ele demorou demais (devido à fobia de avião, ele se deslocou de navio) e, numa das cenas mais emocionantes do filme, Cheyenne encontra o pai jazendo sobre seu leito de morte. A estranheza do momento é total: a decoração tipicamente judaica, a boca vermelha e cheia de rugas do cantor, a comoção da morte e o corpo estendido na cama...Debaixo do lençol, que ele vacilantemente levanta, somo guiados pela câmera até um número gravado na pele do pai morto. Sobrevivente de um campo de concentração, o velho homem dedicara toda sua vida a perseguir um soldado nazista, seu torturador. No entanto, como a morte chegou antes que ele concluísse sua caçada, esta foi repassada à Cheyenne como um legado incontornável.
E assim, o roqueiro infantilizado torna-se um caçador de nazistas! Mesclando emoção e muito humor, acompanhamos toda a falta de jeito e a sensibilidade de Cheyenne em sua jornada rumo à realização do último desejo do pai.
“Tem alguma coisa errada aqui, eu não sei exatamente o que é, mas tem”.  O filme nos captura na sensação de estranheza que essa sentença carreia (ainda mais contrastante quando se pensa na canção do Talking Heads que dá título ao filme). Meu palpite é que isso se deve ao fato de que essa frase, pontualmente repetida ao longo do filme, marcando suas escansões, diz de um sentimento que é velho conhecido de todos nós. Angústia, é como o vernáculo designa essa sensação de que algo não vai bem, de algo que não está em seu lugar, embora não saibamos dar-lhe nome. E aí, embora o filme trate de uma figura a mais oddest  possível, estamos ali todos nós.
Seguimos Cheynne no que ja se converteu num Road Movie, e vemos como a confusão e letargia do cantor vai se transformando em desejo: Um pai morto, uma causa, e uma travessia...
Só crianças não tem vontade de fumar, diz uma personagem a certa altura do filme. Cheyenne não fuma. Até cheirou heroína...cheirou, porque tem medo de agulha. Só posso dizer que no final ele acende um cigarro, o resto você precisa assistir para ver a cara impagável do Sean Penn! 



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Amor só é bom se doer?

Freud dixit : perguntem aos poetas! E em matéria de amor, a língua portuguesa deu ao Brasil um de seus maiores expoentes: Vinícius de Moraes.
 O “poetinha” não só compôs e cantou o amor, como o perseguiu incansavelmente. Vinícius, o homem, chegou a casar-se nove vezes, correndo atrás do “amor total” e caindo fora de cada relação tão logo a chama eterna se apagava. (Mas deixemos de lado a biografia, já que se não se trata de bancar o psicólogo.)
Batida de samba, os versos anunciam:
Amigo sinhôSaravá!
Xangô me mandou lhe dizer:
Se é canto de Ossanha, não vá!
Que muito vai se arrepender.
Pergunte pr'o seu Orixá,
O amor só é bom se doer 
“Amor só é bom se doer”, não é novidade. Rimar amor e dor já é lugar comum. Na verdade, o amor romântico nasce assim: um impedimento, um balcão, dois amantes e uma trova. Cartas de amor, é o que a dor da distância produz. Na poesia romântica, na musica romântica, só se fala das dores de amor, dos desencontros do amor, das impossibilidades do amor.
Nas linhas de “Canto de Ossanha” Vinícius (com a ajuda de Baden Powell que mais tarde entrou pra igreja evangélica e renegou os afro-sambas) fala-nos de um dos perigos a que está exposto o amor: o das ameaças de canto sedutortraidor. Um canto que traz consigo uma promessa, mas que já vem acompanhada de um alerta dearrependimento: “Se é canto de Ossanha, não vá! Que muito vai se arrepender.”
Ossanha é um dos ícones da mitologia afro-brasileira. Conta a lenda que um rei decidiu casar a sua filha mais velha. Mas só concederia sua mão àquele que adivinhasse o nome de suas três filhas. Ossanha aceitou o desafio e subindo em uma árvore, disfarçou-se de pássaro e pôs-se a cantar um canto irresistível, atraindo a atenção das princesas. Disfarçado de pássarobrincou com elas a tarde toda, ganhou sua confiança e descobriu seus nomes. Assimconseguiu casar-se com a pretendida.
Embora não nos diga o porquê do perigo, nos versos vinicianos é o próprio Xangô(autoridade entre os orixás) quem avisa do destino trágico reservado à quem se deixar levar por esse canto. A nos fiarmos na estrutura dos mitos, sabemos, com Ulisses,onde leva essa sedução da voz: as sereias, com seu canto mavioso, encantam os marinheiros e os arrastam para a morte.
A morte, preço a ser pago pela reprodução sexuada entre os seres. A morte, ponto final para todo desejo não advertido, desejo que se deixa seduzir pela crença de que é possível encontrar o objeto que o satisfaça.
Mas o que o mito (re)vela é a divisão estrutural de todo ser falante, que o destina ao paradoxo de, por um lado, ser ali onde não pensa, e por outro, pensar onde não é.Como diz a canção:
O homem que diz dou,
Não dá!
Porque quem dá mesmo.
Não diz!
O homem que diz vou
Não vai!
Porque quando foi,
Já não quis!
O homem que diz sou
Não é!
Porque quem é mesmo é
Não sou!
O homem que diz tou,
Não tá!
Porque ninguém tá quando quer.
É o desejo, que sobrepuja o Eu que diz “sou”, porque ninguém tá quando quer. Não existe afânise do desejo, é antes o sujeito que sucumbe frente à fulguração do desejo.O amor-canto-de-ossanha enganador, engana a dor dessa divisão, fazendo acreditar que é possível integrar essas metades num “amor total”. Amor narcísico, diz Freud, pois não está interessado na alteridade, na diferença, mas apenas em recuperar aquilo que julga parte de si.
No canto de Ossanha, o desejo surge fazendo questão, desacomodando. O sujeito, dividido entre o imperativo e sua recusa, vacila num ritornelo:
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!

Até que o enunciador se afirma por um “Não Vou!” decidido, e justifica:
Não! Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor...
Ato, decisão, escolha subjetiva...disso depende um novo amor. Será que a análise anuncia a manhã de um novo amor? Será possível inventar uma rima outra, que não amor e dor?
A análise começa por essa via do canto-promessa de amor, cartas (lettres) de amor se endereçam e desfilam. A diferença só se faz possível porque, nessa repetição, um desejo novo se faz presente. Desejo do analista que, ao fazer semblante de canto, oreduz à pura voz que o sustenta. Voz, marca de gozo, letra (lettreesvaziada do sentido que sustentava a mandinga do Outro traidor.
A partir dessa experiência do vazio, de tomá-lo em sua radicalidade, pode ser que surja manhã de um novo amor”. Novo, não na acepção de “recente”, “recém-chegado” (nesse sentido é bem possível desfilar uma lista de “novos” amores sem nunca sair do mesmo), mas novo no sentido de “inédito”, daquilo que permite que algo se inscreva como diferença.
Em novembro estaremos em Campo Grande para falar de amor, convidamos a todos para que possamos dizer um pouco mais sobre isso.

(Texto escrito como prelúdio para o XV Encontro da Escola de. Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Brasil, a se realizar em Campo Grande em novembro de 2014)





sábado, 5 de abril de 2014

Escrever, diz ela



 Comemorar o centenário de Marguerite Duras em Fortaleza não é propriamente um lugar comum. A escritora, diretora e roteirista não é tão conhecida em terras alencarinas. Além disso, a própria autora não apostava nas propriedades de laço social que poderia advir de sua obra. Como bem lembrou Dominique Fingermann, ela diz em “A Dor”: “Aqueles que vivem de dados gerais nada têm em comum comigo. Ninguém tem nada em comum comigo."
E no entanto, a escrita dessa mulher me afetou de uma maneira indelével, de um modo estranho, que eu ainda não consigo colocar apropriadamente em palavras. Arrebatadora, ela, e nós os arrebatados, disse Lacan.
Talvez o que permita a essa obra ressoar em Paris ou no sertão do Ceará, seja exatamente, não o dado geral, mas o estranho, o violento, o arrebatamento de algo completamente desconhecido, mas que no entanto, esteve sempre ali.
Estes foram alguns dos afetos experimentados na minha primeira leitura de M.D. O livro era “O Amante” (Sua obra mais conhecida e ganhadora do prêmio Goncourt, o prêmio literário mais cobiçado da França). 
A história, versava sobre uma menina vietnamita em uma balsa fazendo a travessia do rio Mekong e de um homem mais velho, um chinês,  que se tornaria o “amante” em questão. Mas já estavam ali presentes também os diversos elementos biográficos(?) que eu encontraria depois em diversas outras obras. Marguerite fala de uma forma totalmente despudorada da loucura da mãe em sua obstinação em possuir terras; da prostituição velada a que ela se submete e que a família acompanha cúmplice, apenas pela possibilidade de comer em um restaurante; do amor incestuoso pelo irmão mais novo que morreria cedo, devastando M.D., e a fúria sádica do irmão mais velho, o delinquente.
Realmente, nenhuma dessas experiências tem nada em comum comigo. E ainda assim (e talvez por isso mesmo) eu me perguntava, porque isso me revira? Não sei responder. Mas isso me pôs a trabalhar, de várias maneiras.

Parte desse “motor de trabalho” foi o que enderecei ao dispositivo de cartel, elemento constitutivo da formação do analista na Escola de Lacan. Recentemente propus um cartel com o tema “Escrita e psicanálise”, que se encontra em funcionamento. Considero que esta proposta é tributária da minha leitura da obra durrassiana, pois a inquietação provocada era o que estava como pano de fundo.
Com frequência, durante as nossas reuniões, seu nome me vem à boca. Mas continuo ainda sem saber exatamente porque. Talvez o cartel (que ainda está no começo) me permita aos poucos elaborar algo sobre isso. E esse texto já é um começo.
Ele parte inicialmente de uma observação feita pelo “mais-um” desse cartel, na nossa primeira reunião. Discutíamos sobre o quão ampla eram as possibilidades de relação entre escrita e psicanalise: análise de uma obra, o estudo de um autor específico,  a busca por conceitos psicanalíticos em uma obra, etc. Mas nesse dia, foi ficando claro que não era nada disso que se tratava. Até que o mais-um formulou explicitamente a nossa pergunta: do que é que se trata quando se escreve? O “de que se trata” não no sentido do conteúdo, mas do processo mesmo de escrever. O que é Escrever? Porque se escreve? Como se escreve? O que acontece com quem escreve? E com o escrito?
Enfim, essas são questões ainda incipientes e que ainda não podem ser completamente respondidas. Ainda movem ao trabalho do cartel. Mas já que o nome de Marguerite Duras esteve desde o início como pano de fundo para a constituição desse cartel,  pensei que essa oportunidade de dizer algo sobre ela, seria excelente para endereçar-lhe essas perguntas e tentar ver o que ela responderia. Convido-os a seguirmos esse rastro por onde, como já disse Freud, o artista antecipa o psicanalista nas respostas. 
***
Comecemos então com o “o que é escrever?”
Temos aqui uma resposta polêmica de M.D., pois para ela, muitos daqueles que são considerados escritores,  não o são, ou não o foram. Sartre, por exemplo, ela diz que não foi escritor. Pode ter sido um cronista, um sociólogo, um moralista, mas não escritor: “O escritor é um selvagem – e Sartre é mais do que um civilizado.”.
Escrever, para Duras, é algo que nasce da possibilidade de tudo por em duvida. (Écrire, p. 21). A escrita, segundo ela, nasce de um momento fatal do qual não se pode escapar, em que tudo é posto em questão: “o casamento, os amigos, os amigos do casal. Menos o filho. O filho não é nunca posto em dúvida. E essa dúvida começa a crescer em torno de si. Trata-se de um encontro consigo onde não há mais nada a perder, só se escreve verdadeiramente quando se está perdido: quando não se tem nada a escrever, a perder, se escreve.”(Écrire, p.22)
Apesar de fatal e terrificante, esse momento em que tudo é posto em questão é o que abre caminho para aquilo que é necessário para que se possa escrever: a solidão.
Para M.D. só é possível escrever na solidão. Não existe escrita a duas mãos. Ela diz que você pode compor a duas mãos, cantar a duas vozes, por exemplo. Mas escrever jamais. Então é uma solidão necessária,  mas terrificante.
Essa solidão é tributária desse “questionar tudo” do qual não se pode fugir. É dessa dúvida, nasce a solidão. Ela diz inclusive que muita gente fugiria diante do horror disso, e é por isso que não temos tantos escritores assim.
Então é como se escrever fosse esse se descolar do que é conhecido, colocar em dúvida tudo que já se sabe, numa travessia rumo ao desconhecido. Essa é outra indicação dela sobre o que é a escrita: Não se escreve sobre o que já se sabe.  
“A escrita é o desconhecido. Antes de escrever não se sabe nada do que vai ser escrito. É o desconhecido de si, de sua cabeça, de seu corpo. Escrever não é nem mesmo uma reflexão. Escrever é uma espécie de faculdade que se tem ao lado de sua pessoa, paralela a ela mesma uma outra pessoa que aparece e avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que algumas vezes, por sua própria criação, está em risco de perder a vida. Se soubéssemos algo do que vai ser escrito antes de fazê-lo, nós não escreveríamos.” (Écrire,p.52)
Essa última frase, foi de Lacan que ela a recebeu. Lacan disse sobre ela: “Ela não deve saber sobre o quê ela escreve. Porque ela se perderia. E isso seria a catástrofe”. Duras ficou aturdida. E fez disso “uma espécie de “identidade de princípio, de um “direito de dizer” totalmente ignorado das mulheres.”

Agora, podemos perguntar sobre quais as indicações de MD sobre o  “Como escrever?”
Então, em primeiro lugar, na solidão. Em segundo lugar, ela diz: com a força do corpo. “É preciso ser mais forte que si mesmo para poder abordar a escritura, é preciso ser mais forte que aquilo que vamos escrever. É uma coisa engraçada, sim. Não é apenas a escrita, o escrito. É o grito das feras da noite, os gritos de todos, os meus e os seus, o grito dos cães. É a vulgaridade massiva, desesperadora, da sociedade. A dor, é também Cristo e Moisés, e os faraós e todos os judeus, e todas as crianças judias, é também o mais violento da bondade.” (Ècrire, p.24)
Enfim, perguntemos agora à Duras: porque escrever?
Para escapar da morte, diz ela. “A solidão é isso, ou o livro, ou a morte”. “Ser escritor é se encontrar diante de um horror onde só a escrita poderá salvá-lo”.
Temos então em M.D. esse conjunto de elementos sobre o que é a escrita e o processo de escrever: a vida posta em questão; a dor; a solidão; a busca por algo que possa salvá-la da morte; a necessidade de nisso colocar o corpo e, eu gostaria de adicionar, a possibilidade de devir outra coisa a partir do escrito. Por exemplo, na entrevista que ela concedeu a Bernard Pivot em 1984 para o programa de TV Apostrophe, ela diz que com o livro “o amante” foi que ela conseguiu perdoar o irmão. E noutro momento quando ela fala da casa que conseguiu comprar com a venda de “barragem contra o pacifico”, obra em que ousou falar da mãe.
Veremos agora o que esses elementos podem nos ajudar a pensar a questão da escrita na psicanálise.
Escrita em Duras e Psicanálise: Pontos de interseção
Lacan aproximou de alguma maneira a função do escrito e aquilo que se processa em uma análise. No Seminário 18, De um discurso que não fosse do semblante, por exemplo, ele diz que “a diz-mansão da verdade em sua morada é algo que só se faz pelo escrito na medida em que é somente a partir do escrito que se constitui a lógica.”
Como poderíamos entender essa frase de Lacan?

Se remetermo-nos a experiência, o que é fazer análise? É antes de tudo falar. Falar livremente, disse Freud, associando. Porque topamos, nós e cada analisante que inicia seu percurso, essa proposta freudiana? Penso que entrar verdadeiramente nisso só é possível quando, como disse Duras, algo é posto em dúvida. Não só os amigos, os amores... mas aquilo que dava sustentação a todas essas relações. Não é quando surge um sintoma que alguém busca verdadeiramente uma análise. Mas quando o “sujeito vê soçobrar a segurança que ele extraía dessa fantasia em que se constitui para cada um sua janela sobre o real”. (Lacan, sem 13 apud Quinet). Nessa frase Lacan está tratando da travessia da fantasia que conduz ao final de uma análise. Mas penso podermos dizer que isto já está colocado desde o início. Sem esse “por em questão” como diz Duras, não há escrita, não há análise.
Daí, a solidão. Também não se faz análise à dois. Primeiro porque a análise promove uma descolagem do outro imaginário, apontando para o impossível de fazermos dois com ele. Depois porque, embora estejam ali presentes, analisante e analista, não se trata de uma relação intersubjetiva. O analista não está ali como pessoa, nem mesmo como sujeito. Ele está ali como semblante do resto que sobrou da divisão constitutiva do sujeito, divisão estrutural e inevitável para todo ser falante. Como disse Dominique Fingermann certa vez aqui em Fortaleza, o amor de transferência diz “dois”. O analista em seu ato, diz “um”.
Então, topamos essa solidão e nela um gozo permitido: tudo falar, livremente, associar. Constituímos assim a diz-mansão ou a mansão dos ditos[1].
Podemos dizer que “interrogar a diz-mansão da verdade” é a função de uma análise. Muitos ditos, que em sua rede de associações começam a remeter a um dizer. A verdade teria a ver com isso, com o dizer que funda todos esses ditos. Nesse sentido, interrogar a verdade seria extrair um dizer, ou seja uma lógica, desses ditos. E isso só seria possível a partir do escrito. Teríamos então uma escrita da análise. Ou, como diz Luciano Elia, num dos primeiros textos que lemos no nosso cartel da Escrita e Psicanalise:
“A função da escrita permite a interrogação sobre a verdade, tornando efetivas e permanentes as consequências do dizer do sujeito em análise (dizer que, fora da escrita, pode esvanescer-se em sua contumaz paixão pela ignorância, pelo não saber) e, como o que permite escrever o gozo em um novo corpo, o corpo de letras que substitui o corpo do sintoma. O corpo do neurótico, mal tratado pelo sintoma, pode ser reescrito em um corpo de letras: o gozo, escrito nesse corpo, não é o mesmo gozo de que o sujeito padecia, no tempo em que as letras que poderiam escrevê-lo estavam para ele perdidas.” (Elia, p.135)

Vemos agora surgir aí a terceira intercessão entre a escrita durassiana e a análise: é preciso comparecer com o corpo. Como disse Freud, “́impossível liquidar alguém in absentia ou in effigie”, sendo que o alguém em questão não é certamente o analisante, mas o gozo mortífero da repetição do qual o sujeito padece.
Mas aqui, acho importante pontuar pelo menos uma diferença radical entre a escrita segundo Duras e o processo de análise. É que, pela operação do discurso do analista, é possível, pelo menos em certa medida, evitar que a passagem ao ato leve o sujeito às raias do suicídio ou do alcoolismo desenfreado. O sofrimento de Duras com o Álcool foi retratado no livro de Yann Andréa Steiner (com quem M.D. formou um improvável casal: ele, um jovem homossexual. Ela, uma mulher já deidade avançada). Apesar de ter tido problemas com álcool ao longo de boa parte de sua vida, o livro M.D. retrata um período em que ela esteve á beira da morte, desacordada por vários meses. Na verdade, na entrevista concedida ao programa Apostrophe, ao ser perguntada se passou por uma ressurreição, ela diz que não e dá a entender que morreu mesmo ali. Enfim, acredito que o desejo do analista pode conduzir as coisas sem carrear tanto estrago.  
Certamente, há diversos outros elementos que afastam a escrita do artista, da escrita numa análise. A possibilidade mesmo de um final onde ocorra essa reescrita do corpo, não acho que seja plenamente viável através da arte. Penso aqui em Ernest Hemingway que, ao ser perguntado se fazia análise, respondeu que seu analista era a sua Corona portátil, número três (referindo-se à sua maquina de escrever) mas que,  posteriormente suicidou-se com a mesma arma com que o pai havia se matado anos antes e que sua mãe o enviara pelo correio. Todos recebemos os desígnio do Outro de alguma maneira, alguns de forma mais trágica e direta...
Então, acredito que seja a isso que Lacan se refere quando diz que o analista seja o único parceiro com alguma chance de responder. Responder fora da repetição e seu gozo mortífero.
 No entanto, a despeito das diferenças, mais uma vez podemos dizer que Freud acertou em cheio quando disse que o artista sempre precede o analista.

(Texto apresentado no Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza, por ocasião da comemoração do centenário de Marguerite Duras)




[1] Com diz-mansão Lacan faz um jogo de significantes que remete à dimensão da verdade, mas também morada da verdade, lá onde moram os ditos.